
Eu No Mentiria Para Voc

Cecily Von Ziegesar - Gossip Girl 10



                             oi, gente!
J se sentiu a garota mais sortuda do mundo? Bom,  claro que no, porque esta sou eu. Neste
momento, estou tomando banho de sol na ber-social e incrivelmente linda Main Beach em East
Hampton, olhando os meninos mauricinhos tirando suas camisas plo Lacoste em tons pastis e
passando Coppertone nos ombros bronzeados. Est vendo, existe um motivo para qualquer nova-
iorquina que no queira sair da cidade passar os veres nos Hamptons, e  o mesmo motivo pelo qual
as pessoas usam sandlias de tiras Christian Louboutin ou voam na primeira classe: o melhor 
simplesmente o melhor.

E por falar no melhor, ningum faz melhor do que a Eres. Sou uma garota modesta, mas at eu acho
que fico maravilhosa com o suti do biquni cor de manga e os shorts da mesma cor. T legal, talvez eu
no seja assim to modesta, mas por que deveria ser? Se voc estivesse olhando este lindo corpinho
deitado nas areias brancas da praia de East Hampton, concordaria comigo. Como aprendi na escola
particular e exclusivamente de meninas no Upper East Side, no se faz alarde sobre o que no 
verdade.

Graas a Deus o vero est a, e enfim nos reduzimos ao trabalho rduo de pegar leve. Depois de um
ms de junho movimentado na cidade, julho chegou com uma brisa suave do Sound e reservas em
todos os melhores restaurantes dos Hamptons. A Manhattan quente e mida fica aqui perto, mas
preferimos andar por a descalas com nossos biqunis Eres ou Missoni de estampa de tapearia e
sarongues de batik Calypso, ou rodar em nossas Mercedes CLK 500 conversveis e platinadas pela
Main Street de East Hampton em busca da vaga eternamente esquiva e dos rapazes de cales
Billabong.

Somos os caras de cabelo banhado de sol, voltando de Montauk com nossas pranchas de surfe presas
nos racks do teto de nossos Cherokees. Somos as meninas rindo nas nossas toalhas de praia cor de
lima ou framboesa, ou estacionando para algum mimo ps-sol no Aveda Salon em Bridgehampton.
Somos os prncipes e princesas do Upper East Side e agora mandamos na praia. Se voc  um de ns,
isto , dos escolhidos, eu o verei pela ilha. Parece que a temporada j est a todo vapor, em especial
agora, que alguns de nossos rostos preferidos decidiram nos dar a honra de sua presena. E eles so...

a dupla dinmica

S para sua informao, no consigo acompanhar nenhuma das duas. O boletim do tempo dessas duas
parece mudar todo dia. Ser que so amigas? So inimigas? Muy amigas? Amantes? Voc sabe de
quem estou falando: B e S, e a nica coisa de que tenho certeza  que elas agora so cones
certificados e oficiais da moda. Sim, ns sabemos disso h muito tempo, mas parece que a elite fashion
finalmente entendeu. Depois de conhecer B e S no set de filmagem de Breakfast at Fred's no ms
passado, um certo estilista influente de-chinelo-de-veludo-com-monograma -- ele, o cara de Palm
Beach, de dentes recapeados e bronzeado o ano inteiro -- decidiu manter as duas meninas em sua
manso em Georgica Pond para se inspirar. Espero que seu pequeno zoolgico (que soube que inclui
vrios ces de companhia, duas lhamas e duas modelos esqulidas de olhos de pires arrancadas do
ostracismo estoniano para estrelar sua prxima campanha publicitria) no fique com inveja demais das
recm-chegadas. Ah, a quem estou enganando? Estas duas sempre fazem todo mundo ficar com
inveja. Afinal, temos muito o que invejar nelas.
 vero, e viver no  fcil...

..para os outros. Parece que algumas meninas realmente tm toda a sorte do mundo e todos, menos
ns, vivem na maior dureza. Por exemplo: O coitado do N, trabalhando todo dia na casa enorme do
treinador ou amuado em sua piscina em Georgica Pond com toda a sua solido. Por que ele est to
triste? Pelo colapso do romance com aquela caipira piranhuda e grudenta? Pode acreditar, ela no
reconheceria um biquni Eres nem que algum o atirasse em sua cabea loura de farmcia. Mas pera:
eu estou disponvel...

A coitada da V, presa em seu prprio crculo dos infernos: vivendo com o amor de longa data D, mas
sem beij-lo, tirando meleca da cala cargo preta Carhartt enquanto os garotinhos hiperativos de quem
est cuidando arrotam o alfabeto.

E o coitado do D... Bom, talvez ele no merea tanta piedade, uma vez que est traindo V com aquela
enjoada que faz ioga, e agora V est enfiada no quarto rosa-claro de J, a irm mais nova de D. Alm
disso, ele ainda tem seu emprego e uma lata aparentemente sem fundo de caf solvel Folgers.
s vezes parece que ele gosta mais de caf e poesia ordinrios do que de mulheres. Nem consigo
imaginar isso!

seu e-mail

P: Cara GG,
    No sei a quem mais posso recorrer, ento, por favor, me ajude. Tentei chegar na minha linda
    vizinha de cima, mas no deu certo. Depois conheci a colega de quarto incrvel dela, e deu certo
    totalmente... Ou parece que sim. Tivemos um lance romntico de vero-na-cidade e ela at disse
    que talvez eu possa visit-la nos Hamptons. Depois, no dia seguinte, bati na porta do quarto dela e
    a garota tinha ido embora. Sem mveis, nem roupas, nem bilhete, nada. O que  que t pegando?
    Eu ligo para ela, ou  assdio demais?
    -- Largado e Magoado

R: Meu caro L&M,
    Pode ser muito difcil segurar os melhores de ns. Se tiver que acontecer, ela vai voltar e encher
    voc de beijos suaves como ptalas. E se no tiver, guarde com carinho suas lembranas e
    coloque na conta da natureza fugaz dos romances de vero. Nesse meio-tempo, se voc estiver
    disponvel, quem sabe eu no posso ajudar a curar seu corao magoado? Mande uma foto!
    -- GG

P: Cara GG,
    O flagra mais esquisito de todos os tempos: uma verso impostora e alien de duas meninas que
    meio que conheci em Nova York, uma loura gata e uma morena magrinha, rindo na praia perto do
    Maidstone Arms, juntas. Eram como Louis Vuitton de camel -- de longe, pareciam verdadeiras,
    mas de perto... Bom, algumas coisas no d para falsificar. Quem so elas?
    -- Viso Dupla (ou Qudrupla)

R: Caro VDoQ,
    Agora que certas loura e morena viraram as musas de um estilista muito famoso e extravagante,
    vamos ver cada vez mais imitadoras. Isso vai deixar os meninos doidos. A pergunta , quem vai
    chamar a ateno das verdadeiras?
    -- GG

flagras
B comprando malas novas -- uma busca que a levou  Barneys, depois  Tod's, depois  Bally. Ser
que ela no se cansa nunca?  bvio que no, e nem o AmEx preto de B, que a me acaba de devolver
depois da farra de compras internacional de 30 mil dlares. Nossa! S na banca de jornal na esquina da
84 com a Madison, abastecendo-se de cada revista de moda e fofoca que existe, olhando
disfaradamente as colunas, procurando o prprio nome. Uma garota precisa de alguma coisa para ler
na praia. N com um jeito abatido, pegando seis latas de Corona morna naquela loja de bebidas
vagabunda em Hampton Bays. No se sabe se ele estava fazendo estoque para um churrasco
romntico ao pr-do-sol na praia ou s afogando suas mgoas. Dadas as besteiras na festa de
encerramento de Breakfast at Fred's, provavelmente a ltima opo. V e D juntos (mas no como voc
pensa) na bodega da esquina da 92 com Amsterdam, abastecendo-se de vveres para seu lar
comunitrio. Eles parecem tanto que so casados h muito tempo -- muito papel higinico e nenhum
sexo. K e I na Union Square Whole Foods distraidamente esbarrando os cestos de compras nos outros
clientes enquanto a limusine preta esperava do lado de fora. Um conselho, meninas: vocs podem estar
estocando agrio, biscoitos de arroz e gua com gs sem sabor para levar para os Hamptons, mas
quando se servirem de cinco (ou seis, ou sete) das amostras de trufas, vo estourar a dieta do biquni.
Ainda assim, como  bom. C saindo de novo de um hiato de uma semana na cena social. Por acaso ele
se escondeu em sua sute de cobertura preferida no novo Boatdeck Hotel na Gansevoort Street... E ele
no estava s: uma certa loura bronzeada, cujas razes parecem ter crescido pelo menos um
centmetro, estava ao lado dele. Lembra dela? Eu sei que N se lembra.
Gente, julho vai ser abafado e alvoroado, mas vocs sabem que eu nunca descanso. Vocs sempre
sabero quem est chegando, quem est saindo, quem est estourando nas festas mais badaladas em
Gin Lane, Further Lane e todas aquelas boates bregas dos Hamptons, e quem est escapulindo
sob o manto frio da noite. Afinal, eu estou em todos os lugares. Bom, pelo menos em todos os lugares
que valem a pena.

                         Pra voc que me ama,
                         gossip girl

s e b entram na casa dos espelhos
-- Ol? Ol? -- Blair Waldorf e Serena van der Woodsen olharam o saguo pouco decorado
do retiro moderno-meados-dosculo de Bailey Winter em East Hampton. Do lado de fora, as
hortnsias floresciam, o plen voava e a temperatura subia, mas dentro era frio, clean e claro.
Blair largou a enorme bolsa Tod's de couro salmo no piso zebrado e gritou novamente:
-- Ol!
-- Algum em casa? -- Serena colocou no alto da cabea os culos de sol Chanel de armao
de madeira. Estava acostumada com casas cheias de antigidades, mas, se tivesse uma casa de
veraneio, ia querer que fosse assim: reluzente, clean e sem antigidade alguma.
-- Vocs esto aqui, esto aqui, esto aqui! -- O couturier da alta roda deslizou pela escada de
bano encerada como um beb gigante na manh de Natal, batendo palmas deliciado e
gritando por sobre o coro de ganidos dos cinco pugs que vinham atrs dele.
   Blair mandou trs beijos no ar para o estilista e percebeu, pela primeira vez, que ele era to
baixinho que sua cabea es tava exatamente no mesmo nvel que o queixo dela. Depois de
fornecer o figurino para Breakfast at Fred's, a refilmagem para adolescentes do clssico
Bonequinha de luxo com Audrey Hepburn, estrelado por ningum menos do que Serena, a
melhor e mais antiga amiga de Blair, Bailey convidara as duas para que fossem suas musas em
sua casa de veraneio em Georgica Pond. Elas o inspirariam para sua nova linha Vero/Inverno
by Bailey Winter, uma coleo s para as passarelas de seu visual mais excitante de vero e
inverno.
-- Muito obrigada por nos receber -- ronronou Blair enquanto cinco cachorrinhos farejavam
entusiasmados as unhas com esmalte rosa-claro South of the Highway sob sapatilhas de linho
branco Bailey Winter,  claro.
-- No seja tmida! -- gritou o estilista por sobre o ombro direito de Blair, sobressaltando
Serena, que ainda estava parada na soleira da porta, absorvendo a cena. -- Entre aqui e me d
um beijo agora mesmo!
   Serena seguiu o exemplo de Blair, depositando sua bolsa de lona verde Herms no cho bem
encerado e abraando o estilista diminuto. Os pugs giravam em volta dela, esfregando
os queixos babes e gordos em suas pernas j bronzeadas.
-- Ah, meu Deus, comportem-se! -- Bailey repreendeu os ces, embora eles no dessem a
mnima, abanando como loucos os pequenos traseiros louros. -- Meninas, permitam-me que os
apresente. Estes so Azzedine, Coco, Cristbal, Gianni e Madame Grs. -- Ele assentiu para os
cinco cachorros de olhos esbugalhados. -- Meninos, estas so as garotas: Blair Waldorf e
Serena van der Woodsen, minhas novas musas. Sejam bonzinhos!
-- Devo levar as malas? -- perguntou uma voz grave com um sotaque vagamente alemo.
Blair se virou e viu um rapaz desengonado de cabelo embaraado entrar na sala, vindo do
corredor ensolarado que levava aos fundos da casa. Blair pde ver uma piscina quase negra de
fundo infinito atravs da vidraa de parede inteira atrs dele. O rapaz vestia uma camiseta
laranja puda que mal cobria os bceps cor de caramelo, e bermudas cargo verde-oliva
esfarrapadas que iam at abaixo dos joelhos. Onde ela o vira antes? Num catlogo da
Abercrombie?
De cueca em um outdoor na Times Square?
Em seus sonhos?
-- Ah, o-l, Stefan -- guinchou Bailey. -- As meninas vo ficar na casa de hspedes.
-- Perfeitamente. -- Stefan sorriu, pegando as bolsas abandonadas de Serena e de Blair.
-- Tem mais no carro -- informou-lhe Blair, admirando como os bceps de Stefan se contraam
enquanto ele lutava com a bolsa abarrotada.
-- Mas que menina terrvel! -- cochichou Bailey, vendo o olhar de Blair. Ele colocou um
brao bronzeado, embora um pouco laranja, nos ombros dela, apertando-a. -- Ele  uma
coisa, no ?
  Blair assentiu com entusiasmo, ainda que a viso dos braos retesados e o cabelo queimado
de sol de Stefan a fizessem pensar no um dia, talvez ainda, amor de sua vida, Nate Archibald.
O sol sempre parecia produzir mgica no corpo de Nate. Ele podia estar usando uma camisa
plo de nerd de quatro anos atrs e a bermuda cqui Brooks Brothers pregueadas que a me
sempre lhe comprava, mas, com aquele bronzeado, ele ainda era ridiculamente gato.
   Ao chegar de carro  casa de concreto e vidro de Bailey alguns minutos antes, Blair no pde
deixar de olhar disfaradamente a entrada da casa do vizinho, procurando pelo carro de Nate. A
famlia dele sempre passava o vero no Maine, mas ela soube que ele estava na nova casa de
praia dos Hamptons enquanto trabalhava para o treinador. Ela nunca estivera, mas sabia que
ficava em algum lugar por perto. No que realmente tenha pensado nisso, nem nada.
  Mas  claro que no pensou.
  Eram as ltimas frias de vero de toda a sua vida -- sim, a universidade tambm teria frias
de vero, mas Blair esperava que fossem cheias de estgios importantes em revistas de
moda, escavaes arqueolgicas no deserto de Mumbai ou pesquisa antropolgica no sul da
Frana. Dali a apenas oito semanas ela colocaria as malas no novo BMW creme (um presente
de formatura de seu pai viajado e gay, mas ainda assim um doce) e iria para New Haven
comear sua nova vida como aluna de Yale. At l, ela estava decidida a aproveitar o
mximo de sua vida como musa da moda. Ia passar os dias tomando licor limoncello e vodca
gelada  beira da piscina e as noites amassando os msculos do brao de Stefan. Ou procurando
por Nate. Ou sem procurar por Nate. Tanto faz.
-- Sua casa  linda.
O som da voz de Serena arrancou Blair de seus devaneios e ela parou de admirar os braos
modelados de Stefan, examinando a melhor amiga, que estava sentada no cho, cercada
dos ces de Bailey, sorrindo feliz. Usava um vestido Marni longo de algodo branco com alas
finas e debrum de croch roxo, que em qualquer outra produziria um efeito titia hippie de So
Francisco, mas  claro que em Serena era totalmente encantador.
-- Fico feliz que meu humilde lar atenda aos padres severos de Serena van der Woodsen --
respondeu Bailey.
  Seis quartos, sete banheiros, avirio, casa de hspedes, heliponto e quadra de tnis? Um
humilde lar, sem dvida.
  Serena aninhou Coco nos braos e beijou sua cara adoravelmente deformada. A pug arfou e
bufou feliz. Serena no rolava no cho com um cachorro desde que namorou o meio irmo de
Blair, Aaron. O cachorro dele, Mookie, babou todo o quarto de Blair e assustou Kitty Minky, a
gata de Blair, fazendo- a urinar em toda parte, mas Serena gostava dele assim mesmo. Ela se
perguntou se Bailey deixaria Coco dormir com ela na casa de hspedes  noite, como um
ursinho de pelcia vivo.
-- Algum tem uma quedinha por voc, hein, Coco? -- piou Bailey, afagando a cadelinha sob
o queixo fofo como se ela fosse um beb peludo. -- Vamos, vamos. Vamos fazer um tour.
  Blair franziu a testa para os outros quatro cachorros, que a encaravam com expectativa. A
ltima coisa que queria era baba de vira-lata em sua tnica de linho Calypso.
-- Por aqui, meninas. -- Bailey acenou, liderando os cinco ces e as duas meninas como um
bando de patos pelo corredor cavernoso, entrando na parte principal da casa. O corredor
era revestido de pinturas circulares vermelhas de Elssworth Kelly, tomando toda a parede, que
Blair reconheceu de uma matria sobre a casa de veraneio de Winter na edio do vero
passado da Elle Decor, e se abria para uma cozinha enorme com bancadas de concreto. Uma
enorme tigela de teca, cheia de limes amarelos, estava no meio de uma bancada. -- Esta  a
cozinha -- explicou o anfitrio jovial. -- Mas s o que vocs realmente precisam saber  que o
bar fica bem ali. -- Ele apontou para uma mesa de metal coberta de uma pilha assimtrica
de garrafas de vidro. -- Permitam-me.
  Bailey despejou uma das bebidas claras sobre gelo, espremeu umas folhas de hortel e passou
dois martnis completos a Blair e Serena, que teve que colocar Coco debaixo do brao
para pegar a bebida.
-- O que  isso mesmo? -- Blair ergueu as sobrancelhas escuras e perfeitamente arqueadas,
cheia de desconfiana.
-- S um ch de hortel para minhas meninas! -- Bailey esvaziou a taa de martni num longo
gole, depois serviu-se novamente. -- E a geladeira est abastecida, ento podem atacar. S no
me contem nada...  temporada de biquni, sabiam?
-- Tudo bem -- concordou Blair, revirando os olhos para dentro. Os velhos sempre falavam de
cuidar do que comem, mas ela pretendia consumir o mximo de sorvete Cold Stone Creamery e
po Balthazar que pudesse e ainda ficar maravilhosa no novo biquni Bluemarine marfim e
azul-celeste.
  Nham-nham.
-- Venham, venham. -- Bailey abriu as portas para o ensolarado ptio de pedra-lipes. -- Esta 
a piscina, e este -- continuou ele, apontando um bangal baixo de concreto que parecia uma
verso em miniatura da casa principal --  sua segunda casa. A casa de hspedes. Eu diria que
vocs ficaro bem confortveis aqui. Temos um ar-condicionado no mximo e os lenis so
importados da mbria, e Stefan providenciar qualquer coisa de que precisarem.
   Qualquer coisa?
-- S h mais duas pessoas muito importantes que vocs precisam conhecer -- disse Bailey
entusiasmado e bateu palmas alegremente, derramando o que restava do coquetel. -- Svetlana!
Ibiza! Frente e meio, por favor!
  Mais cachorros?
-- J vamos, senhorrr Winterrr!
Duas amazonas pernudas irromperam da casa de hspedes -- a casa de hspedes delas -- e
correram para Blair, Bailey e Serena. Os ces explodiram num coro de latidos de xtase.
-- Eu ser Svetlana -- anunciou a garota de cabelo louro-esbranquiado na altura do traseiro e
nenhum quadril que se pudesse ver. Vestia um minsculo biquni laranja-non, e dois mnimos
tringulos laranja cobriam os peitos inexistentes.
-- Eu sou Ibiza -- pronunciou a outra menina com cuidado. Tinha o cabelo cortado em
camadas, tingido de castanho, emoldurando o rosto quase de raposa, olhos azuis brilhantes
e um sorriso bonito que era meio estragado por dois aparelhos proeminentes. O mai de listras
lavanda e dourado era um daqueles horrorosos e complicados trajes de banho recortados que,
de trs, pareciam um biquni. Um recorte circular cuidadosamente colocado na frente revelava
o umbigo bem encrespado.
  Eca!
  Ibiza, o que mais parecia uma marca de carro do que um nome, colocou as mos no brao de
Blair e beijou o ar duas vezes. Blair estremeceu de pavor, percebendo que, a no ser pelos
terrveis problemas ortodnticos, a menina era muito parecida com ela. Blair se encolheu com o
aperto da garota e examinou a outra modelo, que era, olhando bem de perto, uma verso diluda
de Serena, tirando a elegncia, o porte e a criao da Nova Inglaterra. Mas o que  que estava
acontecendo?
-- Ibiza e Svetlana sero os rostos da nova linha, queridas. Nos anncios, entendem? --
explicou Bailey com um suspiro de satisfao. -- Vocs duas so a inspirao,  claro.
     claro.
-- Elas esto aqui para observar vocs. Para ser vocs, na verdade -- continuou ele,
erguendo teatralmente a taa de martni como se estivesse estrelando Rent na Broadway. --
Quero que elas capturem a sua essncia!
    Que coisa estranha...
--  um prazer conhecer vocs. -- Serena estendeu a mo para as meninas, virando-se
primeiro para sua ssia. Serena sempre era infalivelmente educada, mas nem ela pde deixar
de estremecer por dentro. Alm da voz fina e do gosto discutvel no mai, Svetlana era
igualzinha a ela, mas no era possvel. Parecia o Halloween da quinta srie, quando ela e Blair
se vestiram de professoras, com peruca, cardigs feios da Talbots e mocassins marrons.
-- Vai ser como uma festa do pijama gigante! -- gritou Bailey como uma menininha de seis
anos.
  Ibiza e Svetlana deram uma risada falsa.
-- Guerra de trravesseirro! -- gritaram elas em unssono com o forte sotaque da Europa
oriental.
-- Meu Deus, vocs duas so divinas! -- Bailey atirou a taa no gramado verde aveludado e
bateu as mos novamente num aplauso acelerado.
   Blair olhou as imagens quase idnticas dela e de Serena. Para todos os outros, elas deviam
parecer bonecas Barbie felizes, despreocupadas e desnutridas, mas Blair sempre foi mais
perceptiva do que a mdia das garotas.  claro que Ibiza e Svetlana deviam s ficar sentadas
esperando que Blair e Serena entrassem por seus poros, mas Blair podia ver outra coisa
naqueles olhos de conta estrangeiros. Alguma coisa calculada e decididamente cretina.
    E ela sabia do que estava falando.
   No interessava a estas duas ficar em segundo plano. Sem dvida Ibiza e Svetlana tinham
outra coisa em mente.
   Bom, ento t.
   Blair virou-se e sorriu para Serena, de repente muito feliz por estar com a melhor amiga, e
pegou sua mo.
-- Vamos dar uma esfriada -- cochichou ela com malcia.
-- Boa idia. -- Serena entendeu de imediato. Ela libertou Coco de seu abrao. Depois a dupla
saltou na piscina tentadoramente azul, de sapatos e tudo, guinchando ao carem na gua na
temperatura do corpo.
-- Aiii! -- gritou Bailey enquanto a gua clorada da piscina espirrava em suas calas de linho
branco. -- Ora essa, isto -- anunciou ele a ningum em particular --  inspirador. Hilfe!
Stefan, rpido! Meu bloco! Bitte, meu bem!
   Blair afundou a cabea na gua luminosa e ondulante, sentindo o cabelo escuro girar em
volta dela. Veio  tona bem a tempo de ver Ibiza virar-se para Svetlana, com um ar conspirador.
   E as macacas de imitao chegaram  beira da piscina e mergulharam para o fundo feito
msseis, os ossos batendo na gua.
   Bem-vindas a sua nova famlia, meninas!



n reconhece uma dona-de-casa desesperada quando
v uma
- Nate? Naa-teeee? Onde voc est se escondendo, meu groselhinha?
  Esse grito abafado e distante fez arrepiar os plos clareados pelo sol da nuca bronzeada de
Nate. Ele escolheu intencionalmente o sto sujo mas deserto da casa do treinador Michaels
para escapulir rapidinho de mais um dia de servo contratado na parte no-to-da-moda de Long
Island.
  Escapulir,  claro, significava para a terra dos chapados. Inalar THC, exalar CO2.
  Ele deu um longo trago no baseado recm-enrolado e soprou uma nuvem de fumaa quente e
seca para fora da janelinha, esforando-se para ouvir de onde vinha a voz. A voz em questo
pertencia a patrcia, tambm conhecida como Babs, a esposa do treinador Michaels, sempre
presente e em geral tomando banho de topless na beira da piscina. Nate estava trabalhando na
casa dos Michaels em Hampton Bays desde a formatura  ou, no caso dele, semiformatura, uma
vez que ainda no recebera o diploma, devido ao incidente infame do roubo do Viagra. E
embora Babs sempre fosse simptica  levando-lhe copos altos de ch gelado com limo
enquanto ele tripulava o cortador pelo adorado gramado do treinador, insistindo que ele
comesse uma fatia de torrada de canela com manteiga quando ele aparecia de manh, de olhos
baos e pronto para trabalhar -, nos ltimos dois dias ela estava... Bem, simptica demais. Ele
podia ficar chapado durante a maior parte do tempo, mas era esperto o bastante para perceber
que Babs Michaels sem dvida estava a fim dele.
  Mas no estamos todas?
  Nate parou e concentrou toda sua energia em escutar a casa silenciosa, mas o nico barulho
que ouviu foi o martelar de seu corao doido e nervoso. Levou o baseado  boca de novo e
parou  talvez a maconha o estivesse deixando paranico, mas pensou ter ouvido alguma coisa.
Pareciam passos se aproximando.
  Merda! Nate apagou o baseado apressadamente no peitoril de madeira spera, lanando uma
chuva de fascas no cho. Que timo - no s estava prestes a ser flagrado fumando um baseado no
trabalho, como ia incendiar a droga da casa. Ele enfiou o baseado no bolso - no tinha sentido
desperdiar - e abanou freneticamente a fumaa pela janela aberta.
   - Est ai em cima, Nate?-A voz de Babs trovejou do p da escada do sto. - Estou sentindo
cheiro de coisa... ilegal? Sabia que tambm fui adolescente? E no faz muito tempo!
   Nate ainda agitava as mos freneticamente quando Babs apareceu no alto da escada. Um sorriso
tmido se espalhou pela cara enrugada e meio queimada de sol dela. Seu cabelo tingido de ruivo
estava puxado num rabo-de-cavalo malfeito. Um halo efervescente de vermelho se projetava de sua
testa.
- Ai est voc. - Babs suspirou. - No me ouviu chamar?
 Nate sacudiu a cabea, de repente muito preocupado de estar chapado demais.
- Bem - continuou ela, andando para ele e passando pela pilhas de caixas de papelo, os brinquedos
velhos e todo o lixo que ela e o treinador guardavam ali em cima. - Sabe o que meu marido disse?
Enquanto ele estiver fora, voc  meu.
 - -- - gaguejou Nate. O treinador ia passar a semana toda numa conferncia de lacrosse em
Maryland, provavelmente aprendendo novas tcnicas para torturar os meninos do ensino mdio.
Nate de repente entrou em pnico: e se ele no tivesse apagado completamente o baseado? Ser que
suas calas iam pegar fogo?
  Ai.
 - O caso, Nate - continuou Babs, passando os dedos pelo guidom de uma bicicleta Schwinn
enferrujada que estava pendurada no teto -,  que eu preciso de uma ajuda. Voc me faria um favor?
  - Claro - assentiu ele. - Estou aqui para isso.
  - Bem, esse favor em particular pode estar fora da descrio do seu cargo - admitiu ela. - Mas se
voc for bonzinho e me ajudar, talvez eu no fale nada sobre o fato de meu sto feder como um
show do Greatful Dead. O que me diz disso?
     O que se pode dizer a uma chantagista?
- Eu ... Desculpe - gaguejou Nate. - No vai acontecer de novo.
    Babs riu.
- No pode esperar que eu acredite nisso. - Ela sorriu, empurrando a bicicleta invertida para Nate,
que ainda estava empoleirado na janela. - Mas no importa. Preciso de uma mo, e voc tem duas. -
Ela pegou as mos dele agora calejadas, examinando-as. - Duas mos muito fortes e capazes.
     Nate se perguntou se no devia avisar ao treinador Michaels que havia um motivo para que seus
filhos no fossem parecidos com ele: Babs deve ter traado cada entregador que chegava com as
compras dela!
   - O que posso fazer pela senhora? - perguntou ele, tentando parecer educado e animado, embora
ouvisse a prpria voz tremer de puro pavor.
   Babs soltou as mos dele e abriu o primeiro boto da blusa de algodo rosa.
   - Decidi preparar uma surpresinha para o treinador. Ela abriu outro boto.
   - Sei-respondeu Nate num tom montono. E ele viu um colo impressionante: nenhuma marca de
bronzeamento, graas ao regime vespertino de banhos de sol de topless.
    Que legal.
  - Decidi fazer uma tatuagem. -Ela riu, abrindo o ltimo boto da blusa, deixando-a escorregar
pelos ombros e cair no cho. - S uma coisinha para o treinador descobrir quando chegar em casa.
   - timo. - Ele assentiu. Contato visual, contato visual, contato visual.
   - Mas tenho que cuidar muito bem dela  sussurrou Babs com a voz rouca, virando-se de costas
para Nate e revelando a tatuagem de uma borboleta mnima, as asas verdes abertas no couro
lustroso da parte inferior das costas.  Mas no consigo alcanar - continuou ela. - Sabe meu
tatuador, o Matty? Ele disse que tenho que passar essa pomada a cada duas horas.
    Nate examinou a tatuagem, tentando desesperadamente clarear a cabea. O que devia fazer nesta
situao? Babs era legal, mas, assim to perto, sua pele parecia uma luva de beisebol velha e
surrada, e o perfume dela era como sabonete de banheiro de posto de gasolina.
    No admira que o treinador Michaels precise daquele Viagra.
  E por falar no homem: ele acabaria com Nate, e no s no sentido figurado, se soubesse que a
mulher tinha tirado a blusa na presena dele. Por outro lado, se ele no passasse a pomada em Babs,
ela ia contar ao treinador Michaels que ele estava fumando maconha no trabalho. Era provvel que
o treinador no desse o diploma a Nate no final do vero, o que significaria que ele no iria mais
para Yale e destruiria basicamente toda a sua vida.
  Suas opes eram um tanto limitadas.
  - Onde est a pomada? - perguntou ele a Babs, fechando os olhos enquanto passava. Ele
vasculhou o crebro de chapado,procurando alguma coisa assexuada para falar. - Humm, depois
disso tenho que tirar aquele cortador de grama do sol, se no pode explodir. No quero comear um
incndio.
  Tarde demais, meu bem. Tarde demais.

as mentes distorcidas pensam do
mesmo jeito

- Ai, merda - murmurou Dan Humphrey, queimando a lngua na gua quente com caf solvel
Folgers que servia de substituto para uma xcara de caf normal.
    J ouviu falar em Starbucks, meu filho?
   Dan colocou um Camel meio torto na boca e tentou ao mesmo tempo tirar um trago enquanto
soprava para esfriar o caf, o que era totalmente impossvel. O caf espirrou da caneca de cermica
calombenta cor de berinjela que a me tinha feito anos atrs, antes de se mudar para a Hungria ou
para a Repblica Tcheca ou sei l onde morava, e caiu no piso sujo de linleo amarelo. Ele
definitivamente no era uma pessoa matinal.
  Dan ps a lamentvel caneca numa parte semi-abarrotada da velha bancada de frmica da cozinha
e foi at a geladeira bege dos anos 1970, na esperana v de encontrar alguma coisa comestvel para
mastigar no metr. S tinha vinte minutos para chegar ao trabalho - um emprego dos sonhos na
Strand, o esparramado sebo de vrios andares em Greenwich VilIage - e se no comesse agora,
quando chegasse a hora do almoo estaria semimorto de desnutrio.
    Prendendo a respirao para evitar a exposio a algum cheiro infeliz, ele enfiou a cabea no
eletrodomstico barulhento e deu uma olhada no cenrio: um pote antigo de CorningWare com uma
mistura coberta de mofo verde e penugento, uma tigela de cermica transbordando de restos de
vegetais no-identificveis, um pote de plstico transparente contendo ovos meio cozidos em que a
irm, Jenny, desenhara carinhas antes de ir para a Europa havia mais de um ms. No era nada
bonito.
 - Nem se incomode com isso - murmurou uma voz atrs dele. - Eu olhei ontem  noite. No h
nada de remotamente comestvel a dentro.
   Ele fechou a geladeira e deu um sorriso amarelo para Vanessa Abrams, cujo status evolura de
melhor amiga a namorada e, depois, a colega de apartamento. Depois de muitos altos e baixos -
todos envolvendo o olho errante e excitadio de Dan -, eles decidiram que era melhor ser amigos
que dormiam em camas e quartos separados. Era s por acaso que estes quartos ficavam no mesmo
apartamento, porque Vanessa tinha ficado sem-teto graas  irm totalmente cretina e seu novo
namorado tcheco.
  - ,  uma droga. - Dan largou o cigarro na pia, onde ele se apagou com um chiado. - Estou com
tanta fome.
   - Hummm - grunhiu Vanessa, colocando uma caneca de medidas com gua no microondas, o
nico recipiente limpo que pde encontrar. Ela derramou caf no cho ao tentar colocar uma colher
na xcara. Tambm no era l uma pessoa muito matinal.
   Um casal perfeito.
   Ela se iou para a bancada abarrotada da cozinha, as pernas brancas que precisavam ser depiladas
se esticando de uma cueca samba-cano azul-marinho surrada de Dan. Era estranho v-Ia ainda
usando uma coisa dessas, algo to intimamente dele, quando os dois no estavam mais juntos. Isso o
deixou ... triste.
   Todas as noites, na ltima semana, Dan ficava acordado na cama, perguntando-se o que Vanessa
estava fazendo no quarto ao lado. Ele a ouvia se levantar para ir ao banheiro e pensava em esbarrar
por acaso com ela no corredor escuro e familiar do apartamento. Eles cairiam nos braos um do
outro, beijando-se furiosamente at o quarto de Dan. Ele afagaria a cabea careca de Vanessa,
adorando a sensao do cabelinho curto, macio e conhecido no peito dele, o jeito como as orelhas
dela ficavam sempre to quentes quando ela se excitava...
   Dan de repente comeou a sacudir a cabea como se sua fantasia fosse uma gua presa nas
orelhas.
 - Voc est bem? - perguntou Vanessa, olhando-o desconfiada. Ela se deslocou de lado na bancada,
colocando-se ao lado do microondas.
  - Humm, t - Dan praticamente gritou, agora com os dedos mindinhos alojados nas orelhas. -Acho
melhor pegar a estrada. Tenho que trabalhar. A roda tem que girar. Sabe como  isso!
   - Por que est gritando? - perguntou ela em voz baixa, aS sobrancelhas unidas inquisitivamente.
  - Ah, desculpe. - Dan riu. Ele secou o caf de um gole s, ignorando a sensao de ardncia na
garganta, e passou por Vanessa para pegar o exemplar enrolado do New York Review of Books para ler
no metr. - Ento, tchau. Um bom dia pra voc - acrescentou ele, resistindo ao impulso de beij-la.
   - Tchau - disse ela s costas dele.
    Mas pera, isso no foi estranho?
   Com a Review enrolada e seguramente enfiada sob a axila mida, Dan quicou escada de granito
abaixo na direo da lendria e suja sala dos funcionrios na Strand. A escada escura tinha cheiro de
livro mofado, o que deveria ser desagradvel, mas na verdade era um dos cheiros preferidos de Dan.
    Ele tinha trinta segundos para esconder o jornal, pegar o crach no armrio e se apresentar ao
trreo para o servio. Nenhum dos gerentes da livraria tinha senso de humor com coisas como
atrasos. Eram pseudoacadmicos liberais irritadios que se ressentiam de empregados de vero
jovens como Dan, que eles s chamavam de "o garoto novo" ou "ei, voc", apesar de ele estar
trabalhando em tempo integral h quase um ms e de usar um crach todos os dias, como eles
prprios.
    Mas quanto glamour.
    Dan irrompeu na salinha, batendo a porta na parede por acidente, assustando um cara magricela
de cabelo louro e curto com gel e culos de aro de chifre grandes demais para sua cara quadrada e
de olhos arregalados.
   - Desculpe - murmurou Dan, disparando para o armrio designado: um cubculo minsculo s a
alguns centmetros do piso de concreto empoeirado e com dcadas de pontas de cigarro. Ele entrou
com a combinao de nerd, 28/8/49, o nascimento de Goethe, autor de seu livro favorito, Os
sofrimentos do jovem Werther, depois atirou o jornal dentro do armrio e pegou o crach de plstico
com seu nome.
   - New York Review of Books, hein? - perguntou o louro.
  - O qu? . - Dan prendeu o crach vermelho na camiseta preta desbotada, olhando com
desconfiana o estranho.
    Dan no o percebera ali antes. Era o primeiro dia dele? Ser possvel que Dan tecnicamente no
fosse mais "o garoto novo"?
  - Meu nome  Greg. - O estranho sorriu. -  meu primeiro dia.
    Carne fresca na terra dos livros mofados. Parece at uma festinha.
   - Legal. Bem-vindo ao inferno - ladrou Dan, no fundo emocionado por agora ser mais antigo ali
do que algum.
   - Pra falar a verdade, nem acredito que estou aqui - continuou Greg ansiosamente, olhando a sala
como se fosse a Capela Sistina e no um canto sujo e sem janelas num poro infestado de ratos. Ele
vestia uma camisa de manga curta no estilo caubi e uma bermuda cqui que fazia Dan se lembrar
de Vanessa. Na outra tarde, quando o ar-condicionado pifou na sala de estar, ela cortou
espontaneamente as pernas da cala cargo preta preferida para fazer uma bermuda. Meu Deus, ele
sentia falta dela.
   - Sempre quis trabalhar aqui, sabia? - continuou Greg.
   - Trabalho  trabalho - respondeu Dan, desinteressado.  claro que ele sabia exatamente do que
Greg estava falando, mas era meio divertido imitar a atitude dos outros funcionrios mais antigos da
Strand. Isso o fazia se sentir duro,como se pudesse apagar o prximo cigarro nas costas da mo de
Greg. - Vi um carrinho cheio de jornais de literatura velhos l em cima, perto do elevador. Acho
que voc deve dar conta disso at a hora do almoo.
  - Para mim, parece timo! - Greg ficou esfuziante. Mas no tenho s que esperar aqui? Aquele
cara, o Clark, me disse para descer e que ele me encontraria logo, mas isso foi h uns 15 minutos...
  - Bom, o Clark sabe o que est fazendo  interrompeu Dan. - Tenho que subir, mas vejo voc por
a, Jeff.
   -  Greg - o garoto o corrigiu. - Algum j te disse que voc  a cara daquele sujeito dos Raves,
Dan Qualquer Coisa?
     Dan ficou paralisado a meio passo.
  - Humphrey. O nome dele  Dan Humphrey - informou-lhe Dan. - Bom, na verdade, meu nome 
Dan Humphrey.
   -A carreira de Dan com os roqueiros dos Raves durou exatamente uma apresentao no Funktion
do Lower East Side. Ele nem acreditava que algum podia se lembrar daquela noite. Certamente ele
no se lembrava. Uma garrafa inteira de Stoli pode fazer isso com voc.
   - Ah, cara, t falando srio? - Greg atravessou a salinha e estendeu a mo. -Voc  o Dan
Humphrey? Voc  o Dan Humphrey, o poeta? Nem acredito que estou te conhecendo!  claro que
faz todo o sentido ... Voc tinha que trabalhar na Strand. - Ele empurrou os culos de nerd para cima
do nariz. -  perfeito. Nem acredito. Eu adorava sua poesia, cara.Tem alguma coisa nova que eu
possa ler?
   Dan se sentiu corar de imediato. Antes de sua improvvel passagem como astro do rock, ele
publicou um poema chamado "Putas" na revista New Yorker. Ele foi o zunzum do mundo da
literatura por exatamente cinco minutos e, embora suas lembranas dessa poca fossem calorosas e
vagas, ele no acreditava que houvesse algum alm do pai que se lembrava de seu leve roar na
fama potica.
  - Bom, os poetas tm que trabalhar - mentiu Dan com vigor. -Estou reunindo algumas idias para
um livro.  por isso que ando chegando atrasado ultimamente.
  - Cara, mas isso  uma honra, eu nem acredito. Estou conhecendo um poeta da New Yorker. 
incrvel.
  - No  l grande coisa. - Dan agitou a mo como se estivesse enxotando o elogio.
   O Senhor Modstia.
  -  perfeito - continuou Greg, metendo as mos nos bolsos da bermuda pouco abaixo dos joelhos. -
Olha, eu nem acredito que vou perguntar isso, mas estou tentando organizar um salo, sabe como ,
uma coisa meio informal, um monte de gente que gosta de livros e se rene de vez em quando s
para falar de literatura, poesia, cinema e msica. E blogs. Mas s de vez em quando. Tenho certeza
de que voc deve estar muito ocupado, mas quem sabe no quer aparecer por l?...Ou, quer dizer,
se estiver ocupado demais, tudo bem, mas...
   - Um salo - Dan interrompeu o tagarelar de Greg. Na verdade parecia meio... incrvel. Ele veio
trabalhar na Strand esperando ter nos intervalos um monte de discusses estimulantes sobre os
clssicos da literatura e filmes estrangeiros, mas at agora a conversa mais profunda de que
participou envolveu dois colegas filando cigarro. - Parece legal.
   - Ah, cara, que timo! - gritou Greg excitado, a voz falhando. -Ainda estou trabalhando nos
detalhes, sabe como , esboando uma declarao de objetivos, pensando em como recrutar os
membros.
  - Uma declarao de objetivos. - Dan assentiu pensativamente.
- Talvez eu possa ajudar nisso.
-  mesmo? - perguntou Greg. - Mas que incrvel. - Ele tirou uma caneta retorcida do bolso da
camisa e pegou a mo de Dan. - Vou te dar meu e-mail. - E escreveu o endereo na palma da mo
de Dan. - Me mande algumas idias e eu trabalho nelas. E tambm precisamos de um nome. Estava
pensando que podamos misturar os nomes de alguns poetas mortos, como Wadsworth Whitman ou
Emerson Thoreau. Eles no se importariam mesmo.
   No, eles s vo se revirar no tmulo.
  - Legal. - Dan puxou a mo do aperto de Greg e olhou o endereo escrito nela. - Vou entrar em
contato  acrescentou ele, tentando no parecer ansioso demais, embora definitivamente estivesse.
Ele precisava de novos amigos, agora que Vanessa estava completamente cansada dele.
    Numa palavra: deprimente. Mas tambm... meio bonitinho. De uma forma muito deprimente.

ah, os lugares aonde vou!

 - T legal. -Vanessa suspirou, ajoelhando-se no carpete do quarto de brincar no quinto andar da
casa na Park Avenue da famlia James-Morgan. - S vamos dar uma ltima olhada na bolsa e vamos
sair daqui. Prontos?
  - Pronto! - Nils e Edgar gritaram em unssono. Eram gmeos e por isso faziam grande parte das
coisas em unssono, fosse derramar suco de frutas vermelhas nas antigas poltronas estofadas de seda
marfim da me ou gritar a plenos pulmes (provavelmente para lembrar  me de que eles
existiam). Eles eram lindos do jeito deles, mas ficava particularmente difcil ver isso quando se era
responsvel por enxugar aS vrias partes do corpo e se certificar de que eles passaram o dia com
essas partes do corpo intactas e sem danos. E era exatamente esta a situao em que Vanessa se
encontrava. Ela tinha sido demitida de seu primeiro emprego srio de Hollywood, como diretora de
fotografia de Breakfast at Fred's e, num momento de desespero pessoal e financeiro, aceitou o emprego
de bab.
   E, alm disso, ela estava de porre na hora.  bvio.
  Era quase deprimente demais pensar que duas semanas antes ela estivera em ensaios privativos no
quarto de um importante astro do cinema no Chelsea Hotel, fazendo o que mais adorava, e agora
estava em um sto eduardiano servindo de bab no Carnegie Hill com uma mancha de gelia de
uva na cala Levi's e dois meninos remelentos a seus ps, enquanto as estrelas de cinema tomavam
banho de sol na praia, s a alguns quilmetros de distncia, nos Hamptons. No que ela fosse de
babar ovo de celebridade, mas ainda assim...
   - L vamos ns. Lenos de papel? - perguntou Vanessa.
   - Sim! - gritaram os gmeos, brandindo dois maos de Kleenex. Eles os atiraram na bolsa de
viagem rosa e verde Lilly Pulitzer.
   - Sacos de biscoitos?
   - Sim! - Eles sacudiram dois sacos plsticos cheios de biscoitos sabor queijo cheddar.
   - Caixas de suco?
   - Sim!
   - No atirem! - Vanessa de imediato se lembrou das manchas cor-de-rosa que tanto tentou limpar
nas cadeiras antigas.
   - Atirar o qu? - Allison Morgan, tambm conhecida como Srta., subiu decidida pela escada
estreita e entrou na sala de brincar ensolarada, os stilettos de pele de cobra Jimmy Choo estalando no
piso de taco claro.
   - Mame! - Os meninos abandonaram a bolsa de viagem e se lanaram de cara na sua saia de
boucl marfim Chanel na altura dos joelhos.
   - Preparando a mala para o passeio? - perguntou a Srta. Morgan num tom superfalso e agudo,
afastando-se dos gmeos.
    Mas que percepo incrvel, mame.
   - Pensei em irmos ao Zoolgico do Central Park - explicou Vanessa.
  - Ah, querida - cacarejou Allison. - Central Park? Voc se lembra do que aconteceu da ltima vez.
    claro que Vanessa se lembrava: ela jamais se esqueceria da viso de Dan vestido de short de
atletismo amarelo fluorescente e patins, de mos dadas com outra garota. Uma garota horrivelmente
petulante, de cabelo comprido e roupa de lycra. Foi to hilariamente bizarro e to completamente
doloroso. Fumando um cigarro, o cabelo desgrenhado de astro do rock, a camiseta suja, a cala de
veludo cor de vmito que chegava a ser ridcula - esse era o Dan Humphrey que ela conhecia.
   E amava?
  Mas  claro que no era a isso que a nova chefe belicosa de Vanessa estava se referindo. Ela
queria dizer que os gmeos estragaram as roupas comendo sanduches de sorvete e passaram
metade da noite gritando "coc de sorvete!" por causa do acar.
  Mas Vanessa no conseguia parar de pensar em Dan. Agora que as coisas estavam de volta ao
normal. Ou quase normal. Talvez fosse s a falta de sono, ou o fato de que ela ficou aliviada demais
por ele ter dado o fora na loura gostosona tonificada de ioga e pirada em sade, e pelo velho Dan
estar de volta.Mas que droga, hoje de manh, na cozinha, Vanessa mal conseguira no beij-lo. Ele
estava to gracinha, tomando um caf vagabundo naquela caneca calombenta, as remelas de sono
ainda grudadas nos olhos. Era quase... natural, como Vanessa sempre imaginou a vida dos dois
juntos. S que eles no estavam juntos. Eram s... amigos. E ela no queria fazer nada para estragar
isso, como enterrar o nariz no cabelo quente, delicioso e fedido a cigarro dele. No, ela no
estragaria de jeito algum.
   Mentirosa.
  - Olha Vanessa, ainda bem que ainda a peguei aqui. O som da voz spera de chardonnay-demais-
na-noite-anterior de Allison trouxe Vanessa de volta  Terra. - Vamos passar alguns dias em nossa
casa em Amagansett. A cidade est insuportavelmente quente e os meninos adoram a praia.
  - Praia! - gritaram Nils e Edgar, em unssono,  claro, tomando o anncio como uma dica para
correr num frenesi por todo o quarto.
  - Est vendo como j esto animados? - observou a Srta. Morgan. - Mas ento, o que me diz?
Temos um quarto extra na ala superior da casa... Muito confortvel, muito privativo. Voc ia passar
o dia com os meninos e estaria livre para sair, digamos, l pelas 18h, quando eles se sentam para
jantar. Seu pagamento continuaria o mesmo,  claro.
  Vanessa pensou na situao: ali estava ela, enchendo de suco e biscoitos uma bolsa de viagem
ofensivamente de patricinha enquanto dois micromanacos corriam em volta, gritando sobre
"ondas". O que mais ela faria? Mais uma noite olhando as rachaduras no teto do quarto de Jenny,
que ainda tinha cheiro de solvente de tinta, perguntando-se o que Dan estava fazendo do outro lado
da parede, fantasiando sobre o gosto de seus beijos com bafo de caf e cigarro?
   Ela odiava o sol, nem mesmo tinha mai e basicamente desprezava qualquer coisa que tivesse a
ver com praia e gente seminua, bronzeada e totalmente irritante que a olhava feio. Mas sua vida
estava um porre neste exato momento, ento, pensando bem... No parecia to ruim.
  - Amagansett - pronunciou Vanessa lentamente, como se fosse uma doena, uma rea genital, ou
um pas do Extremo Oriente de que ela nunca ouvira falar. - Parece timo.
   Ah,  mesmo timo. Mas s sob as circunstncias corretas.
                       oi, gente!

Interrompo sua programao normal para Ihes trazer uma notcia de ltima hora.

Meus informantes so os melhores. Voc deve se lembrar de um leitor preocupado que
escreveu h alguns dias sobre uma dupla de impostoras que tinha se infiltrado na
sociedade dos Hamptons, n? Por acaso elas no so impostoras: a dupla horrenda que
tem uma semelhana perturbadora com B e S so duas semideusas da Estnia que certo
estilista contratou para que sejam os rostos de seu mais novo empreendimento, uma linha
pronta-entrega que ele lanar no outono. Parece que isso duplica (quadruplica) o
problema. E eu aqui pensando que os cientistas tinham acabado de descobrir como
clonar uma ovelha! A Estnia  to avanada tecnologicamente. Mas podre mesmo  a
histria srdida dessas garotas. Os detalhes esto chegando enquanto falo aqui! Aposto o
que quiser que B vai ser a primeira a pirar, mas, antes disso, vamos reservar um
segundinho para pensar nas possibilidades - no seria bom ter sua prpria ssia 
disposio de vez em quando? Sei que eu teria adorado uma em maio passado, nas
provas da escola, quando s o que este corpo queria fazer era se espreguiar no Sheep
Meadow. E que tal evitar os brunches chatos de famlia no Le Cirque? Ou ter mais duas
mos para trabalhar em alguma obra de caridade em nosso lugar? E mais no  um
pouquinho melhor? Mas ento, mais corpos = menos espao em nossas praias j lotadas
nos Hamptons. Talvez no seja uma m idia se livrar dessas ssias. (Voc pensou
mesmo que entrar para a universidade significaria esquecer todas as respostas do SAT?)

Se voc est apenas assentindo para meus comentrios das praias lotadas e no viveu
isso em primeira mo, pense nisto como um servio de utilidade pblica: no importa
quantas pessoas inundem os Hamptons no vero, este  o nico lugar para ver e ser
visto. Ento feche esse laptop, pegue uma bolsa de praia e coloque sua bundinha no
jatinho particular mais prximo! Num piscar de olhos, chegar ao Hampton
Jitney - s deve levar mais algumas horas de trnsito infeliz de um quebra-mola a outro.
Mas confie em mim, valer a pena quando voc estiver arrastando os ps na areia
reluzente.  a glria!

Como vocs todos ficam desamparados sem mim, vou dizer exatamente o que precisam
levar...

lista de bagagem para uma partida apressada aos hamptons

- culos de sol enormes Chanel ou do tipo aviador vintage. Os culos de sol das
impostoras so como as modelos impostoras: parecem bons  primeira vista, mas
de perto so um horror.

- Clarins FPS30 com hidratante. Toda essa histria de bronzear-at-torrar saiu de
moda com as sapatilhas do ano passado.

- Protetor labial Kiehl FP5 15 com toque de cereja. S porque voc est evitando
as marcas de bronzeamento, no quer dizer que seus lbios tenham que ficar nus.

- Uma bolsa nutica com monograma e toalha combinando. Uma espcie de
equivalente de grife dos crachs nas roupas nos acampamentos de vero. Se
voc perder uma toalha, cruze os dedos para que aquele gato a encontre e depois
que o gato encontre voc para devolver a toalha.

- gua Metromint sabor hortel.  um refresco em um dia quente ao sol. Alm
disso, refresca seu hlito, tornando-a mais beijvel. Mu! Mu! Mu!

- Seus melhores amigos. Voc vai precisar de algum para passar Coppertone
nas costas e todos sabemos que sua paixo de vero no  bem uma soluo de
longo prazo...


seu e-mail

E por falar em ficadas de vero, parece, pelos e-mails de vocs,
que todos esto passando por srias dificuldades de relacionamento.
Deixe-me ajud-Ios:

P: Cara GG,
   Estou morando com meu ex-namorado/amigo e agora pretendo passar
   alguns dias fora. No  nada pessoal s umas frias. Qual  o protocolo? Eu
   digo a ele ou s deixo que ele deduza?
   - Colega de Apartamento de Partida

R: Cara CdAdP,
   S porque voc sabe como so os beijos de seu colega, no quer dizer que
   deva sair e atirar as regras da casa pela janela da cobertura. Deixe-me
   compartilhar os fundamentos: 1) a comida  comunitria a no ser que tenha
   uma etiqueta afirmando o contrrio; 2) telefone se no for para casa  noite-
   ns ficamos preocupados! e 3) se voc no est nos convidando para suas
   frias, o mnimo que pode fazer  deixar um bilhete e um presentinho. (Andei
   dando uma olhada nas novas bolsas de praia Marc by Marc Jacobs, mas
   talvez seja s coisa minha.) Bon voyage!
   -- GG

P: Cara GG,
   Sei que meu ex-namorado est morando na mesma rua que eu neste vero,
   mas no consigo descobrir que casa . Me ajude!
   -- Assdio no Bairro

R: Cara Assdio,
   Talvez voc deva usar o truque de Joo e Maria e ajud-Io a achar o
   caminho at voc. Se ele  como todos os caras que eu conheo, uma trilha
   de roupas descartadas dar certo!
   -- GG

flagras
A esposa de um famoso treinador de lacrosse - vamos cham-Ia de B mais velha -
saindo de um estdio de tatuagem em Hampton Bays. Fico me perguntando aqui
para quem a experincia foi mais dolorosa: para ela ou para o tatuador que teve
que v-Ia de topless? O ex-entusiasta da ioga D fumando feito uma chamin na
calada da Strand. Parece que os dias de cachorrinho-decadente acabaram. Isto
, a no ser que algum mais possa coloc-Io em forma... A irm mais nova dele,
J, em Praga, desenhando um cara totalmente lindo enquanto ele desenhava o
mercado local-  bom ver que a viagem no mudou a garota! Um certo
carregador-de-macaco de Manhattan, C, fazendo estoque de autobronzeador
Fake Bake na Chocolate Mousse. Nham! Ser que os Hamptons vo acomodar
outro visitante? V comprando bermudas e uma camiseta listrada de preto e branco
na Club Monaco na Broadway. Mas como a menina est no clima do vero... Se B
dividindo coquetis com suas ssias - no seria esquisito se as quatro se
tornassem grandes amigas?

Tudo bem, queridos, por hoje  s. Tenho manicure agendada para esta tarde e
ainda no consegui decidir entre o rosa claro Bikini com um Martini, bege-dourado
Cabana Boy, ou Shop TiIIl Drop coral. Decises, decises. Pelo menos no tenho
como errar!

                            Pra voc que me ama,
                             gossip girl




b e v livram-se das roupas
- Me diga de novo - Serena suspirou, folheando preguiosamente as pginas brilhantes
da Vgue japonesa do ms, esparramada na cama de carvalho minimalista -, por que
estamos aqui dentro num dia como o de hoje?
     O dia estava claro como vidro e fazia 32 graus, com uma leve sugesto de brisa do
mar. Serena desviou os olhos da foto em dose de uma modelo japonesa lourssima com
clios pintados chupando um pirulito vermelho-ma. Podia ver um trecho frio e con-
vidativo de sombra sob os guarda-sis de lona branca instalados na beira da piscina. Hoje
definitivamente era um tipo de dia para ficar de bobeira com metade do corpo na gua.
     - Voc sabe a resposta para isso - rebateu Blair, que remexia toda irritada o armrio
de nogueira escura onde Anabella, a arrumadeira de Bailey Winter, tinha pendurado todas
as suas roupas. -Juro que uma dessas merdinhas pegou a droga do meu vestido Dolce
de vero. Aquele com os ilhoses. No consigo achar em lugar algum. - Ela comeou a
tirar perigosamente os vestidos dos cabides de madeira e atirlas no cho.
    Bom,  para isso que servem as arrumadeiras!
   - Humm - murmurou Serena. No havia nada de especial em Blair tendo um acesso de
raiva, embora Serena esperasse que ela escolhesse as roupas depois disso. Mas desde
que elas chegaram  casa modernista e enorme de Bailey Winter, Blair dera mais ataques
do que era normal, at para ela.
        Ora, isso realmente diz alguma coisa.
        Blair estava convencida de que as modelos europias piranhas Ibiza e Svetlana
estavam l fora para peg-la. Ficava acusando as duas de roubar suas roupas ou usar o
hidratante La Mer FPS 45 e insistia que Ibiza, a morena, imitava cada movimento dela, de
seu novo corte de cabelo na altura do queixo  escolha das roupas. Serena no podia
deixar de admitir que a dupla tinha uma semelhana perturbadora com ela e Blair, mas
elas pareciam inofensivas. S eram irritantes, como as macacas de imitao da oitava
srie na Constance Billard.
    A imitao no  a forma mais sincera de elogio?
       - Que se dane - anunciou Serena, fechando a revista e saindo da cama. Ela
bocejou. - No vou apodrecer aqui o vero todo s porque queremos evitar umas meninas
esquisitas e vesgas com aparelho nos dentes. Eu vou nadar.
        - Mas no consigo encontrar meu novo abrigo azul de bolinhas Ashley Tyler -
gemeu Blair. - Que sentido tem ser uma musa se no estou produzida para inspirar? Se
essa Ibiza pegou emprestado, juro que vou arrancar os braos desnutridos dela.
    Falou como uma verdadeira musa.
    - Vamos, Blair. - Serena pegou um Gauloise do mao amarfanhado na cama bem-feira
ao lado dela, acendendo-o com o isqueiro de prata Dunhill que tinha afanado do irmo,
Erik. Tinha o mono grama dele gravado, EvdW: - S vista qualquer coisa e vamos nessa.
Est timo l fora.
        Vestir qualquer coisa? No tenho nada para vestir, droga, por causa daquelas
merdas de macacas de imitao. - Blair atirou as mos no ar, como se as pilhas de
roupas de algodo fino e seda em volta dela fossem invisveis.
   - Ento s vista alguma coisa feia e veja se elas imitam  props Serena, exasperada.
Ela adorava Blair, adorava de verdade, e elas eram grandes amigas desde sempre, mas
s vezes ela queria dar um tabefe naquela bundinha perfeitamente tonificada.
   - Pensando bem... - Blair se atirou na cama e arrancou o Gauloise da boca de Serena.
Ela inalou fundo e semicerrou os olhos azuis, pensativamente. - Isso me deu uma idia.
    - Que dia maravilhoso! - Blair abriu as portas de vidro impecavelmente limpas da casa
de hspedes e andou para o feroz sol da tarde, os braos nus esticados no alto. - Vem,
Serena. Vamos tomar um pouco de sol.
    - Estou indo, estou indo - Serena riu, tropeando para fora do bangal sombreado, a
pedra-lipes quente do sol, ardendo na sola dos ps de unhas recm-feitas. Ela segurava
uma revista enrolada na mo, um cigarro aceso na outra e os culos de sol de aro de
chifre Crutler and Gross cobriam a maior parte do rosto. Tirando isso, ela estava
completa, total e ultrajadamente nua.
   - Talvez a gente deva pedir um pouco de caf gelado ao Stefan - sugeriu
Blair, acomodando o traseiro exposto numa espreguiadeira de teca. Os
nicos acessrios eram uma pulseirinha de tornozelo Me&RO de ouro e os
gigantescos Ray-Bans pretos.
   - Que estar acontecendo? - perguntou Ibiza, tirando o corpo de 45 quilos da piscina.
Era to magra que parecia uma daquelas crianas do Terceiro Mundo que pediam
dinheiro nos comerciais de TV, totalmente vestida no mai recortado lavanda e dourado
de grife.
     - Como assim? - Serena atirou a revista casualmente para Blair, na espreguiadeira
ao lado.
    - Suas roupas - acusou Svetlana, ainda na gua, o cabelo descolorido e ressecado
achatado na cabea. -Vocs no usar roupa nenhuma!
   - Ah, meu bem. - Blair suspirou teatralmente e virou- se de bruos. O sol abrasador
era agradvel no bumbum pelado. - No soube?
   - Soube do qu? _ perguntou Ibiza, olhando o corpo nu e empinado de Blair.
   - Acho que a ltima edio da Vogue da Estnia ou sei l o que vocs costumam ler
deixou de cobrir a tendncia ao nu. _ Blair bocejou. -  a ultimrrima moda.
   Serena apagou o cigarro numa concha marinha grande em uma mesinha de vidro ao
lado da espreguiadeira. Tentou no olhar para Blair, para reprimir o riso incontrolvel e a
gargalhada histrica que soltaria se fizesse.



- A ltima moda  ficar nua? - Svetlana olhou a minscula calcinha do biquni, que
ela provavelmente encomendou pelo correio do catlogo da Victoria's Secret. A
gua distorcia seu corpo, ento era quase como se ela tivesse mesmo quadris
e curvas.
    S uma iluso de tica.
    - Sim,  clarro - ralhou Ibiza, arrancando as alas do mai recortado. Seu
corpo, com as marcas de bronzeado circulares, parecia um tapete de Twister. -
Muito melhor assim. Na verdade, muito eurropeu.
    - O topless  to ultrapassado. - Serena deu um bocejo exagerado, olhando a
revista e tentando no perder a cabea. - Blair e eu fazemos topless na praia
desde que tnhamos 11 anos.
   - No mnimo - interveio Blair. Achatada de barriga, ela baixou a cabea e
fechou os olhos.
    - Tudo bem. - Ibiza mordeu a isca. Ela pulou numa perna s e depois na
outra, tirando o resto do mai horroroso. Ele caiu no cho com um espadanar
molhado. -  clarro que no querro que vocs ficar desconfortveis, sim?
    - Sim - concordou a infeliz Svetlana. Ela tirou o triste biquni de bolinhas
vermelhas e o largou na beira da piscina. Depois pulou na gua e nadou
constrangida, o corpo um lampejo esqueltico de uma brancura subnutrida.
    - Ainda bem que poder s relaxar agorra, sim? - perguntou Ibiza, parecendo
confiante mas pouco  vontade parada ali, o corpo de tapete de Twister
completamente pelado, como se no soubesse muito bem o que fazer. Blair
percebeu que os peitos dela eram totalmente assimtricos, como se tivessem
sido colados errado. Talvez tenham sido mesmo. - J ver o gato que morra na
casa do lado? - Ibiza comeou a dizer numa tentativa fraca de conversar
despreocupadamente enquanto estavam nuas. Ela sacudiu as mos como se
estivessem queimando.
    - Talvez a gente deva mesmo pedir um caf gelado ao Stefan - sugeriu Serena,
ignorando-a.
    - Sim, parrece muito bom. - Ibiza assentiu e depois andou lenta e
deliberadamente at a mesa do guarda-sol. Puxou uma das pesadas cadeiras de
madeira e se sentou nela com os joelhos dobrados, no muito causalmente. - Eu
chamar. Stefan! Stefan!
    Serena prendeu a respirao, tentando escutar o som de passos se
aproximando.
    - Agora - sibilou Blair.
    Na deixa, elas pularam das espreguiadeiras e dispararam a correr pelo
gramado aveludado, rindo histericamente, chegando ao grupo de rvores
frondosas no permetro do jardim amplo e ensolarado.
    - Olha, olha! _ Serena se abaixou atrs da moita de um carvalho beb,
apontando a cena de que acabaram de fugir: Stefan aparecera vestido em sua
camiseta branca apertada de sempre e a bermuda cargo. Tambm exibia uma
bandana elstica bonitinha de gorgoro na testa para evitar que o cabelo casse
nos olhos castanhos, que estavam arregalados de choque. Ibiza se sentou diante
dele em todo seu estampado de bolas plidas-e-bronzeadas. Ela estufou o peito,
tentando parecer sexy, mas seus seios de formato desigual s apontavam para
lados diferentes. Svetlana escolhera aquele minuto para finalmente sair da
piscina, pingando gua. Ela pegou o iPod, enfiou os fones no ouvido e comeou a
danar, agitando os braos esqulidos e brancos. Parecia um flamingo albino.
   - Ratfucker! - cantou ela alto, errando as palavras da ltima msica do Coldplay.
   Serena e Blair riram tanto que quase fizeram xixi. Serena se sentia corada e tonta,
quase como uma criana de novo. Uma onda muito forte de dj vu a inundou e ela foi
transportada a um momento exatamente igual a este, s que anos antes, quando elas
eram muito mais novas. Ela e Blair estavam tirando os mais Lands' End atrs de uns
arbustos na casa dela em Ridgefield, Connecticut. Nate ameaava persegui-Ias, e elas
riram tanto que ficavam se espetando nos galhos e metendo os ps nos buracos errados
dos shorts terracota.
   - Mas que p... ?
   Serena mal acreditava em seus olhos - era quase como se ela o tivesse conjurado.
Nate estava parado diante das duas, as sobrancelhas franzidas, limpando as farpas do
traseiro da bermuda cqui depois de pular a cerca de madeira entre as duas
propriedades.
    - Nate! - Serena correu e atirou os braos nele, esquecendo-se de que estava
totalmente pelada. Ele a abraou tambm, afagando sem jeito o ombro nu. Ela riu e
quicou de volta ao lado de Blair, escondendo as partes pudendas com uma moita.
    Blair sorriu diabolicamente. De certa forma parecia to correto correr para Nate desse
jeito. Havia algo de to bvio nos trs ali juntos de novo, mesmo que dois teros do grupo
no estivessem com roupa alguma.
     - Tira, Nate! - gritou Blair, correndo atrs dele como se fosse arrancar sua bermuda
cargo. Ele se abaixou atrs de um carvalho.
     - Nadar nus? - perguntou Nate, olhando de trs do tronco fino da rvore.
     Serena sorriu ao examinar o velho amigo ou namorado ou o que quer que Nate fosse -
ela nem tinha certeza. Aquela expresso confusa, aqueles olhos verdes sonolentos e
chapados - ele no mudou nadinha. Mas, pela primeira vez, Nate no estava olhando
para ela - ele encarava, de boca escancarada, Blair.
     - O nu  a nova roupa - disse-lhe Blair categoricamente.
Ela colocou a mo na curva rolia dos quadris. - No ouviu falar?
      claro que Blair sabia que ele estava por ali em algum lugar, mas no esperava que
ele encontrasse as duas. Durante todo o seu relacionamento, ela sempre o perseguiu e
tentou pren- Tira, Nate! - gritou Blair, correndo atrs dele como se fosse arrancar sua
bermuda cargo. Ele se abaixou atrs de um carvalho.
     - Nadar nus? - perguntou Nate, olhando de trs do tronco fino da rvore.
     Serena sorriu ao examinar o velho amigo ou namorado ou o que quer que Nate fosse -
ela nem tinha certeza. Aquela expresso confusa, aqueles olhos verdes sonolentos e
chapados - ele no mudou nadinha. Mas, pela primeira vez, Nate no estava olhando
para ela - ele encarava, de boca escancarada, Blair.
     - O nu  a nova roupa - disse-lhe Blair categoricamente.
Ela colocou a mo na curva rolia dos quadris. - No ouviu falar?
    claro que Blair sabia que ele estava por ali em algum lugar, mas no esperava que
ele encontrasse as duas. Durante todo o seu relacionamento, ela sempre o perseguiu e
tentou prend-lo - ela queria s algem-Io  cama, e no de um jeito obsceno, mas para
poder ficar de olho nele e ter certeza de que no ia fazer alguma idiotice. Mas agora Nate
estava ali e obviamente procurava por elas. Ou, a julgar pelo modo como a olhava, ele
andara procurando por ela.
   -  isso a - confirmou Serena, cruzando os braos no peito banhado de sol. O fato de
Nate no estar olhando para ela a fez se sentir ainda mais nua. Ela nunca clamou pela
ateno de Nate, mas a queria. Sempre a quis. Exatamente neste momento Blair deu um
puxo no cotovelo de Serena, levando-a para a piscina de Bailey Winter.
   - Pera, aonde vocs vo? - gaguejou Nate.
    Blair segurava a mo de Serena com fora enquanto elas corriam.
    - D uma boa olhada! - gritou ela enquanto as duas corriam pelo caminho de lajotas
at a porta de tela. _ E pense em ns hoje  noite!
    No se preocupe, ele pensar.

newyork.craiglist.org/ groups
Anncio da Reunio Inaugural do Salo Literrio Song of Myself (Manhattan)

Alegrem-se, honrados artfices das palavras! Temos o prazer de anunciar um novo e exclusivo
grupo literrio na grande tradio dos sales europeus de Gertrude Stein e Edith Sitwell.

Somos dois humildes servos da palavra escrita: um jovem poeta e letrista arrogante e com fama
sem i-internacional, o outro um leitor e pensador que aprecia Wilde e Proust acima de todos os
demais. Procuramos por jovens de mentalidade semelhante que adorem ler, escrever e conversar
sobre ler e escrever, e talvez beber um Chianti ou o que for. Pensem nas seguintes
declaraes/perguntas. Leremos todas as respostas com ateno e mandaremos convites para
nossa reunio inaugural a um grupo cuidadosamente selecionado de nova-iorquinos sagazes.

   1. A poesia merece um papel mais central na cultura de hoje.
      Deveria haver um programa American Poet Idol. Concorda ou discorda?

   2. Qual  a palavra de que mais gosta? Qual a palavra de que menos gosta? Escreva uma
      frase usando as duas ao mesmo tempo. Por exemplo: Caos. Lanche. Sentada no meio do
      caos da barata marrom-iridescente, Bonita comeu um lanche de asas de borboleta.

Os interessados devem anexar uma foto. Precisamos ter certeza de que no tm 12 anos. Ou
112.

Ansiamos por conversas inspiradoras! (Leve sua bebida!)


a grande escapada de n
   - A est voc!
       Babs Michaels estava junto  bancada de frmica de sua cozinha em runas,
    arrumando com habilidade fatias de melo num prato de ovos mexidos e torrada
    amanteigada. Nate esfregou os olhos injetados com a base da mo e bocejou - por
    um segundo, a viso de uma mulher bronzeada preparando o caf-da-manh lhe deu
    um flashbaek estranho de quando era criana. Ele costumava descer correndo at a
    cozinha de sua casa no Upper East Side e encontrar Cecille, a chef de Barbados dos
    pais, preparando torrada de canela ou uma tigela de aveia irlandesa para ele antes de
    ele ir para o St. Jude' s de manh.
       Mas ele no era mais criana, no tinha mais que ir  escola, e Babs, com o robe
    roxo fino como papel e a pele esticada e dura, definitivamente no era Cecille. Alm
    disso, ele j havia comido dois Pop-Tarts congelados de morango em sua casa de
    Goergica Pond.
       - Bom dia - murmurou Nate, olhando desconfiado enquanto Babs colocava o prato
    carregado na mesa, cantarolando com a voz rouca.
       - Precisa de um bom caf-da-manh hoje, no , Nate? Toda aquela suadeira e o
    esforo no sol quente. - Ela foi para lado de Nate, colocando a mo fria no bceps
    direito dele, que se projetava da camisa plo azul-marinho Ben Sherman.
      - T-t-t legal. - Nate se livrou de seu aperto decidido, tomando um lugar  mesa. Ele
    estava mesmo faminto, e o prato de ovos mexidos e torrada levemente amarronzada
    parecia tentador, mas mesmo em seu estupor de incio de manh,
    Nate podia ver aonde isso ia levar. Ele ia comear a comer, Babs ia lhe servir mais
    suco de laranja que acabara de tirar da lata, pediria a ele para passar mais pomada
    em sua tatuagem, depois ia sugerir que talvez eles devessem se ensaboar juntos na
    tal banheira de que o treinador no parava de falar. E antes de ele se dar conta, ela o
    algemaria na cama e esfregaria as viscosas fatias de melo em seu corpo nu ou coisa
    assim.
        Dizem que o caminho para o corao de um homem  o estmago.
    A idia de ficar nu na cama com Babs deixou Nate completamente nauseado, mas ele
ainda podia sentir um certo anseio na boca do estmago. Mas  claro que no era por
Babs adejando em volta dele com um robe roxo de nylon que mal cobria a bunda
semitonificada e semimole de meia-idade. Tinha mais a ver com a lembrana de Blair,
vestida s com o mais leve brilho de suor e loo, sorrindo-lhe maliciosamente quando
ele a descobriu na vspera no jardim de seu vizinho extremamente gay. Ele a vira nua
muitas vezes, mas, parada ali, em plena luz do dia, os ombros delicados um pouco mais
bronzeados do que o resto do corpo, ela nunca esteve mais linda. Ele localizou a
conhecida marca de nascena em formato de ma no quadril e teve de usar de toda a
fora de vontade para no agarr-Ia e beijar a marquinha.
    - Qual  o problema, querido? - perguntou Babs, parando atrs da cadeira dele e
inclinando-se sobre ele para que seus peitos estranhamente duros roassem a parte
superior das costas de Nate. - No est com fome esta manh?
    Irrompendo da cadeira como se tivesse sido eletrocutado, a voz de Nate saiu muito
mais alta do que ele pretendia:
    - Sabe de uma coisa, eu devia, humm, bom, eu preciso dar um telefonema.
    - Um telefonema?
    - . - Ele corou violentamente. - Tudo bem? Quer dizer, pode me dar permisso? Sei
que tecnicamente estou no trabalho e tudo.
    - No precisa de minha permisso - sussurrou ela. No h nada que eu negaria a
voc, Nate. Nada.
    - Obrigado! - Ele praticamente voou da cozinha e correu ao deque dos fundos.
Remexendo no bolso da bermuda cargo em busca do Motorola Pebl, ele comeou a rolar
a lista de contatos e rapidamente discou a primeira entrada: Anthony Avuldsen, seu
colega de time de lacrosse e o cara que j o salvara uma vez naquele vero, quando ele
se viu enrolado num romance complicado com uma caipira gostosa que acabou se
transformando em mais problemas do que valia a pena.
    E no so todas assim?
    Nate estava prestes a desligar depois de cinco toques quando Anthony atendeu com
um grito simptico e exagerado.
     - E a?
    - Cara. Cad voc?
    - Indo para a praia - gritou Anthony por sobre o som do carro, que berrava "Back in
Black" do AC/DC to alto que o telefone tremia. - D pra voc sair?
    Nate olhou a piscina pequena, retangular e cintilante e o gramado meio crescido alm
dela. A idia de cortar a grama lhe deu vontade de chorar; pensar em se virar e voltar
para aquela casa e ser molestado por Babs lhe deu vontade de sair correndo.
    E vem me falar de ficar entre a cruz e a espada.
    - Sair - repetiu Nate devagar. - , vamos fazer isso. Estou na casa do treinador nos
Bays. D pra me pegar?
    - Pegar voc? - gritou Anthony. - Legal, , tudo bem. Me d uns dez minutos.

     Nate enfiou o telefone no bolso e respirou fundo, preparando os nervos.
     - Est tudo bem? - Babs abriu a porta de vidro deslizante da varanda e trotou para
fora. O robe roxo tinha se aberto e estava pendurado nos ombros como uma capa, reve-
lando a roupa de baixo complicada, de renda e estampa animal. Lembrava a Nate do traje
de banho que sua agora falecida av francesa e excntrica usou na viagem da famlia s
ilhas Turcas e Caicos quando ele era criana.
     Ah, mas que coisa sedutora!
     - Na verdade no estou me sentindo muito bem. -Ele no estava mentindo, uma vez
que a idia do que poderia acontecer se no sasse dali o deixava totalmente enjoado.
Estremecendo de dor, mas tentando no exagerar, Nate soltou uma tosse ridcula.
   - Coitadinho - piou ela, usando uma das mos para fechar o robe fino. Ela colocou a
 outra palma na testa franzida de Nate. - Voc parece meio quente.
     Instinto maternal e Instinto selvagem - que mistura perturbadora.
     -  - concordou ele, recuando. - No sei se posso cortar a grama hoje.
   - No, claro que no. Devemos tirar essas roupas e ir direito para a cama. Posso
preparar um bom ch de ervas para voc...
   - Eu realmente preciso ir - Nate interrompeu o cenrio quase porn e perturbador
que Babs descrevia. Ele no queria participar das fantasias de Mrs. Robinson dela em
um joguinho imoral de enfermeira. - Na verdade, acho que ouvi minha carona ali fora.
   - Precisa descansar e pegar leve - piou Babs. - No se preocupe com o trabalho.
Vou dizer ao treinador que voc precisou descansar. Ele est acabando com voc.
    - Obrigado, Sra. M. - Nate assentiu com gratido enquanto saa da varanda.
Esquecendo-se de que devia estar doente, ele gritou de prazer quando ouviu uma
buzina de carro e viu o BMW preto de Anthony virar com descuido na entrada de carros
do treinador. Salvo.


    - Tem certeza de que s est fingindo que est doente? -Anthony tirou os olhos da rua
por um momento para examinar Nate, que estava afundado no banco de couro creme
reclinado, protegendo os olhos do sol intenso com a mo.
   - No, cara, eu estou bem-Nate lhe garantiu, mexendo as aberturas do painel para
que o jato frio do ar-condicionado fosse diretamente para seu rosto. - A Babs s estava,
sabe como , pegando meio pesado.
   - Mas que merda! -Anthony riu, abaixando o som, que berrava o ltimo disco de
Regning Sound. - Eu tenho que ouvir essa histria.
   - No tem nada para ouvir - murmurou Nate, sorrindo contra a vontade. - Pode
acreditar, vai te dar semanas de pesadelo.
   Nate olhou pela janela a paisagem que passava voando: os campos de grama verde,
o cu azul intenso, as casas de telhados enormes batidos pelo clima, tudo num borro,
um afluxo de imagens que ele no conseguia separar em suas vrias partes, quase do
mesmo modo como o vero no passava de um fluxo de vrios momentos que ele no
conseguia separar em acontecimentos distintos. Ele suspirou. Havia algo de ina-
creditavelmente deprimente em perceber que os nicos momentos memorveis do vero
tinham sido um fiasco total de festa em Nova York onde ele foi abandonado pela
namorada, e ontem, quando pegou Blair e Serena nadando nuas ou sei l o que elas
estavam fazendo.
   - Ontem eu vi Blair Waldorf e Serena van der Woodsen nuas - anunciou Nate de
repente, pegando o baseado que tinha enrolado e escondido no mao de Marlboro de
algum naquela manh. Ele abriu a janela e acendeu.
   - Suruba a trs? - perguntou Anthony, assentindo para N ate lhe passar um dos
cigarros. - Voc  um cara de sorte mesmo.
   Nate sacudiu o mao e passou o cigarro para Anthony.
   - No - explicou ele, embora uma imagem mental muito intrigante estivesse
comeando a se formar em sua cabea.
   Ah,  mesmo?
   - Elas estavam nadando nuas no jardim do meu vizinho - continuou ele, exalando uma
nuvem de fumaa de maconha para fora dajanela. - Foi to estranho.
   - Nadando nuas? - repetiu Anthony, acendendo o cigarro e virando  esquerda ao
mesmo tempo. - No brinca. - A Blair, cara, ela simplesmente... - N ate se interrompeu
quando sua viso foi toldada pela imagem de Blair, nua, meio suada, rindo para ele. Ele
s queria abra-Ia de novo. - Eu ouvi, cara - concordou Anthony, assentindo vigo-
rosamente. - Quer dizer, voc teve... um troo. E  nosso ltimo vero.  tipo assim...
Carpe a droga do diem, n?
   - Carpe diem... - Nate pensou nisso. Aproveite o dia.
   Ele deu outro trago fundo e engoliu em seco, fechando os olhos. Carpe a droga do
diem. Que idia. Era muito... inspiradora. Ele se virou e sorriu para Anthony. Ele era um
gnio.
   Ou talvez ele s estivesse alto?
   -  srio, cara - continuou Anthony, prendendo o baseado. -Euj te falei, no foi? Est
na hora de levar a diverso a srio.
   Nate assentiu. Estava mesmo na hora de ele levar a diverso a srio. Dane-se o
treinador Michaels e a esposa piranhuda dele, dane-se o gramado e a responsabilidade.
Ele ia aproveitar a droga do dia.
    E talvez mais algum tambm.


a arte esquecida da escrita epistolar
DE: Steve N. holdencaufiledl@yodel.com
PARA: <anon-239894344239894344@craigslist,org>
Assunto: Re: Anncio de Reunio Inaugural do Salo Literrio Song of Myse1f (Manhattan)
Data: 9 de julho, 16:37:07


A quem possa interessar:


Foi com grande prazer que li seu anncio. Quero desesperadamente estar cercado de pares de
mentalidade semelhante que sejam to apaixonadamente devotados ao poder da palavra escrita
quanto eu.


No esprito da verdadeira iconoclastia, recuso-me a responder a qualquer de suas perguntas.
Suspeito que vocs s estejam realmente interessados em espritos independentes que no esto
dispostos a se submeter a seus testes tolos. Tranqi1izem-se, tenho uma vida correta e morrerei
assim.


Atenciosamente,
Steve

DE: Cassady Byrd <brntebyrd@books.cqm>
PARA: <anon-239894344239894344@craigslist.org>
Assunto: Re: Anncio de Reunio Inaugural, do Salo Literrio Song of Myself
Manhattan)
Data: 9 de julho, 20:04:39

Nem acreditei quando vi seu post. Caracal Mal posso esperar para nos
reunirmos e conversarmos ... talvez at mais! II

o verbo que mais gosto  "amar." O que menos gosto  "odiar". Vocs vo odiar o
quanto vo me amar. Arrut!

Minha foto est anexada...

Bjs
CB (vulgo Charlotte Bront)




DE: Bosie <lord_alfred_douglas@earthlink.com>
PARA: <anon-239894344239894344@craigslist.org>
Assunto: Re: Anncio de Reunio Inaugural do Salo Literrio Song of Myself
(Manhattan)
Data: 9 de julho, 22:31:14

Vi seu anncio. Violentamente intrigado.

Meus livros preferidos:
O retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde Entrevista com o vampiro, Anne
Rice

Filme preferido: Party Monster, com Macaulay Culkin

Msica preferida: "Walk on the Wild Side", de Lou Reed

Palavra que mais gosto: Morder Palavra que menos gosto: Sufocar Eu
o mordi e sufoquei.

Como podem ver por minha foto, sou um cara que gosta de se produzir.
   no que se refere aos hamptons, v  uma virgem total
       - Chegamos! - anunciou a Srta. Morgan enquanto navegava a Mercedes creme por uma
   entrada de carros circular de conchas rosa-claras.
       At que enfim. Depois de quatro horas medonhas presos no trnsito da via expressa de Long
   Island, eles finalmente chegaram  manso nouveau-vitoriana de telhado cinza dos James-
   Morgan-Grossman em Amagansett. Vanessa saiu ansiosa do carro, sentindo o esmagar estranho
   das conchas sob os ps. O cu assumia um tom de rosa enevoado do pr-do-sol e o ar tinha
   cheiro de churrasco distante e grama recmaparada. Ela sentiu uma onda sbita de alvio -
   talvez sair da cidade fosse exatamente o que precisava.
         A Srta. Morgan andou na frente dela, abrindo o pesado e antigo porto vermelho. Os
     meninos cambalearam para dentro, empurrando Vanessa, que sorria feito uma boba para nada
     em particular. No que Vanessa se importasse com essas coisas, ou em geral sequer percebesse,
     mas ela no conseguiu deixar de ficar pasma com, bom, tudo aquilo. As janelas altas
     emoldurando a entrada da frente. As latas de listras nuticas azuis e brancas cheias de
     suprimentos para praia do lado de dentro da porta. A enorme sala de estar se derramando diante
     dela. A piscina turquesa convidativa pouco alm dali. Era tudo to diferente dela - mas,
     ultimamente, tudo que era igual a ela era um porre. Talvez ela devesse adotar a vida tranqila e
     ensolarada que estava bem aqui. Quem sabe aqueles pensamentos sombrios no a estivessem
     ajudando em nada?
     Vanessa seguiu os meninos at a cozinha imensa, onde a Srta. Morgan verificava os bilhetes
deixados pela empregada, o jardineiro e o rapaz da piscina. Era tudo to... bem-cuidado. Vanessa
podia ver os dias quentes de vero que teria pela frente: lendo a New Yorker  beira da piscina, de
vez em quando parando para fotografar a superfcie cintilante em preto-e-branco. Ela ia trotar para
dentro e preparar um sanduche de gouda defumado na cozinha bem abastecida, depois o comeria
enquanto vagava pelo permetro da propriedade bem tratada, desfrutando da paz e da quietude.
     Lar, doce lar.
- Manh, estamos com fooooomeeeeeeeeee - gemeu Edgar, arrancando Vanessa de seus
devaneios. Ah, sim, eles. - Vanessa vai preparar alguma coisa para vocs. -A Srta. Morgan sorriu e
afagou a cabea dele, sem se incomodar em olhar para Vanessa.
  - Tudo bem. Claro. - Vanessa baixou a bolsa preta da marinha no piso encerado de madeira clara e
  abriu a pesada geladeira de ao inox. Dentro havia pilhas de artigos frescos, recipientes de salada
  orzo e fils de salmo com curry guarnecidos de groselha amarela. Onde estavam as sobras de
  nuggets de frango frias, ou pelo menos manteiga de amendoim e gelia?
    Atrs dela, Edgar e Nils comeavam a lutar no meio do cho. Vanessa em geral os deixava
fazer isso, na esperana de que eles se cansassem como os cachorrinhos que ela uma vez filmou na
Union Square. Ela esperava pegar uma briga de ces ou ver um dos falces comedores de rato, que
a prefeitura tinha soltado, pegar um chihuahua, mas foi obrigada a se contentar com uma
brincadeira de filhotes. Ela imaginou que um dia os meninos mostrariam a barriga feito os ces, a
lngua pendurada para fora de lado, arfando.
    - Meninos! -ladrou a Srta. Morgan, depois alisou a saia cqui pregueada. O top marfim era
debruado com uma faixa de cetim marrom e grosso. Olhando para sua cara estranhamente tensa e
as mas do rosto definidas, era difcil dizer se tinha 32 ou 55 anos. - Podem subir para se arrumar
para o jantar.
    Ela deu as costas a Vanessa, os saltos de madeira das sandlias baixas batendo no cho.
   - Vanessa, vamos comer fils de salmo e, se puder, prepare uma salada fresca, talvez um
molho de iogurte e endro para o peixe, sim? Seria adorvel.
Pera. Preparar? O que Vanessa parecia? Uma... uma ... Empregada? Ah. Sim. S que ela nunca
cozinhou nada na vida, a no ser macarro frito com Ragu em conserva.
- Pode deixar - disse-lhe Vanessa ao comear a procurar pelo endro na gaveta de mantimentos. No
segundo andar, ela podia ouvir os meninos provocando exploses e gritando. Ela se virou para
pegar um monte de verduras. Ser que isso era endro? Coentro? Uma droga de capim? E ento deu
com uma viso assustadora.
    A bunda magra, branca e com covinhas da Srta. Morgan.
Ai. Meu. Deus. Vanessa rapidamente girou o corpo. Mesmo com o ar refrigerado batendo em seu
rosto, podia sentir as bochechas arderem. Ela soltou um pigarro alto - ser que a Srta. Morgan se
esquecera de que ela estava ali ou o qu? - e se virou, colocando as verduras bem na frente da cara.
    Ela espiou por entre as folhas e viu que a patroa, de mos nos quadris, estava parada ali s com
as sandlias baixas, uma calcinha vermelha simples e um suti preto rendado.
    - Algum problema? - perguntou ela.
    _ Humm, no, claro que no. - Vanessa comeou um exame sbito e pouco caracterstico da
  cutcula. Suas mos certamente estavam speras! Mas no conseguiu deixar de dar uma longa
  olhada de lado enquanto a Srta. Morgan, a mulher liberada do sculo XXI, desafivelava o suti e
  o deixava cair despreocupadamente no brao de uma cadeira da cozinha.
    Vanessa se encheu de coragem e olhou a chefe nos olhos. _ Humm, pode me dar licena por
  um segundo? Gostaria de colocar minhas coisas no quarto. - Ela precisava sair dali.
       - No alto da terceira escada. - A Srta. Morgan comeou a vasculhar a bolsa de lona com
    monograma, presumivelmente procurando alguma coisa para vestir.
      Esperemos que sim!
     Vanessa atirou a bolsa da marinha no ombro e subiu a ampla escada de madeira de dois em
  dois degraus. Tentou expulsar da cabea a imagem da calcinha da Srta. Morgan.
  Quem usava fio-dental, alm de mulheres de trinta anos superansiosas que gostavam que a
calcinha aparecesse acima dos jeans de cs baixo?
   Tres pass.
   E o que aconteceu com os limites? Era como se Vanessa fosse o gato da famlia, e no um ser
humano de verdade. Ela precisava voltar ao mundo real, em meio a pessoas que a respeitavam e no
agiam como se ela fizesse parte da moblia. Ela estava nos Hamptons de visual perfeito h no mais
de 15 minutos e j estava pronta para ir embora.
    Chegando ao terceiro lance de escadas, Vanessa subiu at sua sute no sto. Pelo menos tinha
alguma privacidade e talvez at algum luxo ali, n? Ela chegou ao ltimo degrau e olhou em volta,
procurando por uma porta que pudesse fechar. Mas no, a escada ia direito ao quarto do sto, onde
o teto inclinado era to baixo que ela precisou se acocorar para entrar. Mas. Que. Droga.
    Respirando fundo para se acalmar, ela foi direto para o meio do quarto quente e apertado - a
nica rota possvel que podia tomar sem ter que se agachar. Largou a bolsa no cho e tentou abrir
uma janelinha. Emperrada. Mais do que emperrada. Lacrada com tinta. Merda, merda, merda.
    Vanessa tirou a camiseta preta desbotada e repentinamente suada e abriu a bolsa. Deixou de
lado o cortador de cabelo e o mai amarelo e preto com listras de abelho que tinha pegado na
gaveta de calcinhas de Jenny, procurando pelo top preto de algodo com alas.
    - Que timo, voc achou.
     Ela se virou e viu a Srta. Morgan, agora felizmente com um vestido de vero branco, parada no
alto da escada do sto. Que bom, ela estava vestida. Vanessa, infelizmente, no estava.
     No era bem esse vero que Vanessa tinha em mente.



Air Moil  Par Avion  10 de julho
Oi, Dan!

Como esto as coisas na cidade? Eu aaaaaamooo Praga.
Passo minhas tardes em cafs ao ar livre, fingindo
desenhar, mas na verdade olhando todos os meninos
europeus - e que vista I (No faz mal olhar, n?) Ento a
nica coisa de que realmente sinto falta  de voc e papai.
Responda, por favor. No se preocupe, no precisa
mandar um romance, s algumas linhas. Conhecendo
voc, sei que provavelmente vai mandar um haicai.

Te amo!

Jenny




ler  fundamental
   Descendo de dois em dois degraus a escada raqutica da Strand, Dan foi do trreo  sala dos
empregados, no poro, em trinta segundos, de longe sua melhor marca. Estava deprimido desde a
noite anterior, quando chegou em casa depois de ler com Greg os e-mails dos membros do salo e
achou um bilhete na geladeira dirigido a ele e a Rufus. Era escrito na letra infantil de Vanessa: Fui
trabalhar nos Hamptons. Mando e-mail com detalhes. Deixei meio sanduche de peru na geladeira. - V. Dan
abriu a geladeira e encontrou o sanduche com outro bilhete. Dizia simplesmente: Me coma. Ele no
acreditava que ela simplesmente tinha... ido embora.
    Ele se atirou no trabalho durante o dia todo, tentando tir-la da cabea, o que de repente acabou
dando-lhe uma recompensa, enquanto arrumava biografias ultrapassadas na prateleira. A sensao
de vazio de imediato o encheu de empolgao. E ele precisava compartilhar isso.
    Dan abriu com o ombro a porta com a placa PRIVATIVO, gritando a plenos pulmes:
    - Greg? Voc est a?

    claro que era totalmente desnecessrio gritar, uma vez que a sala tinha mais ou menos o
tamanho de um elevador. Greg estava l dentro, revirando o armrio tosco.
    _ Que foi? - Greg pareceu meio assustado, mas deu um sorriso largo, empurrando o aro de
tartaruga pelo nariz comprido e fino. Bateu a porta do armrio verde-vmito. O que  que t
pegando? Estou encerrando meu dia agora mesmo.
     _ Nem vai acreditar no que eu achei. - Dan brandiu um livro de capa dura marrom-chocolate,
surrado e minsculo. - No minuto em que vi, tirei da prateleira e corri para c. - Tecnicamente, os
funcionrios no deviam sair do trreo durante seu turno de trabalho, no havia sequer uma clusula
sobre emergncias, mas Dan sempre obedeceu  regra de que as regras existiam para serem
quebradas.
       _ O que ? - perguntou Greg todo animado, descendo do banco baixo aparafusado no cho.
       _ T-t! - Dan agitou o livro no alto. - Primeiro, adivinhe. D um chute, por favor.
       _ No posso! - Greg estendeu a mo de brincadeira e tentou pegar o livro dele.
       _ No, senhor. - Dan enfiou o livro atrs das costas.
      Greg estendeu a mo em volta, ainda tentando pegar o livro.
       - Deixe eu ver, vai.
       Dan colocou o livro de frente para ele, segurando-o vira-do para cima, na palma das mos.
        _ Tenho em minhas mos uma obra-prima esgotada...De um dos mais importantes
romancistas americanos de meados do sculo ... Publicado por uma editora seminal de So
Francisco ... Em 1952 ...
    - No. - Greg se sentou no banco, como se fosse desmaiar. - Brinca.
    -  srio - confirmou Dan. - O despertar do poeta! Do filho-da-me do Sherman Anderson
Hartman.
    - Isso  o Santo Graal ou coisa parecida - murmurou Greg, pasmo. - Posso ver? - perguntou ele,
a voz meio trmula.
    - Mas tenha cuidado. Algumas pginas esto bem rodas pelas traas, o que  uma tragdia, mas
acho que no posso reclamar, quer dizer, uma vez que  difcil achar um exemplar dele em qualquer
lugar. Ouvi histrias de pessoas que o desenterraram de sebos em cidades universitrias do Meio-
Oeste; mas aqui, em Nova York? Quais so as probabilidades?
    Greg colocou as mos sobre as de Dan, envolvendo os dedos do amigo e o livro em seu aperto.
    A, hein, pegador.
    - Na verdade, tive uma idia melhor, Dan - sussurrou Greg seriamente, unindo as sobrancelhas
finas e louras. - Por que no l um trecho para mim?
   Dan deu de ombros. Ele tinha mesmo uma boa voz para leitura. Ele olhou o relgio. Devia estar l
em cima, arrumando livros, mas ningum vinha  sala dos funcionrios - ele podia ter o luxo de
mais alguns minutos. Alm disso, algumas coisas eram mais importantes do que o trabalho.
    Dando um pigarro; Dan folheou o livro at um ponto ao acaso e comeou a ler:
     - "Emily chegou por volta da meia-noite. Viera de trem. Ela viu o modo como ele sempre a retratava, em seus
sonhos febris da madrugada, quando atirava longe a caneta e lanava o papel para fora da mesa, incapaz de
escrever, incapaz de se concentrar, incapaz de pensar em qualquer coisa que no fosse seu pescoo gracioso, a
curva de seus quadris. Ela parecia a pura idia de uma mulher, e no era melhor, perguntava-se ele, do que a
realidade da situao? No seriam as idias,afinal, to superiores  realidade?"
    Dan fez silncio, ainda aninhando o livro surrado com reverncia, e Greg ficou sentado,
encarando Dan como quem olha um vitral complicado ou algum que se despe em uma janela de
apartamento, vrios andares acima.
    -  um crime - murmurou Dan sombriamente. Como isso pode estar esgotado?
    -  um crime mesmo - concordou Greg, levantando-se e colocando as mos no alto do livro.
Dan fitou seus olhos verdes arregalados e brilhantes por trs das lentes dos culos grossos. -
Felizmente existem pessoas como ns, para manter essas coisas vivas.
    - Tem razo. - Dan assentiu solenemente.
    - Dan - sussurrou Greg com a voz rouca -, estou feliz mesmo por termos nos conhecido.
    - Eu tambm - concordou Dan, olhando o relgio novamente. No queria ficar muito tempo
longe do trabalho, mas, antes de poder sequer distinguir os nmeros em seu relgio-calculadora
Casio, ele sentiu os braos longos de Greg envolvendo-o.
    - Este  um timo pressgio para nossa primeira reunio amanh. - O hlito quente de Greg
pinicou no pescoo de Dan enquanto ele o abraava. - Vamos ter tanto o que conversar.
    - --- - gaguejou Dan. Caraca, Greg era meio nerd, mas ele realmente apreciava o livro. -
Olha, por que no guarda pra mim? - ofereceu ele, estendendo o livro a Greg.
    Greg o abraou de novo, desta vez com mais fora. - Puxa vida - arfou ele.  Estou
honrado.
    Dan sorriu para ele e subiu a escada. Por que ele sempre atraa os nerds?
    Humm, talvez porque ele tambm fosse meio nerd?




                                  oi, gente!

Justamente quando a gente pensava que no podia ficar mais quente, o termmetro sobe mais dez graus.
Ou talvez seja s meu computador - ele praticamente superaquece com seus e-mails fumegantes! Parece
que as pessoas esto reagindo  temperatura largando as roupas e ficando molhadas... E dando um show
na vizinhana.
De que condenados estou falando agora? Bom, todos ns sabemos que nos Hamptons no se pode atirar
uma pedra sem pegar em algum que voc conhece (at parece que  diferente de Manhattan). Mas aqui
temos mesmo jardins e cercas. Um conceito doido, n? Filas e mais filas de cercas-vivas separando os
fabulosos e lindos dos fabulosos e lindos. Dizem que boas cercas fazem bons vizinhos, ento deviamos todos
nos restringir estritamente a nossa propriedade.  o que eu acho. Mas e se seu vizinho  um gato e de vez em
quando fica nu?  claro que isso  hipottico ... No sei realmente de ningum que tenha nadado pelado na
piscina e depois convidado um vizinho para uma visita. Mas andei ouvindo boatos sobre B e S fazendo
exatamente isso, e vocs sabem que estas meninas sempre esto criando tendncias. Sou a primeira a
contar: hora de derrubar a cerca, gente. As cercas que se danem. Os bons vizinhos se divertem muito.
Ento, ol, meus vizinhos gatos, venham me achar. Estou deitada ao lado da minha piscina, curtindo minha
prpria forma de A-C: lcool-colegiais. Bocejo. S mais um dia de trabalho.


seu e-mail

P: Cara GG,
    - Sei que devia estar l na praia com o resto da sociedade civilizada, mas
    infelizmente fiquei presa na cidade para os cursos de vero. Quem sabe se
    eles realmente falam a srio sobre toda essa histria de poltica de
    comparecimento? De qualquer forma, estou doida para ir para a, est um calor
    danado. Socorro!
    - Sufocando na Cidade


R: Cara SnC,
    Coitadinha. Parece que voc pode usar sua ssia agora mesmo! Mas se no
    tiver essa alternativa, aqui vo algumas dicas rpidas para ficarfria na cidade:

    1) Encontre sua piscina no terrao mais prximo. Se no tiver uma amiga que
    tenha a dela (ou se ela tambm tiver sado da cidade), tente a Soho House ou
    o Hotel Gansevoort. Se estiver mesmo desesperada, compre uma piscininha
    de criana, leve para seu terrao e no se esquea das cem garrafas de Evian.
    Agora, isso  o que eu chamo de festinha particular.
    2) O ar-condicionado da Barneys  de matar. Acho que l no est um sol
    terrvel, mas se estiver experimentando biqunis,  quase como estar na praia.
    3) Trs palavrinhas: Tasti D-Lite. (Ou so duas palavrinhas, uma delas com
    hfen?) T legal, eu sei que Tasti D  supervelho, mas voc sabe que quer uma
    coisa gelada e doce. E se realmente no vai para a praia neste vero, faa-me
    o favor de esquecer as calorias e lamber algum gelato de amndoa da Cones.
    Nham.
   4) Voc disse que est fazendo cursos de vero, n? Humm, mas e a, no
   tem ar-condicionado? Se no souber a resposta,  melhor dar mais uma
   olhada na poltica de comparecimento!
   - GG


as regras da toalha de praia

Aos sortudos que continuam na boa na praia, no se preocupem, eu no me
esqueci de vocs. O mais importante a se lembrar neste vero - e isto  para o
seu prprio bem, alm do bem dos outros -  que quando os nova-iorquinos trans-
portam a cena social dos bares chiques de Manhattan para as praias arenosas
dos Hamptons, ns transportamos nossas regras sociais tambm. Afinal, temos
que ter algum tipo de ordem aqui. Ento, para os desavisados, as regras tcitas
da etiqueta na praia a que devemos obedecer so:

  1) Use grandes culos de sol se vai ficar olhando os outros. E voc sabe que
  vai.

  2) Deixe pelo menos um metro e meio entre a sua toalha e a do vizinho (e isto 
  o mnimo, s nas situaes mais desesperadoras). Se voc j acha ruim ficar
  enlatada feito sardinha num vago quente do metr, imagine se sentir do
  mesmo jeito por quatro horas seguidas com pouca roupa no corpo. Ningum
  precisa ser assim to ntimo e pessoal.
  3) Pouco me importa se voc  o Ricky Martin - nada de Speedo, por favor! Na
  verdade, especialmente se voc  o Ricky Martin. Eca.

  4) Alguns tm uma quantidade apavorante de plos no peito e nas costas.
  Depile com cera, esconda-os, ou fique em casa!  simples, seus gorilas.

  5) Quando passar protetor solar numa amiga ou algo assim, no fique
  animadinha demais. Todos vimos meninas ralando com as amigas nos bares
  para chamar ateno, e todos vimos casais se agarrando em cantos escuros, e
  os dois atos so ainda mais bregas em plena luz do dia. Confiem em mim, h
  outras maneiras de conseguir que as pessoas notem sua presena. Eu sei
  muito bem.

algumas questes ardentes

A usina da fofoca no funciona s de festas e pias coladas, sabem como  - 
um emprego de 24 horas por dia. T Iegal, tudo bem,  muito de festas e pia
colada. Talvez eu no esteja salvando vidas no pronto-socorro, mas estou
salvando a vida social de vocs, gente, e isso  muito mais importante. Para os
infiis, vou compartilhar algumas questes que me deixam acordada at de
madrugada (quer dizer, quando no estou numa festa):

Ser verdade que N se apaixonou por uma mulher mais velha? Ele foi visto
dando adeusinho a uma coroa quase sem roupa em Hampton Bays. Que
interessante. Pelo que eu soube, no seria a primeira vez... Ser tambm
possvel que B e S estejam explorando seu lado sfico... de novo? Ao que
parece, elas tm tomado banhos de sol nuas e dividem uma cama. Quem sabe
finalmente seja oficial?

Ser que V vai ficar com cime? Sempre me perguntei sobre ela e aquele corte
de cabelo rasante. E por falar em vo rasante, a pequena Srta. V tem sido vista
nadando tarde da noite com um traje de banho de criana que no a ajuda em
nada. Fiquem de olho em seu conjunto de praia abelho-de-frias, em breve na
praia mais perto de voc. E ento tem o D...

Nem te conto quantos de vocs me mandaram e-mails sobre o salo literrio de
amanh  noite. Ser que vou perder? Pensei que ler Proust no escuro fosse
coisa de meninos plidos e magricelas com culos de fundo de garrafa, mas, de
acordo com seus e-mails, algumas traas bem interessantes vo aparecer e elas
procuram por amor... Seria isto o Grande Embate Nerd? Bom, s porque eu no
vou, no quer dizer que no possa dar uma mozinha. Eu sou generosa pra ca-
ramba. Ento aqui est, atendendo a pedidos ...

etiqueta adequada num salo literrio: o que pode e o que no pode
PODE... entender a expresso corretamente:  salo de literatura, e no aquele
lugar na esquina onde todas as mulheres pintam as unhas de vermelho e
cortam o cabelo.

PODE... levar alguma coisa forte e interessante para beber; isto significa
Pernod, Chartreuse ou ouzo. Deixe sua Bud em casa, obrigada.
PODE... assentir para o que a pessoa diz, mesmo que esteja ocupada demais
olhando o poeta nerd e gato do outro lado da sala para ouvir de verdade.
NO PODE... ficar em silncio completo. Isso no  a escola - no existem
respostas erradas - ento faa alguma coisa para impressionar as pessoas. Ou
diga alguma coisa em outra lngua. Isso nunca falha.
NO PODE... ser inflexvel. Se os outros membros lhe pedem para
experimentar alguma coisa nova, lembre-se: as almas verdadeiramente
artsticas sempre esto dispostas a experimentar.

NO PODE... se surpreender se as coisas ficarem quentes. As emoes podem
explodir entre uma estrofe e outra.

Muito bem, crianas divirtam-se com seus livros - e me contem como foi. Sabem
que sou curiosa, e vocs tambm sabem o que dizem sobre os nerds? Que eles
so umas aberraes na cama. Tchauzinho!
                Pra voc que me ama,
                gossip girl




parece que v no est mais no kansas
    - Corre, corre! Anda, Vanessa!
    Os gmeos turbulentos de quatro anos quicavam na frente dela, um borro de cotovelos, cabelos
crespos e cales Brooks Brothers cobertos de veleiros minsculos - Nils de vermelho e Edgar de
azul. Eles corriam pelo passadio de madeira at a praia, lanando um jato de areia no ar.
    - Devagar! -Vanessa ajeitou novamente a enorme bolsa de lona rosa-e-verde com mono grama
cheia de ps-de-pato e mscaras, toalhas de praia Pratesi enroladas, cinco tipos de protetor solar,
livros de atividade de Bob, o Construtor, caixas de suco, biscoitos, baldes e ps de plstico, um
Frisbee, uma bola de futebol e dois vdeos iPods carregados com programas Little Einstein. Em outra
mo, carregava um guarda-sol imenso listrado de azul-marinho e creme Smith & Hawken que a
Srta. Morgan insistira que ela devia levar. - Eu disse devagar! - gritou Vanessa de novo, enquanto a
dupla quicante desaparecia atrs da duna. Ela estava prestes a explodir a cabea suada quando
concluiu que no dava a mnima. Tanto faz. Podem ir. Afoguem-se. Sejam seqestrados. Nem ligo pra essa
droga. Seria uma bno. A verdade era que os gmeos provavelmente conheciam a praia muito bem,
como conheciam o parquinho do Central Park. Ela  que estava perdida.
    Ela enfim chegou  crista do monte e olhou o cenrio: Nils e Edgar desapareceram na moita de
corpos que se acotovelavam na praia, que no parecia ter nem um gro de areia disponvel.
Tropeando com seus AlI Stars pretos - ela tirara os cadaros e achou, erroneamente, que ficariam
meio confortveis como chinelos - Vanessa atravessou o labirinto de mantas, cadeiras dobrveis e
coisas louras e bronzeadas de vinte e poucos anos com crianas plidas de quem obviamente cui-
davam. Estava exausta at a ltima reserva de msculo quando por acaso chegou a um trecho de
areia de trinta centmetros quadrados. Graas a Deus. Ela largou na areia escaldante a bolsa
abarrotada e o guarda-sol pesado de lona, depois desabou.
    - S um adorvel dia na praia - murmurou para si mesma, imitando com perfeio o sotaque
doce da Srta. Morgan enquanto procurava a manta no cesto, que ela espalhou de qualquer jeito
diante de si sem sequer se levantar. A bolsa tinha cado de lado, mas Vanessa no se deu ao trabalho
de tentar enfiar todo o contedo de volta. Idiota, idiota, idiota, ela se xingava ao perceber que tinha
esquecido de trazer uma coisa para fazer. O que ela no daria para estar em Manhattan, sentada no
frio escuro do Film Forum, vendo o mais recente filme de Todd Solondz. Em vez disso, estava
sentada na areia, o sol quente banhando todo o seu corpo, sem nada a fazer a no ser tirar meleca
seca das narinas minsculas dos gmeos ou ler a ltima edio de uma revista infantil.
     Ler os rtulos do protetor solar seria muito mais divertido.
    Vanessa passou os olhos pela praia, procurando por um lampejo dos cales azul e vermelho
dos gmeos. Algumas babs corajosas andavam pelo mar gelado com as crianas, trincando os
dentes, mas rindo. Ela viu dois menininhos com cales idnticos aos de Nils e Edgar, e por um
momento se perguntou se algum na casa dos James-Morgan perceberia se ela os levasse no lugar
dos dois.
    Estava nos Hamptons havia menos de um dia, mas era tempo suficiente para saber que a Srta.
Morgan tinha menos interesse do que nunca nos meninos e que a norma diria era um nico
telefonema do Sr. James Grossman para saber como estavam as coisas. Era como se todos fossem
um bando de robs completos programados para fazer suas tarefas com uma interao zero ou
nenhum sentimento pelos outros. Vanessa no era uma sentimentalide, mas isso j era demais.
     Eram s 11h e a praia pertencia s crianas e s suas babs.
Vanessa examinou o exrcito de colegas perguntando-se se talvez poderia fazer amizade com
algum. Ser que as outras babs tinham chefes que tiravam a roupa na frente delas? Ela imaginava
que os Hamptons deviam ser cheios de gente como a Srta. Morgan e no se importaria de ter
algum com quem trocar histrias bizarras da patroa. Mas, olhando em volta, no parecia muito
provvel que alguma daquelas criaturas magras, com seus bronzeados perfeitos, culos de sol
imensos e unhas bem-cuidadas quisesse ter alguma coisa a ver com ela. Ou vice-versa.
Basicamente, era como estar de volta  Constance Billard, a escola que a atormentara pelos ltimos
trs anos.
     Vanessa olhou o mar infindvel, de repente reprimindo o impulso de chorar. Tirou os tnis e
cruzou as pernas, procu- rando por alguma coisa para beber na baguna que a cercava. Encontrou
uma caixinha de suco de ma e abriu o canudo embrulhado em celofane, enfiando-o com raiva no
buraquinho da caixa.
    - Voc est a! - Nils pulou para ela pela areia, usando como atalho as toalhas e mantas dos
vizinhos.
   - No faa isso - ela o repreendeu. - Ou faa e leve uma bronca. Tanto faz. Cad o seu irmo?
   - No sei. - Ele se jogou no cho e vasculhou as coisas que estavam espalhadas pela manta. -
Vanessa, tem areia no meu biscoito.
    - s vezes a vida  dura. -Vanessa inspecionou os tornozelos brancos como leite e o p ainda
mais plido. Quase queria ter pensado em fazer as unhas dos ps. Ela os tirou da manta e enterrou
na areia. - Por favor, Nils, me diga que no matou seu irmo.
    Nils sorriu para ela, inclinou-se para mais perto, colocando as mozinhas grudentas e cheias de
areia nos ombros de Vanessa, e arrotou na cara dela.
    Um psicopata superprivilegiado em formao.
   - O menino que voc devia estar vigiando est ali - piou uma vozinha fina e conhecida.
    Vanessa se virou e viu o olhar gelado de sua antiga colega de turma, Kati Farkas. Kati exibia
um bronzeado profissional de spray e um biquni Gucci preto pequeno demais. Ao lado dela, a
melhor amiga, Isabel Coates. Isabel estava de barriga para baixo sem o suti do biquni verde. Uma
menina minscula de cabelo vermelho passava bronzeador Ban de Soleil nas costas dela.
    - Ah, ai - respondeu Vanessa com frieza. Outras duas que pareciam manequins se estendiam ao
lado de Isabel, sob um guarda-sol listrado de rosa e branco. - Tambm esto de bab neste vero? -
Ela perguntou a Kati, embora soubesse que no podia ser verdade. Kati e Isabel trabalhando? Jamais.
    Kati revirou os olhos.
    - Ela  minha sobrinha. Gosto de cuidar dela. Ela pega coisas pra gente, passa nossa loo, e os
meninos acham uma gracinha.
    Vanessa assentiu. No tinha resposta alguma para isso. Depois viu Edgar atravessando a praia,
andando at a beira da gua e gritando excitado a cada vez que uma onda gelada quebrava aos ps
dele. Ela estava prestes a se levantar e peg-lo, mas ele a viu e comeou a correr para Vanessa. Ela
se virou para Kati.
    - Obrigada pela dica - disse ela meio sarcasticamente.
Talvez, se pedisse aos dois gmeos para passarem leo nela, ela ficasse cercada dos surfistas dos
Hamptons - bem o tipo dela. T legal.
    - Mai bacana - piou Isabel com maldade.
    Vanessa sabia que estava ridcula no mai de listras abelho Hanna Andersson tamanho 42 de
Jenny, mas mal conseguiu resistir ao impulso de chutar areia nos olhos de Isabel. Em vez disso,
terminou sua caixa de suco numa sugada gutural.
     Ouviu as meninas magricelas ao lado de Isabel dando risadinhas. Babacas. Estava prestes a
fuzilar as duas com os olhos quando de repente percebeu que as conhecia! S que ... No. No incio
as meninas pareciam exatamente Blair e Serena, mas, quanto mais ela olhava as duas, mais
deformadas ficavam. A morena tinha um corte de cabelo desgrenhado que emoldurava o rosto e os
olhos azuis brilhantes, e dois dentes enormes se projetando entre os lbios. A loura, assustadora-
mente magra, era quase bonita, a no ser pela veia azularroxeada que pulsava visivelmente na testa
e pelo fato de que um dos olhos quase azul-marinho era meio torto. Alm disso, uma menina
verdadeiramente bonita como Serena no seria pega nem morta de mai roxo recortado como o
dessa garota. Havia at um buraco ridculo no umbigo.
    Ainda assim, por uma frao de segundo, uma onda de alvio passou por ela. Amigas! Ela podia
ter amigas reais e humanas aqui! E ento percebeu: mesmo que estas verses baratas no fossem pra
valer, Blair e Serena deviam estar andando em algum lugar por aqui, no ? Aonde mais essas duas
iriam no vero?
     - Estar com algum prroblema? - A Blair impostora olhava Vanessa. -Alguma coisa que eu poder
fazer por voc? - Ah, desculpe - gaguejou Vanessa, constrangida por ter sido flagrada encarando a
garota. -  s que ...
     - Sim? - perguntou a menina de umjeito cretino.
     -  s que voc me lembra uma pessoa que eu conheo.
     - Essa garota era russa ou s retardada?
     - Humm. - A Blair bizarra examinou Vanessa de perto. Depois a verso loura e vagaba de
Serena, sentada  direita dela, inclinou-se e cochichou alguma coisa na orelha da Blair bizarra,
teatralmente.
     Mas que simptica.
    - Sabe de uma coisa? - A Blair bizarra sorriu para Vanessa e passou os dedos em seu cabelo
grosso e castanho na altura dos ombros. - Voc me dar idias muito boas.
    - Que bom ser assim. -Vanessa se virou da canga cheia de piranhas e se concentrou nos gmeos,
que agora se revezavam cuspindo um no outro pedaos de biscoito de laranja mastigado.
    - Idia muito boa - repetiu a clone da Blair atrs dela. Ah, sim? E que idia seria essa?



 o baita experimento nerd de d
   - Voc veio!
     Dan olhou nervoso o hall do enorme apartamento no Harlem de Greg, onde iam realizar a
 primeira reunio do Salo Literrio Song of Myself.
     - Eu vim. - Dan entrou. Hesitou no hall escuro, fingindo examinar um enorme quadro a leo
 enquanto praticava mental e ansiosamente os comentrios de abertura. Bem-vindos a nossa primeira
 reunio. Gostaria de comear citando o poeta Uilllace Stevens, que evidentemente tinha muito a dizer sobre
 o tema da centralidade da literatura na condio humana ... "Sejam os finalistas. O nico imperador  o
 imperador do sorvete. "
     - Est tudo bem?
     O peso da mo de Greg no ombro sobressaltou Dan. - Oi, desculpe.
     Greg riu.
     - Nervoso?
     - No, no - mentiu Dan. - S estou olhando esta tela.
     - Ele gesticulou para o quadro imenso pendurado sobre o consolo da lareira do apartamento
 dos pais de Greg. Eram mais
 velhos do que Rufus e passavam a maior parte do tempo em Phoenix. Uma espiral de cinza
 acetinado e tons de pele cintilaram no sol da tarde, que jorrava pelas janelas da empoeirada sala
 de estar.
     - Gosta? - perguntou Greg. -  um dos meus.
     -  mesmo? - Dan se virou para examinar o quadro, na verdade vendo-o pela primeira vez.
 Quando recuou um passo e depois outro no hall, percebeu que estivera encarando um auto-retrato
 em tamanho natural de Greg sentado em uma escadinha mnima, totalmente nu. - Ah, sim. - Ele
 riu de nervoso. -  claro. Sim.  voc.
    - Em toda a minha glria. - Greg percebeu a garrafa em formato retangular que Dan segurava
 como se sua vida dependesse disso. - Voc trouxe alguma coisa!
     - , um absinto. - Foi a coisa mais literria que ele pde encontrar. O tipo de coisa que
 Rimbaud ou Shelley poderiam ter bebido. E alm de tudo, era a nica garrafa fechada no armrio
 de dentista com vidro quebrado em que o pai guardava as bebidas.
     - Incrvel! - Greg pegou a garrafa. - Quer que lhe sirva uma dose antes de todos chegarem?
     - Claro. - Dan seguiu seu anfitrio pelo corredor revestido de livros, indo para a sala de estar. -
 Eu gostaria mesmo de alguma coisa para me soltar.
     Mas s uma coisinha, n? Esse troo  to forte que  ... ilegal.


      - Tem algum, quer dizer, algum, tem ...  atrapalhou se Dan. Sua lngua parecia ter o
  tamanho de uma berinjela. - Campainha, cara. Tem algum aqui. T na hora! - acrescentou ele,
  tentando se sentar.
    - Est na hora! - Greg pulou do sof baixo de couro marrom em que ele e Dan afundavam
enquanto entravam cada vez mais nas doses de absinto. Eles reservaram uma hora para planejar as
observaes de abertura, mas passaram a maior parte do tempo despejando absinto sobre montes de
acar, depois tomando a mistura doce e pegajosa de um gole s. Dan pegou a colher de prata do
absinto que estavam dividindo e a colocou na boca.
   Gosto de metal na minha lngua. Veneno da cor da inveja ...
   Eu deliro, voc delcia, eu delirado e delirante.
   Estou perdido sem voc. Preciso de voc.
   Dan sorriu, era verdade - o absinto inspirava mesmo. Ele oscilou um pouco ao atravessar o piso
de madeira encerada da sala de estar para pegar a mochila, onde seu caderno esperava por ele.
Tinha que colocar este fragmento no papel antes de se esquecer dele.
    - Olha quem est aqui - gritou Greg. Dan largou a mochila, o fragmento de poesia j esquecido,
e tentou se concentrar nos rostos das pessoas que entravam na sala, que de repente parecia estar
girando. Como tinham mandado as fotos, ele sentia que j os conhecia. Havia a menina bonita
Charlotte Bronte. E o amante insano de vampiros.
    -. Peguem uma bebida, todos vocs. - Greg apontou.
- O bar fica bem ali. Tem muito gelo na geladeira. Depois acho que todos podemos nos sentar em
roda e nos apresentar. Est bom para voc, Dan?
    Dan assentiu, de repente incapaz de formar uma s palavra. Sentar. Sim, esta parecia uma boa
idia. Ele se balanou pelo grupo surpreendentemente apertado - quantas pessoas estavam  porta?
Ou a campainha tocou mais de uma vez? Quanto tempo ele ficou procurando o caderno dentro da
mochila, alis? Ele desabou de novo no sof de couro.
    - Que tal mais um? - Greg apontou para a bandeja de prata montada com uma garrafinha de
lquido verde claro e uma tigela de cubos de acar. Depois tirou os culos e Dan percebeu pela
primeira vez que Greg tinha milhes de sardas minsculas em toda a cara.
     - Mas ... Meu discurso - murmurou Dan. - Preciso ...
     - Voc precisa se acalmar. - Greg pegou a colher de prata delicadamente da mo de Dan e a
equilibrou na beira do copo. Depositou o cubo de acar na colher e despejou um jato fino da
poderosa bebida verde nele.
     - Isso estava na minha boca - protestou Dan.
     - Eu no me incomodo. - Greg sorriu e usou a colher para dar uma sacudida rpida na bebida,
antes de coloc-la entre os lbios. Tirou a colher da boca e a passou na boca de Dan.
     Eca, obrigada pelos germes!
    Greg tirou os surrados Doc Martens de couro preto e subiu no sof, quase pisando na coxa de
Dan. Ele sacudiu o gelo de seu copo para chamar a ateno do grupo reunido.
    - Muito bem, todos, peguem suas bebidas e acomodem se. Temos muito o que cobrir esta noite.
    A sala se encheu de vozes, mas Dan tinha problemas para focalizar a audio. Ficou grato por
Greg parecer ter tudo sob controle.
    - Agora passarei as rdeas a nosso outro lder destemido. - Colocando a mo no ombro de Dan
para se equilibrar, Greg pulou do sof e se sentou no cho de madeira aos ps de Dan.
    - Obrigado, Greg. - Dan cambaleou um pouco enquanto examinava o grupo.  isso. Este  nosso
salo. E voc  a Gertrude Stein deles. - Camas e cavalheiros, bem-vindos a nossa primeira reunio de
nosso primeiro salo da reunio inaugural de nosso grupo. - Ele arrotou baixinho. - Estou muito
feliz em encorajar vocs e lhes falar de excitantes livros. Estas coisas em que acredito e vocs
acreditam e todos ns acreditamos sobre os livros e que os livros so bons e mudam nossa vida e
nos fazem mais felizes. E isso  importante para ns, no ?  importante mesmo.
    Dan parou. Os nicos sons alm do tilintar do gelo foram alguns risinhos abafados pela sala.
Sua lngua estava grossa e seca e ele sabia que tinha problemas com a pronncia, mas estava
decidido a conseguir que a abertura fosse notvel. Passou tanto tempo rascunhando a declarao de
misso do grupo e mandando e-mails, e ainda fez vrias revises do discurso - no ia estragar tudo
s porque tinha bebido um drinque a mais.
    Um?
 - Vamos comear hoje com a leitura do livro que eu gostei e que encontrei naquele dia na Strand. 
    onde eu trabalho. Cad o livro? Greg, sabe onde eu deixei aquele livro? - Ei, ei. - Greg riu. - Por
                                                                         que no deixamos a leitura
de lado por enquanto e damos um giro pela roda? Assim todos podemos nos apresentar. Dan e eu
lemos seus e-mails, mas ansivamos por uma oportunidade de conhecer vocs pessoalmente. - Greg
ajudou a acomodar Dan de novo no sof. - Por que no comea? - Ele assentiu para uma garota
sentada de pernas cruzadas no cho ao lado da mesa de centro. A cabea dela era meio raspada e ela
exibia uma tatuagem de barata no crnio. Parecia ter um corpo muito sarado, mas a cara era
estranhamente disforme.
    A garota de cara disforme assentiu.
    - , tudo bem, meu nome  Penny - ladrou ela. Livro preferido, As laranjas no so o nico fruto,
totalmente, sabe como . Acabo de terminar a escola, vou para a Smith no outono, mas estou pirada
por estar aqui agora, conhecendo alguns amantes de livros legais, sabiam? - Ela olhou para a ruiva
 esquerda, que abraava os joelhos e bebia timidamente uma taa de vinho branco barato.
   - O-o-oi - sussurrou a ruiva. - Meu nome  Susanna.
Meu livro preferido  O despertar. Sou do East Village, estou pensando em ir para a Bennington
quando terminar a escola no ano que vem e adoro a Tori Amos.
- Voc parece demais com ela - intrometeu-se Penny. Susanna corou, olhando o cho.
    - Acho que posso ser o prximo - disse um cara esqueltico que parecia ter uns 14 anos, vestido
num terno cinza completo, com uma gravata marrom brilhante e sentado numa cadeira de balano
de frente para Dan.
   - Sim, por favor - respondeu Greg, passando a Dan uma garrafa de gua.
   O Senhor Considerao!
    - Meu nome  Peter, estou prestes a comear o segundo ano na Universidade de Nova York e
meu escritor preferido  definitivamente J. D. Salinger. Na verdade, como monografia, estou
pensando em decorar todo Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira.
   Dan bebeu a gua morna. Isso parecia meio familiar - ele meio que se recordava de ter lido um
e-mail de um f dedicado de Salinger, mas por algum motivo tinha dificuldade para se lembrar das
coisas.
    Como o prprio nome, por exemplo?
    - Mas ento - continuou Peter -, estou feliz por ter vindo aqui. Dizem nos blogs que este grupo
 muito exclusivo.
    - Eu soube disso tambm! - exclamou a menina ao lado dele, uma morena empertigada cuja
cara branca feito leite era emoldurada por cachinhos castanhos perfeitos. - E me sinto com muita
sorte por vocs estarem dispostos a incluir dois entusiastas de Salinger. Meu nome  Franny e, sim,
o nome veio de um livro de Salinger e, sim, Franny e Zooey  obviamente meu livro preferido. Vou
comear na Vassar no ano que vem e, humm, bom, acho que espero fazer novos amigos hoje.
    Ser que ela vai conhecer sua Zooey?

    - Vanessa - murmurou Dan, passando as mos no cabelo espetado da nuca da garota enquanto
ela o beijava com muita ternura. - Voc voltou para mim.
   - Er, Dan? Sou eu, Greg. Voc est bem?
   A voz de Greg trouxe Dan de volta  realidade. Ele se sentou direito e esfregou os olhos.
   - Ah, desculpe, acho que dei uma cochilada.
   - Est tudo bem. Voc dormiu por mais ou menos uma hora.
    - Dormi? - Ele se levantou e se sentou de novo rapidamente. Caraca. - Eu estava ouvindo aquela
garota falar que gosta de Salinger e essa  a ltima coisa de que me lembro ...
    - Aquela garota? - perguntou Greg, apontando a Franny dos cabelos cacheados, que estava
esparramada no cho enquanto Peter, o colega tiete de Salinger, lambia seu pescoo. - Ela, er, se
ligou com um amante de livros, como pode ver.
   - O que  que t rolando? - Dan olhou a sala, que tinha ficado consideravelmente mais escura.
Parecia que os 22 participantes do salo estavam no cho aos pares, ou em pequenos grupos.
Ningum parecia falar muito e, se estivessem, certamente no era sobre livros. No outro sof grande
da sala, Dan contou sete pernas e oito braos. A punk meio careca, Penny, recebia um trato amoroso
da lngua de Susanna nas orelhas cheias de piercing, bem na frente dele. Dan franziu o cenho. Sua
reunio da elite literria estava se transformando numa orgia. E ele podia jurar que algum o estava
beijando pouco antes de ele acordar. Mas quem? No havia mais nenhuma garota ali com a cabea
completamente raspada.
    - No se preocupe, Dan - murmurou Greg, passando um brao em seus ombros. - Todos
estamos nos divertindo muito, nos conhecendo assim. Sabe de uma coisa,  como ns queramos,
no ?
    Dan assentiu. Era?
   Greg estendeu a mo e pegou o queixo de Dan delicadamente.


   Todos somos pessoas apaixonadas, apaixonadas por livros, apaixonadas pela vida. - Apertando
o queixo de Dan de brincadeira, Greg puxou a cara dele para mais perto e o beijou, suavemente, na
boca.
Dan afastou o rosto. Como  que ? Que histria  essa? Greg sorriu e beijou Dan novamente, desta
vez deixando a lngua quente deslizar pelos lbios de Dan. Dan estava prestes a se afastar de novo,
mas sua mo involuntariamente percorreu a nuca de Greg e seu cabelo curto e espigado. Havia algo
de totalmente familiar e reconfortante em beijar algum de cabelo curto e espigado.
Pera! Mesmo que esse algum seja um cara? Sentindo-se inteiramente confuso e extremamente
nauseado de repente, Dan reuniu energia suficiente para empurrar Greg e murmurou alguma coisa
sobre precisar vomitar, enquanto cambaleava para o banheiro. A culpa era do absinto, garantiu Dan
a si mesmo ao se acomodar no cho de ladrilhos brancos na frente da privada.
    Pela parte de beijar um cara, ou pela parte do vmito?


Air Moil  Par Avion  11 de julho
Oi, Dan!

Por que no respondeu a meus postais? Est tudo bem?
Vanessa j pintou meu quarto de preto? Me
escreveeeeeeee!

Com amor (mas no por muito tempo, se no me escrever
logo)

Jenny
a doce vingana de s e b
- J est pronta? - Serena bateu na porta de madeira grossa e esbranquiada do nico banheiro da
casa de hspedes, aumentando a voz para ser ouvida por sobre a batida insistente de tecno que
tocava l dentro e o barulho dos convidados rindo e gritando pelo amplo gramado esmeralda.
    - Quase. - Blair colocou um leve toque de Viktor & Rolf, seu perfume preferido da hora, atrs
dos lbulos das orelhas, nos pulsos e, s por garantia, no espao macio entre os seios que eram
visveis pelo decote baixo do algodo amarelo claro e fino do vestido Alberta Ferretti. Ela se olhou
no espelho, imaginando como ficaria se algum, digamos, Nate, aparecesse para dar uma olhada na
festa. Com o cabelo amarfanhado de praia e o vestido longo quase branco, ela parecia uma noiva
prestes a se casar num veleiro. Um veleiro como o Charlotte, o barco que Nate tinha construdo
naquele primeiro vero em que ficaram juntos.
    Que por acaso foi o nico veleiro em que ela realmente navegou na vida.
Ela estava pensando muito em Nate desde que esbarraram com ele trs dias antes, na esperana de
que ele lhes visitasse de novo. Ela j sabia por mil pessoas que o romance quente dele, ou seja, l o
que ele teve com aquela caipira, acabara e, se ele rastejasse um pouco, ela podia perdo-lo por seu
retardo amoroso. Sim, ele era um desleixado total, e sim, ele a magoara um milho de vezes, mas
alguma coisa no modo como ele a viu correr, olhando a conhecida forma nua como se fosse uma
pintura ou coisa assim, deixara Blair querendo v-lo o tempo todo.
    Girando nos calcanhares de suas sandlias de crocodilo brancas Bailey Winter, Blair abriu
teatralmente a porta corredia do banheiro e entrou no quarto, onde Serena fingia fumar o quarto
cigarro que acendera desde que Blair desapareceu no banheiro.
    O tdio pode transformar qualquer garota cool numa piromanaca.
    - Boa escolha. - Serena assentiu sua aprovao, examinando a roupa de Blair. - Mas temos que
fazer nossa grande entrada logo e no tem como eu fazer isso sem voc.
    - Voc-sabe-quem est l fora? - perguntou Blair. Serena pulou da cama e foi olhar pela janela
o que estava acontecendo na piscina. Blair se juntou a ela, vendo as dezenas de silhuetas e a piscina
azul brilhando por trs. Ela viu Ibiza e Svetlana ao longe.
    - Na cabine do DJ - apontou Serena. - Short bacana - acrescentou ela, fingindo admirar o
shortinho vagabundo que revelava a bunda de Ibiza.
    Blair bufou, voltando ao banheiro para passar um pouco de seu creme para unhas Aesop nas
cutculas - elas pareciam meio secas ultimamente.
    Deve ser de todo o trabalho manual.
     _ Droga, Blair, anda logo, o que est fazendo no banheiro de novo?
    _ J vou, j vou. - Blair tirou o excesso de creme das unhas com uma passada rpida de papel.
Ela largou o papel higinico na lixeira e ficou paralisada. Mas. Que. Droga. O que era aquilo na
lixeira?! Ela se curvou e pegou o cesto incrustado de madreprola, colocando-o na bancada de
mrmore.-Vem c.
      _ Voc est tima. - Serena se inclinou no banheiro para pegar o brao de Blair. - Agora vamos.
Estou morrendo de vontade de beber alguma coisa.
      _ Olha. - Blair sacudiu o cesto com raiva. - Isso no te parece muito suspeito?
      Serena olhou o frasco de plstico rosa-beb dentro da lixeira.
      _ Loo de depilao Nair. - Ela parou. - E da? Quer dizer, prefiro uma cera, mas quem sabe
o que fazem na Letnia ou sei l onde.
      _ Tem alguma coisa estranha acontecendo por aqui. -
 Os olhos de Blair dispararam por todo o banheiro, procurando por sinais de atividade criminosa.
 Ela se sentia Audrey Hepburn em Charada. Simplesmente sabia que estava correndo perigo. Ela
 podia sentir.  claro! Enfim ela entendeu e abriu a cortina de linho creme do boxe, provocando um
 matraquear dos aros dourados no trilho.
     _ Que foi? - Serena bocejou, alisando a cintura do vestido de algodo de micropregas Chloe.
    - Eu sabia que elas tinham aprontado alguma. - Blair pegou seu frasco de xampu Kerastase na
prateleira do boxe. - E eu sabia que no podia ser nada original. E acho que ns duas sabemos que a
histria do Nair-no-xampu  o truque mais bvio do mundo. Lembra daquela vez? Na festinha de
dormir de Isabel? Quando a gente tinha, sei l, 11 anos?
    Serena se limitou a encarar a amiga.
    - Bom, eu me lembro. - Blair abriu a tampa do frasco.
    Nem precisou cheirar para perceber que algum tinha tentado lhe pregar uma pea: o forte fedor
de qumica do depilador era inconfundvel. -Vacas! -xingou ela. -Ainda bem que eu quis manter o
visual "cabelo de praia". -Ela tocou preocupada as mechas castanhas para se certificar de que ainda
estavam ali. -Agora  guerra!

   Exaltadas e decididas, Blair e Serena irromperam para fora da casa de hspedes pelas portas
francesas e chegaram ao caminho de cascalho branco que levava  piscina. Blair olhou a multido,
vendo agora que eram todos homens. Cada um deles. Caraca. Umas cem, talvez cento e cinqenta
pessoas, e as nicas mulheres  vista eram ela e Serena - e Ibiza e Svetlana,  claro.
    - Meu pai ia amar isso aqui. - Blair quase queria que o fabuloso pai gay, Harold Waldorf, e seu
namorado francs muito mais novo, Etienne ou Edouard ou sei l que nome ele tinha, no
estivessem levando a boa vida na Frana. Ela queria que algum alm de Serena testemunhasse o
que estava prestes a acontecer.
    - Aqui esto as minhas meninas! - Bailey Winter apareceu de um grupo de homens grisalhos
 com cara de ncora de noticirio, todos vestindo blazers azuis e calas brancas, apesar do fato de
estar fazendo quase 30 graus. O prprio Bailey usava uma roupa parecida, mas com as mangas trs
quartos e pernas de cala que deixavam  mostra as meias laranja fluorescente e rosa-choque e os
nubucks brancos. Pulando at o caminho para encontrar Blair e Serena, ele estendeu a mo
gorducha para cada uma delas, a comitiva de cinco pugs saltitantes seguindo de perto nos
calcanhares. - Vamos, meninas, faam um sanduche de Bailey. - Ele riu. - Com sorte, no estarei
s neste trio hoje  noite. -Ele sorriu e acenou para o DJ sem camisa.
- Uma linda festa - Blair cumprimentou Bailey, percebendo os muitos garons pouco vestidos
circulando com fltes de espumante.
    - Obrigado, querido! - guinchou Bailey. - Andem, andem, senhoras. Precisamos pegar umas
bebidas! -Ele disparou para o bar, puxando as duas como filhotinhos numa coleira. - Barman! -
ladrou ele para o cara que parecia modelo e surfista atrs do balo. Seu uniforme, como o do resto
da equipe, consistia em um colete de algodo e cashmere com decote baixo Bailey Winter sobre o
peito nu perfeitamente definido. - O que minhas filhotas querem? - piou Bailey.
   - Dois Negronis. - Blair virou-se para olhar a multido, um borro de calas brancas na grama
verde, cortes de cabelo perfeitos e msculos impressionantes aparecendo pelas mangas curtas
demais.
                               Depois ela as viu: Ibiza e Svetlana, vestidas de branco.
  Imitadoras piranhudas. Svetlana usava um vestido stretch assimtrico que destacava seu peito
basicamente inexistente. Ibiza se espremera num macaquinho branco curtssimo sem fundi lhos que
parecia algo que a me de Blair podia ter usado no Studio 54, trinta anos antes. Que tosco.
    Por que no fazer alguma coisa, ento?
    - Aqui est. - O barman passou a Blair dois copos cheios do lquido laranja e espesso. - Meu
nome  Gavin. - Obrigada, Gavin. - Serena bateu as pestanas para ele.
    - E a. .. Vai ficar por aqui o vero todo? - perguntou ela, apoiando-se no balco de madeira.
    - Agora no - rebateu Blair, pegando o brao da amiga.
    Ela no tinha pacincia para as azaraes de Serena, no quando havia um trabalho a fazer.
    - Desculpe. - Serena tomou um golinho do coquetel agridoce. - S queria me divertir um pouco.
Ele deve ser o nico aqui que no  gay.
    - Bailey, gostaria de olhar mais de perto a cabine do DJ - anunciou Blair.
    - Ah, meu bem, voc leu a minha mente. - Bailey guiou as duas pelos cotovelos pelo permetro
da piscina, indo para a tenda branca com listras rosa que fora erguida para a ocasio. - Ele 
definitivamente delicioso, no acham? Ah, x, meninas. - Ele afastou Ibiza e Svetlana, que tinham
as patas em engradados cheios de discos. - Ele  pago para fazer isso!
    - Ns ajudar - protestou Ibiza, fazendo biquinho e tomando seu chardonnay.
    - Claro que sim. -Bailey piscou sarcasticamente para Blair.
    - Por que no vamos todos ali para conversar? - Blair apontou a rea toda branca ao lado da
piscina.
    - Sim, sim, vocs, meninas, vo se sentar ... Quer dizer, mandei fazer aquelas almofadas
especialmente para esta festa.  a seda italiana alvejada mais divina do mundo. Muito rara. Muito
especial. Ento recostem-se e fiquem bem bonitas. Vo, andem. - Bailey ergueu a minscula flte
Tiffany de espumante numa saudao. - Vou ficar aqui, de olho em nosso homem da msica, no se
preocupem!
    Ibiza e Svetlana se arrumaram nas almofadas de seda crua superfofas colocadas ao lado da
piscina. Blair e Serena ficaram de p ao lado delas, sorrindo duro.
   - Ele  gay, sabia? - Ibiza bebericava o vinho e olhava friamente para Blair.
   Blair olhou para ela de cima. Era quase como olhar num espelho distorcido de um parque de
diverses.
    - , estou ciente disso, obrigada.
    - S pensei que, sabe como , voc de mo dada com
ele, vou te contar, sabe como , no esperrar acontecer alguma coisa - continuou Ibiza.
    - Por que eu esperaria que alguma coisa acontecesse?Blair olhou inexpressivamente para
Serena.
    - Sei l. - Serena deu de ombros.
    - Quer dizer, o que pode acontecer? - Blair sorriu,
depois de repente tropeou para frente num espasmo. O coquetel laranja at agora intocado voou no
peito de Ibiza. Blair segurou o brao de Serena para se equilibrar, o que levou a bebida de Serena a
se derramar em toda a cabea de Svetlana.
Quem poderia imaginar?
     A multido reunida em volta do quarteto soltou um arfar coletivo de pavor enquanto tudo - os
vestidos brancos, as almofadas brancas, o cabelo louro quase branco de Svetlana - assumia uma cor
de tangerina bem diante dos olhos deles.
     - Ah, meu Deus, o que foi que eu fiz? - Blair usou o guardanapo de coquetel de listras brancas e
creme para esfregar delicadamente a frente do vestido de Ibiza.
     - Estrragou, sua pirranha.  Versace! - Ibiza a afastou, irritada.
     - O que houve? - Bailey Winter disparou para elas, as palmas nas bochechas, consternado. Seus
cinco pugs latiram inquietos para a multido. - Qual  o problema? Algum derramou? Ai, minha
nossa! Minhas almofadas!
     - Elas fazer isso! -ladrou Ibiza, a mancha tangerina se espalhando pelo horrendo macaco antes
branco. Entre a mancha, as luzes cor de bronze no cabelo e o bronzeado laranja demais, ela estava
comeando a parecer uma Oompa Loompa tingida de laranja. - Elas fazer de prropsito!
     -  melhor pegar umas toalhas ... - Blair se afastou da cena e entrou na multido ainda
silenciosa e pasma.
     - Toalhas. - Serena assentiu, sria. Puxou as prprias mechas louro-claras, prendendo as pontas
num n para mant-las no lugar.
     - Preciso de um minuto a ss, por favor! - Bailey Winter ergueu as mos e comeou a enxotar a
todos. - Todo mundo, por favor, voltem para a festa. Finjam que no estou aqui.
Essa  boa: ignorar um homem choro de roupas fluorescentes cercado de ces que no param de
latir.
     - Vamos lhe dar um minuto. - Blair pegou a mo de Serena e a puxou pela multido de homens.
Quando chegaram ao gramado, as duas estavam quase histricas de tanto rir. - E agora? - Serena
ofegou. - No podemos voltar l. Blair largou o copo de cristal no cho, onde ele caiu com um
baque.
     - D para gente pular isso aqui? - Ela ficou na ponta dos ps para examinar mais de perto a
 cerca de pau-brasil que separava a propriedade de Winter da residncia dos Archibald.
     claro que d. E de saltos.
     - Com certeza. - Serena colocou o copo na grama esponjosa e se iou por cima da cerca.
     Blair a seguiu, passando o corpo facilmente pela cerca e pousando no gramado depois dela. Ela
 inspecionou o vestido amarelo-claro - havia uma mancha no corpete, onde tinha tocado na cerca.
     - Mas que saco - xingou ela. Mas nada na vida vem de graa. -
     Blair? Serena?
     Blair desviou os olhos do vestido arruinado e encontrou o que secretamente esperava no jardim
dos Archibald.
    - Oi, Nate. - Ela enfiou o cabelo atrs da orelha e sorriu.
     - Ouvi algum gritar. Pensei que fosse um animal selvagem ou coisa assim. - Nate parecia
tonto, como se estivesse cochilando.
    Ou fumando, mais provavelmente.
    - Fiquei preocupado com vocs - continuou ele.
    - Que gracinha - piou Blair, estendendo a mo para pegar a de Serena. - Agora leve a gente para
casa.
    - Como assim? - Nate piscou, olhando as duas como se ainda tentasse entender se elas eram
reais ou s uma apario. - A casa, aqui? Claro. Vamos entrar ...
    - No, para casa! - Blair e Serena guincharam em unssono. Depois correram pelo gramado
perfeitamente aparado na direo da entrada de carros, onde o orgulho e alegria do pai de Nate, um
Aston Martin verde conversvel, estava no ar fresco da noite.
     oba, viagem de carro!


tudo  uma questo de timing
- Ora, ora, ora, vejam s a penetra careca. - Chuck Bass deslizou os culos de sol de titnio
Christian Roth pelo nariz e abriu um sorriso torto para Vanessa. Ela mal havia dado dois passos no
jardim caro de Bailey Winter quando Chuck se intrometeu em seu caminho e comeou a cacarejar
para ela. A macaca de estimao dele, Sweetie, estava empoleirada no ombro, vestida numa roupa
de marinheiro de lantejoulas, pulando com as perninhas traseiras e puxando a gola da camisa plo
Hugo Boss rosa-claro de Chuck. Ocorreu a Vanessa que era bem possvel que Sweetie a estivesse
usando como papel higinico.
    - Ah, oi, Chuck. - Ela se lembrava vagamente de que este cara no era boa coisa. Dan no
gostava dele por algum motivo, e ela ouviu as fofocas sobre ele, embora nunca se pudesse confiar
nisso.
    Mas no  verdade?
    - Acaba de perder o show, meu bem. - Chuck colocou a gola da camisa plo no lugar e sorriu,
insinuando-se. - Blair e Serena, de volta s boas.
    - Ainda bem que elas esto aqui. - Vanessa soltou um suspiro audvel de alvio. Afinal, viera
especificamente para vIas, seguindo uma dica da bab do vizinho, uma irlandesa esbelta chamada
Siobhan que, apesar de ser uma empregada como Vanessa, parecia estar no centro da cena social
dos Hamptons. Ela se sentia meio sem graa por suas roupas: calas capri pretas que no foram
cortadas para ela e uma bata de algodo preta e simples que comprara na Club Monaco pouco antes
de ir para Amagansett. Mas ela imaginou que no haveria problema algum se as amigas estivessem
aqui.
     - Elas estavam, meu bem. - Chuck olhava distrado suas mensagens de texto. - Voc perdeu total.
O furaco Blair deixou danos de verdade ao passar por aqui.
     Atrs dele, a cena era um pandemnio: um quase ano muito bronzeado estava ajoelhado na
beira da piscina chorando histericamente, enquanto um grupo numeroso de gays maravilhosos
afastava-se cada vez mais dele. De p ali perto, no meio de umas almofadas brancas sujas de
laranja, havia duas meninas conhecidas.
     - Mas ali no so ...
     - Blair e Serena? No se engane, meu bem. Impostoras totais. Olhe mais de perto. - Chuck
voltou a digitar no BlackBerry.
     Vanessa olhou novamente e percebeu que Chuck tinha razo - a morena e a loura que ela
tomara por Blair e Serena no eram to bonitas, nem pareciam to saudveis quanto as originais. O
fato de que suas roupas antes brancas estivessem estragadas por manchas escorregadias meio de
vmito lhe dava uma certeza ainda maior. Ela semicerrou os olhos para as duas, percebendo que
eram as verses falsas que tinha visto na praia horas antes.
     Era s do que ela precisava - um lembrete de sua tarde horrorosa com os gmeos do terror. No
 resto de seu tempo na praia no houve nada digno de nota, mas no momento em que voltaram para
 casa, a Srta. Morgan encheu a pacincia dela sobre que fator de proteo solar ela usara nos
 meninos, que livros tinha lido e como realmente preferia que Vanessa no tivesse estragado o jantar
 deles com salgadinhos. Vanessa assentiu pacientemente, depois correu para o quarto no sto e
 rapidamente vestiu uma roupa relativamente apresentvel. Em seguida disparou para fora da casa e
 entrou na noite, recusando-se a se deixar impedir pelo fato menor de que no tinha carteira de
 motorista nem carro. Ela pegou uma das bicicletas dos gmeos no abrigo em que estavam
 suspensas e pedalou para a civilizao, imaginando que seria s uma questo de tempo at que
 topasse com algum que pudesse gui-la at Blair e Serena. Por sorte, ela esbarrou em Siobhan
 depois de uma quadra.
    - Sabe aonde elas foram? - Vanessa virou-se e viu Chuck Bass desaparecendo na multido, a
mo erguida no alto da cabea para evitar que o drinque derramasse.
    Que timo. Sem Blair, sem Serena e, agora, sem Chuck.
Vanessa teve uma viso dela mesma sozinha, tremendo na praia, tentando evitar as modelos
pervertidas e assassinas.
    S mais uma noite em East Hampton.
    Bom, s havia uma cura para uma noite de solido, raciocinou Vanessa enquanto mergulhava
  na turba, passando por um trio de homens musculosos e sem camisa, indo direto para - onde
  mais? - o bar.
    - Vodca martni. -Ela sorriu para o barman, dando-lhe o melhor olhar sim-estou-na-lista-de-
convidados. Ela quase nunca bebia, mas segurar um martni podia lhe dar uma nova perspectiva na
vida.
    O barman foi direito ao trabalho e lhe passou delicadamente uma taa. Segurando a haste,
Vanessa virou-se para a multido, sem saber com quem falar. Ali estava Chuck, rindo numa
conversa com um homem muito alto, e l estavam as duas impostoras da praia, a carranca fechada e
batendo pateticamente as roupas manchadas com guardanapos molhados.
    Deciso difcil.
   Vanessa passou por um grupo de sujeitos de cala de linho, indo para a beira da piscina.
   - Nos encontramos de novo - disse ela  guisa de apresentao. - Meu nome  Vanessa.
   A loura a encarou muda, com os olhos meio vesgos toldados de lgrimas.
   - Voc de novo. - A falsa Blair olhou para ela. - Precisamos trocar de roupa. -A garota pegou a
mo da amiga e comeou a se afastar de Vanessa. - Talvez voc tambm dever trrocar.
    Vanessa resistiu ao impulso de jogar a bebida na cara dentua da garota.
     Tirando os chinelos de dedo, ela se sentou e balanou os ps na gua azul clara. Tomou seu
martni nervosa, tentando afogar aquela horrvel vergonha estou-numa-festa-e-ningum-est-
falando-comigo. Depois olhou o relgio, mexeu na roupa e encarou a superfcie plcida da piscina,
fingindo estar envolvida em cada tarefa.
    - Iuuuu-ruuuu. Com licena, querida. Algum chamou a segurana?
    Vanessa se virou despreocupadamente e ficou cara a cara com Bailey Winter em pessoa, o
estilista hipergay com quem ela cruzou algumas vezes no set de Breakfast at Fred's na vspera de ser
demitida e tambm anfitrio da festa que ela por acaso acabara de invadir.
    - ai! - Ela sorriu com entusiasmo, esperando que ele se esquecesse de que no a tinha convidado
para esta soire.
    - Ah, querida. - a estilista pegou um leno de seda floral no bolso do peito do blazer de linho
azul-marinho e passou a ponta nos olhos vermelhos. - Estou totalmente desnorteado. Minhas
almofadas, est vendo ... Esto arruinadas.
Vanessa franziu a testa para as almofadas marfim manchadas de bebida que estavam empoleiradas
na beira da piscina. - Que droga.
    - Ah, toda nuvem tem um raio de esperana, meu bem - declarou ele dramaticamente, as
lgrimas secando sozinhas.
    - E eu diria que acho voc positivamente autntica! Quem  voc e de onde veio? 
simplesmente uma coisinha deliciosa. - Ainda agarrado ao leno, Bailey Winter estendeu a mo e
afagou a bochecha de Vanessa.
    Seda e meleca. Que lindo.
    - Eu, humm, estou procurando umas amigas minhas.
Blair e Serena?
    - Sim, aquelas duas megeras, bem, quem sabe para onde foram ... E quem liga? - Com a mo
pequena, ele a pegou pelo antebrao com fora. - Era voc que eu estava procurando. Voc  o novo
new look. At que enfim!
    - Como? -Vanessa queria se afastar, mas, se fizesse isso, ia cair na piscina.
    - Tem que ficar comigo neste vero - continuou ele, arrebatado. - Sua energia, seu perfil, sua
carequice. So positivamente inspiradores! Diga que ficar, meu amor. Passe a noite aqui. Pelo
menos uma noite. Por favor. No faa o titio Bailey implorar.
    - Ficar aqui? -Vanessa olhou o cenrio mais uma vez: uma manso moderna de concreto e
vidro, uma piscina cintilante, centenas de homens perfeitamente bem-vestidos e produzidos,
martnis gelados ... Parecia um filme de Fellini, se Fellini tivesse feito um filme sobre o vero nos
Hamptons. Ela sentiu um mpeto da criatividade que quase lhe tirou o flego.  claro! Um filme,
nos Hamptons! Um documentrio impressionista, entremeando a festa com entrevistas pessoais,
documentando o processo de criao de uma das foras-motrizes do mundo da moda. Era um tanto
Robert Altman, um tanto Crer Cardens. Para no falar que isso a livrava da patrulha catarrenta da
casa dos James-Morgan. - Ficar aqui repetiu ela, assentindo devagar. - Sim, por que no? Eu
adoraria.
   Ela adoraria?




                                    ai, gente!

   T legal, eu sei que j interrompi sua programao normal para uma mensagem importante, mas isto 
   uma emergncia. Estou lanando um AG - que significa alerta geral, caso voc no saiba - sobre
   algumas de nossas pessoas preferidas ...

   Desaparecido: um conversvel Aston Martin verde. Visto pela ltima vez saindo acelerado de Georgica
   Pond pouco depois do pr-do-sol. Os informes variam, mas minhas melhores fontes dizem que o carro
   continha pelo menos trs pessoas - um homem e duas mulheres - e recebo relatos de que pelo menos
   uma das mulheres estava de branco. Pode ser algum fugindo? Por favor, fiquem de olhos
   arregalados. E agora, de volta a nossa programao normal.

    informe literrio

    Nosso primeiro informe picante afirma o que eu ao mesmo tempo esperava e temia sobre esses nerds de
    livros: eles so mesmo umas aberraes na cama. Dizem que um certo salo intelectual do Harlem
    passou da troca de idias literrias para a troca de salivas - e rpido. E vem me falar de uma reunio
    introdutria para "nos conhecermos melhor". Imagino se era isso que D e o novo amigo dele G tinham em
    mente quando procuraram por "jovens, homens e mulheres, de mentalidade semelhante" e pediram aos
  candidatos para anexarem fotos... Mas ento, pelo que eu soube, estes Iiterati ansiosos foram alm dos
  grilhes da identidade de, humm, gnero e simplesmente abraaram a alma (e outras coisinhas) da
  pessoa ao lado deles. Acho que  o que querem dizer com no julgar um livro pela capa.


  Quer dizer ento que aquela orgiazinha de anormais representa a morte do debate literrio? Ser que as
  pessoas no podem mais ficar sentadas em um apartamento em runas no Harlem e discutir grandes
  obras da literatura sem ficar animadinhas? Ou ser que isto simboliza a volta das organizaes de sexo
  grupal como o Retiro de Plato? (S o que posso dizer  ... eca.) Lamento decepcion-Ios, mas por ora
  no tenho certeza. Mas digo a vocs o que isto significa para mim: eu nunca, jamais, passei da rua 100.
  E nem ligo para o quanto o evento prometa ser "estimulante".


  pintando o sete

  E por falar em festas com um, arr, apelo de mesmo sexo, estou muito aborrecida com certo estilista
  extravagante e seu mais recente caso do design: qual  a do tema tudo branco? Para quem se considera
  livre-pensador, a idia em si  to ... simplezinha (embora talvez eu s esteja com remorsos
  por minha excluso da festa, devido ao tema similarmente simplezinho de s6 homens). Acho que  uma
  maneira de os ricos e famosos se sentirem chiques e fabulosos - algum se lembra daquele apartamento
  do roqueiro de Greenwich Village todo pintado de branco? At os convidados tinham que combinar com a
  decorao. E embora possa parecer incrvel por cinco minutos,  pouco prtico - gente de porre, bebidas
  coloridas e sofs brancos? Algum a pode somar dois com dois? Pessoalmente, prefiro qualquer coisa
  colorida, em particular no vero. Para provar meu argumento, algumas de minhas coisas (coloridas)
  preferidas: cosmos rosa-poente, gua do mar azul-esverdeada, sorvete de chocolate com chips de
  chocolate e por ltimo, mas no menos importante ... rapazes bronzeados com camisas em tom pasteI.
  Mas isso  que  uma bela paleta de cores!


  seu e-mail


P: Cara GG,
  - Sou uma linda morena de um pas estrangeiro, ento talvez haja coisas que no entenda na
  Amrica. Peo sua ajuda para me explicar isto, por favor: ser careca agora  bonito? Os homens
  americanos gostam de mulheres assim, com a cabea raspada? Por favor, me ajude.
  - Confusa


R: Cara C,
  - Acho que voc entendeu mal. Careca  lindo quando falamos de depilao brasileira, mas a maioria das
  pessoas que eu conheo gosta de ter no que passar os dedos.  rara a mulher que possa dispensar um
  bom corte de cabelo ... S vi isso dar certo uma vez. Boa sorte!
  -GG
P: Prezada GG,
   - Estou passando o vero na Europa e estou preocupada com meu irmo em Nova York. Ele no
   respondeu a nenhum de meus postais e, quando liguei para casa h alguns minutos, meu pai disse que
   ele tinha "fugido com uma garrafa de absinto". Aaaai! Acha que ele est bem?
   - Maninha Preocupada

R: Cara Mp,
   - No se preocupe! Seu irmo provavelmente s6 est curtindo a vida e experimentando coisas novas.
   Confie em mim, isso  bom. Se voc ainda estiver preocupada com o paradeiro dele, me mande a foto
   do cara ... Se ele for bonito, vou localiz-Io para voc!
   -GG


   flagras

   N fazendo seu primeiro aparecimento da temporada na praia com um amigo que mal reconheci - o
   que t pegando, A, voc andou malhando? Com timos resultados! Tirei umas fotos com o celular
   para provar. Nham. Duas senhoras que correspondiam  descrio de B e S foram vistas mascando
   chiclete atrs de um posto de gasolina na Main Street, tarde da noite, mas vamos considerar esta
   notcia com alguma desconfiana porque outro relato tambm afirma que B e S compravam loo de
   depilar na Long's, e alguma coisa me diz que essas meninas nunca tentariam uma tarefa domstica,
   mesmo numa emergncia. Quer dizer, existem especialistas para esse tipo de coisa e, sim, eles
   atendem em domiclio! V pedalando por East Hampton numa bicicleta de criana com rodinhas. Ser
   que ela est fazendo algum tipo de afirmao ecolgica? Que bom para ela. D sendo ele mesmo um
   bom ambientalista, apesar de ter desmaiado no trem 2 em vez de num txi. Alis, K e I: se quiserem
   invadir uma festa s de homens, ajudar imensamente se vocs rasparem a cabea e usarem uma
   roupa unissex. Vrios de nossos leitores viram vocs voltando para casa com seus Puccis depois
   que foram rejeitadas no porto. Desculpe, meninas!


   J chega por enquanto. Vou sair para conhecer um novo amigo meu -  salva-vidas e s fala
   holands - e vocs tm um trabalho a fazer: sair da e criar mais alguma sujeira para mim. Vocs
   sabem o quanto eu adoro vocs por isso.  claro.

                Pra voc que me ama,
                gossip girl



antes do nascer do sol

- Aumenta! - Nate colocava a mo em concha na chama do delicado isqueiro de prata de Serena,
tentando acender um cigarro enquanto Serena dirigia o conversvel pela deserta via expressa de
Long Island.
    A melhor maneira de fugir do trnsito de vero: saia no meio da noite.
    O cigarro acendeu e N ate atirou o isqueiro de volta ao banco do carona vazio diante dele.
Serena estendeu a mo e aumentou o volume ao mximo, mas, mesmo com essa altura, os gorjeios
caractersticos de Bob Dylan mal podiam ser ouvidos com o zumbido do vento.
    - Estou com frio. Podemos subir a capota? - Blair se abraava e franzia a testa.
    - No sei como funciona - admitiu Nate. - Mas posso ajudar a esquentar voc, se quiser. - Ele
passou o brao esquerdo pelo ombro dela, protetoramente.
    Como nos velhos tempos.
    Blair inclinou-se para a frente do carro e pegou o cardig que Serena abandonara ali.
    - E estou cansada. De quem foi a idia brilhante de parar para jantar? - Ela vestiu o suter e se
encostou no banco de couro caramelo.
    Na verdade foi sugesto de Blair que eles fossem jantar.
    Ela queria parar para comer no Merritt - ela e o pai sempre paravam ali nas viagens de famlia a
Southhampton quando ela era criana - mas eles se perderam, e levaram uma hora e meia para se
achar. Nate achou melhor no lembrar Blair desse detalhe.
    - Talvez voc deva tirar um cochilo - sugeriu ele.
    - Vamos chegar logo - intrometeu-se Serena do banco da frente. - Eu quase sinto o cheiro da
cidade.
    Nate farejou o ar mido e frio. No conseguia sentir o cheiro de nada, a no ser a chama acre do
cigarro e o aroma de mel e amndoa do cabelo de Blair. Tambm no conseguia ver muita coisa, s
os contornos vagos do carro e as amigas e o vazio escuro daquela vastido ao lado da estrada, que
mal era iluminada pela fatia fina de lua prateada. Depois de mais algumas paradas - para encher o
tanque, para tirar fotos idiotas dos trs fazendo careta diante de cenrios diferentes, para se
abastecer de cigarros, Diet Coke e comida vagabunda eles perderam a maior parte da noite. Nate
devia estar subindo naquela bicicleta de merda e aparecendo na casa do treinador Michaels para
outro dia de trabalho pesado e assdio sexual.
    Imagino que ele v dizer que est doente. De novo.
    - E quais so nossos planos, alis? - Serena olhou para o banco traseiro por sobre o ombro. -
Para onde exatamente estou dirigindo?
    - Vamos para o Ritz. - Blair pulava no banco como uma criancinha que queria fazer xixi. -
Vamos pegar uma sute e pedir o servio de quarto e dormir o dia todo amanh.
    - Que tal irmos direto para a coffee shop Three Guys e nos entupirmos de panqueca? - sugeriu
Serena.
    Nate pesou as alternativas: um quarto de hotel divido com Blair e Serena ou um caf-da-manh
gorduroso.
    Decises, decises.
    Mas Nate tinha seus prprios planos. Agora j os havia repassado em sua cabea havia dias,
desde que Anthony lhe disse para aproveitar o dia. E ele sabia muito bem o que queria: um cruzeiro
de vero improvisado no barco do pai. Podia at imaginar. Ia navegar para fora do porto de Nova
York, o sol nascendo acima do East River. Eles iriam para o norte, para o Cape, e por fim para a
casa dos pais em Mt. Desert Island, no Maine. Passariam o resto do vero estendidos no convs
banhado de sol, s de roupas ntimas. Eles mergulhariam embaixo do barco e espirrariam gua fria
como crianas. Iam parar em cidades pequenas para ele poder comprar cigarros e cerveja, e Blair
comprar revistas e o que mais ela precisasse. Depois, quando eles matassem a fome de pescar, ou
de nadar, ou de fazer amor, ele e Blair assaltariam a cozinha bem abastecida, comendo corao de
alcachofra com os dedos direto do pote.
    No est se esquecendo de ningum?
 Esse era o vero que ele devia ter, e a sim ele ia aproveitar o dia. O nico problema era ... bom ...
 Serena. No importava que ele e Blair no fossem novamente um casal. Eles tinham altos e baixos
 h muito tempo, desde que se conheciam, mas sempre voltavam ao mesmo ponto: eles deviam
 ficar juntos. E esse ponto estava chegando de novo. Este ponto era no Charlotte. Nate fechou os
 olhos, tentando desesperadamente pensar em um cara que eles pudessem levar em sua grande
 viagem para manter Serena ocupada enquanto ele reconquistava Blair. Jeremy? Anthony? No, ela
 no fazia a linha deles.
     Ele atirou o cigarro para fora do carro e deu um pigarro. - J sei - anunciou Nate. - Vamos
pegar o Charlotte.
 Depois vamos velejar por a.
    - Demais! - Serena tirou as duas mos do volante e bateu palmas. - Nate, voc  um gnio!
      - No sei no. - Blair se sentou direito. - Eu estou com vontade de tomar um banho e ir para a
 cama.
     Blair se remexeu no banco, o joelho roando o de Nate.
 Ser que estava fazendo isso de propsito? Provocou um impulso palpvel de eletricidade pelo
corpo dele. Ele se sentia com a cabea mais limpa e consciente do que estivera em meses. Era
como se tudo o que lhe aconteceu ultimamente - meter-se numa encrenca e quase no se formar,
ser despachado para trabalho escravo nos Hamptons, ter aquele romance esquisito e de vida curta
com Tawny - o tivessem levado bem ali, a este momento. Pouco importava que ele fosse matar o
trabalho em questo de horas, pouco importava que ele tivesse roubado a posse mais valorizada do
pai, pouco importava que ele no conseguisse o diploma - ele estava com Blair e, quando eles
estavam juntos, era como se tudo no mundo fosse simplesmente ... certo.
     - Tem um chuveiro a bordo - Serena lembrou a Blair, sentindo o celular Nokia vibrando e
piscando em seu colo.
     - No seja infantil- gritou ela por sobre o ombro. - Al? - ela atendeu no celular. Quem diabos
 estava ligando s 4h?
     - Oi, Serena. Como est?  o Jason. Sabe quem , seu vizinho de baixo na casa da rua 71?
    Serena sorriu baixinho para a estrada. Blair no estava esperando este telefonema.
   - Ei! - respondeu ela com o tom de voz mais simptico e mais animado. J ason era uma graa
mas totalmente esquecvel. Depois da festa de encerramento de Breakfast at Fred's, foi exatamente o
que as duas meninas fizeram: esqueceram. Mas Serena no era a garota de que Jason estava a fim. -
Acho que quer falar com Blair. - Ela engrenou a quarta numa curva apertada na estrada.
   - Mais ou menos - admitiu Jason.
   - Pera. - Serena atirou o celular para trs, batendo por acidente no nariz de Blair.
    Blair havia se abrigado satisfeita em um de seus devaneios picos cinematogrficos estrelado
por ela e Nate, nus, numa praia em St. Barts, beijando-se na areia enquanto as ondas batiam no
corpo, exatamente como Deborah Kerr e Burt Lancaster em A um passo da eternidade. Ela pegou o
telefone. Provavelmente era a me, perguntando por que havia uma conta de dez mil dlares da
Tod's no AmEx dela.
    - Al? - disse ela com alguma irritao. A perna de N ate estava to quente junto da dela. Ela
pousou a cabea no ombro dele, procurando conforto enquanto se preparava para ter uma conversa
extremamente irritante. - O que  agora, me?
     - No, sou eu, o J ason - respondeu uma voz de homem spera do outro lado.
    Blair levantou a cabea do ombro de Nate e afastou o fone da cara. Quem?
    Ela olhou o perfil de Nate. Ele comeava a cochilar e ela queria agarr-lo e passar as mos por
baixo da camisa dele, s para sentir sua pele quente nos dedos.
     - Al? Blair? - A voz de Jason guinchava no celular de Serena. Blair fechou o telefone e o
atirou no banco do carona. - Blair! - repreendeu Serena. As duas meninas riram, dividindo um olhar
pelo reflexo do retrovisor.
     Nate se mexeu no banco.
    - Qual  a graa? - murmurou ele, fazendo-as rir ainda mais.
    Depois Blair se virou, pegando o olhar de Nate nela. Mas antes que ele pudesse se afastar,
constrangido, ela deu a piscadela mais sexy e mais inesperada que Nate vira na vida.
    - Posso fumar? - perguntou ela finalmente, mordendo com delicadeza o lbio inferior pintado
de rosa.
    - Claro. -Ele procurou o mao no bolso. Para voc, tudo. Ai.

    o   sol deve ter nascido nos quatro minutos que eles levaram para passar  toda pelo Midtown
Tunnel e entrar na cidade: o cu estava roxo escuro quando Serena levou o carro para a entrada do
tnel e, quando o pequeno conversvel saiu nas ruas de Manhattan, o sol estava alto, os carros
buzinavam e j comeava a esquentar.
Nate procurou no ficar olhando Blair de maneira to bvia, o que era difcil, porque ela estava to
perto que ele sentia o cheiro dela, podia imaginar o peso de seu corpo no dele se ela por acaso
casse no sono, podia conjurar a sensao macia de seus lbios e sua lngua nele caso eles
comeassem a se agarrar bem ali no banco traseiro.
   Pare. Concentre-se.
    - Vamos para o centro. - Nate viu os olhos de Serena no retrovisor. Ser que ela sabe o ele estava
pensando? Ser que viu alguma coisa?
   Mas ela no era deselegante o bastante para dizer alguma coisa.
   - Sim, senhor capito. - Serena entrou  direita na FD R Drive, o que fez com que Nate e Blair
tombassem para a esquerda.
    - No mate a gente. - Blair enfiou o cabelo batido pelo vento atrs das orelhas.
    - No se preocupe. - Nate apertou o joelho direito dela de um jeito tranqilizador.
    Blair olhou para ele, os olhos vidrados e sonolentos mas com o mesmo brilho azul que sempre
tiveram. Ela sorriu e pousou a cabea no ombro de Nate, sem tirar os olhos dele.
    Nate tambm sorriu, sentindo-se bobo e meio constrangido, como se tivesse 15 anos de novo.
Ele se perdeu na sensao do vento no cabelo, o zumbido montono da estrada abaixo dele, o
cheiro da garota que amava encostada nele. Serena precisou de dez minutos para costurar pelo
trnsito da via expressa no incio da manh, e de cinco minutos para percorrer as ruas tortuosas
antes de chegarem s docas em Battery Park, onde o capito Archibald mantinha o Charlotte
ancorado.
     - Chegamos, crianas - anunciou Serena, bancando a mame enquanto levava o carrinho para
uma vaga no estacio namento junto ao meio-fio e desligava a ignio. - Prontos para velejar?
    Nate abriu a porta e cambaleou para fora do banco traseiro. Respirou o cheiro de trnsito com
gua salgada e asfalto quente; era uma mistura de tudo o que ele adorava - a cidade, em especial no
incio da manh, e o mar, onde ele passou as semanas mais felizes de sua vida. Talvez ele tenha
ficado engaiolado no minsculo banco traseiro por tempo demais, ou talvez s estivesse empolgado
com a idia de um cruzeiro ilcito que estava prestes a fazer, mas, qualquer que fosse o motivo,
Nate realmente comeou a correr, esbarrando nos pedestres e pulando o porto baixo que separava
as docas da rua. As solas de borracha dos chinelos de dedo batiam ruidosamente nas tbuas de
madeira cinzenta das docas. Seu corao martelava nos ouvidos: verdadeira e finalmente estava
acontecendo - o vero enfim comeava. Depois que ele e Blair subissem a bordo do barco, tudo iria
mudar.
    - Senhor? Senhor? - Um empregado uniformizado das docas corria pelo per atrs de Nate,
agitando as mos no alto como se estivesse sendo atacado por abelhas. - Isto  propriedade
particular, senhor, ter que sair daqui.
    - Estou procurando meu barco - explicou Nate, olhando a floresta de mastros em busca do perfil
familiar. Ele ajudara o pai a construir essa coisa, tinha que reconhecer o barco em qualquer lugar. -
O Charlotte. Est por aqui em algum lugar. Quero sair com ele.
    - O Charlotte? - O empregado, um cara em idade universitria que parecia bem legal, encarou
Nate, claramente confuso. - O barco dos Archibald?
    - . - Nate assentiu, olhando para trs: Blair e Serena estavam empoleiradas no porto de
segurana, balanando as pernas no ar e rindo de alguma coisa. -  o barco de minha famlia. Pode
me dar o nmero do per?
    - Desculpe, cara. - O empregado sacudiu a cabea devagar. - No est aqui. O capito
Archibald navegou para Newport no comeo de junho ... Ele me disse que pretendia deixar o barco
l a temporada toda.
    Droga. Nate franziu a testa para o empregado das docas, depois olhou para Blair mais uma vez.
Ela chutava as perninhas bronzeadas no alto quando uma lufada repentina de vento fez seu vestido
voar at a cintura. Por baixo, usava uma calcinha de algodo rosa-claro. Ele pde distinguir as
bolinhas brancas que a decoravam.
   O barco que se danasse: agora, s o que ele queria era se deitar ao lado dela, de mos dadas, e
nunca mais soltar.



a verdade se revela ... e d tambm
- Comendo. Me comendo. Me comendo.
     Dan gemia e se revirava nos lenis macios que um dia foram brancos e agora eram manchados
de caf e nicotina de sua cama. Me comendo? Suando profusamente, ele virava a cabea de um lado
para outro.
     - J acordou a? - Rufus Humphrey, pai turbulento e excntrico editor de poetas Beat nada
conhecidos, bateu  porta com urgncia. - Encomenda! Encomenda! Est ouvindo? - Encomenda! -
Dan se sentou na cama. Encomenda, seu idiota, e no me comendo. - Estou acordado - anunciou ele, com
a voz rouca.
     - Lembre-me de contar a voc sobre o passarinho e a minhoca um dia desses! - Rufus irrompeu
todo decidido no quarto de Dan, vestido nos trajes tipicamente insensatos: cala de carpinteiro com
espirros da mesma tinta branca suja que cobria as paredes do apartamento, o que significava que a
cala tinha uns 19 anos de idade, e um casaco da equipe de produo de Breakfst at FredJs que ele
deve ter surrupiado da pilha de roupa suja de Vanessa. Estava aberto, revelando um peito cheio de
plos grisalhos. Ele segurava uma caixa de papelo enorme que algum tinha fechado de qualquer
jeito com papel pardo, plstico bolha e dois tipos de fita adesiva. A palavra FRGIL estava
rabiscada em toda a caixa em cinco lnguas diferentes. Rufus largou o pacote na cama. -
Encomenda para voc.
    - Meu Deus. - Dan pegou a caixa desajeitado. Podia atir-Ia no ar, de to leve que era. - Nem
parece ter alguma coisa dentro dela.
    - Abra, abra - insistiu Rufus. - Sua irm mandou de longe e a postagem no deve ter sido barata,
ento acho que tem alguma coisa boa a.
    - Claro. - Dan comeou a desfazer o embrulho.
    - No ouvi voc chegar ontem  noite. - Rufus sorria duro para Dan. - Imagino que sua primeira
reunio foi muito boa, hein? Ficou acordado at tarde, debatendo os mritos das peas menores de
Shakespeare, no ?
    - Mais ou menos. - Dan tirou outra camada de papel antes de finalmente chegar s abas da caixa
de papelo. Se houve algum debate em toda a noite anterior, ele no se lembrava. Mal conseguia se
lembrar de alguma coisa, a no ser a sensao da lngua de Greg nele, a penugem de plos faciais de
Greg em seus prprios plos.
    Ai.
   - Eu me lembro dos sales dos velhos tempos. - Rufus se empoleirou no peitoril da janela e
olhou o filho mergulhar nas profundezas da caixa. Dan pegava um punhado de jornal amassado
depois de outro. - Tivemos uns tempos bem doidos naquela poca.
    - No foi assim to doido - respondeu Dan, na defensiva. Enfim sua mo pegou alguma coisa
firme dentro do emaranhado de jornal. Segurando com fora, ele puxou o objeto estreito at que
sasse e a casca de papelo mole caiu no cho, espalhando bolas de jornal em toda parte.
    Rufus riu.
    - Que pena. A garotada de hoje. Sem paixo, sem coragem. Eu me lembro de quando tinha a sua
idade, eu e uns amigos amos para os lagos, na Nova Inglaterra. Acampar, escrever poesia, ficar
acordado a noite toda.
    Dan meio que ouvia enquanto ponderava sobre o objeto nas mos: tinha uns sessenta
centmetros de comprimento e estava envolto num casulo de plstico bolha e fita adesiva. Ele
enfiou a unha no embrulho, repassando ansiosamente os acontecimentos da noite anterior. At que
ponto exatamente ele foi com Greg? Como voltou para casa? Quase no tinha lembrana de se
colocar na cama. E acordara com a cueca sambacano Gap preferida - ele a estava usando ontem?
No conseguia se lembrar.
    Rufus tinha um olhar distante e continuou.
    - Eu me lembro de uma tarde, no lago, quando as coisas ficaram bem quentes. Estvamos todos
nadando nus e eu tinha uma discusso muito apaixonada com Crews Whitestone ... Sabe quem , o
dramaturgo. Estvamos debatendo sobre a natureza elementar da verdade e as coisas ficaram to
acaloradas, nem imagina, que de repente estvamos l, rolando pela praia, lutando no cho, cada
um tentando conseguir que o outro admitisse que sua concepo da verdade era a supenor.
    Dan meio que ouvia os murmrios pornogrficos do pai.
    Encontrou um espao no plstico bolha e o arrancou daquele ... troo comprido de cermica.
    - , suas reunies literrias de hoje devem ser muito mais dignas, no ? - continuou Rufus. -
Mas era assim que gostvamos na poca: nus, vibrantes, arrancando a verdade. Meu Deus, bons
tempos aqueles.
    Ainda tentando se desligar do pai, Dan atirou o embrulho excessivo de lado e considerou o vaso
nas mos: era uma coluna comprida e oca de cermica branca, com um convidativo acabamento
macio e vitrificado. Tinha uns 45 centmetros de altura e era aberta no alto, ento devia ser um
vaso. Na base, havia duas peas pequenas e redondas, uma de cada lado, que ajudavam a estabilizar
a haste central e alta. Era um vaso. Era alguma coisa. Era ... Bom, era um pnis lindamente
esmaltado.
    Era esta a idia que a irm fazia de um presente? Ele colocou o vaso - ou o que fosse - na mesa-
de-cabeceira e o olhou cautelosamente.
    - Ora essa, eu reconheceria isso em qualquer lugar.Rufus riu, interrompendo as reminiscncias.
Pegou o vaso e o afagou delicadamente. - Sabe quem fez, no ? Sua me.  obra dela.
    -  mesmo? - Dan tirou o vaso das mos do pai e o examinou com mais cuidado. Talvez
estivesse enganado: talvez fosse um foguete em pleno vo, ou um aliengena, ou talvez fosse uma
representao abstrata de uma me terra flanqueada por seus filhos.
    Nada disso. No importava quanto semicerrasse os olhos ou virasse a cabea, continuava
parecendo um pnis dos grandes.
    Ele virou o vaso para ver a base, onde encontrou uma inscrio minscula  mo: "Um totem
para meu filho. Dado com amor."
     Um totem? O que diabos isso significava? Ser que sua me estava tentando lhe dizer alguma
coisa, algo sobre ele que Dan nunca conseguiu deduzir? Ele no via a me havia anos e agora essa -
um vaso em formato de pnis, por coincidncia, aparecia pelo correio horas depois de ele ter se
agarrado com um cara? Mas ele no era gay. Como podia ser gay? Ele adorava mulheres. Ele amara
Serena van der Woodsen. Ele amara Bree. E ele amava Vanessa acima de tudo.
     T legal: a garota que parecia um homem.
     Seria possvel que ele fosse gaye todo mundo, menos ele, soubesse disso o tempo todo? Ser
que ele foi um daqueles garotinhos obviamente gays que gostavam de tomar ch de mentirinha com
os bichos de pelcia e levavam para a escola as bolsas que a me no queria mais?
     Suspirando ao colocar o vaso no cho do quarto, Dan olhou o pai, que estava perdido em
pensamentos.
     - Ento, estava me falando de nadar nus e discusso literria. - Dan parou. - E isso era, humm,
normal? Que suas conversas literrias terminassem ... com voc nu com outro cara?
     - Normal! - Rufus riu com vontade. - Pode acreditar, quando se trata de literatura, no h nada
mais normal. Paixo. Fogo. Quando se  jovem, voc est cheio disso. Precisa extravasar de alguma
forma.
     Dan assentiu, o cenho franzido.
     Ento est me dizendo que, de acordo com sua experincia, no  incomum que um salo
literrio se transforme numa orgia de gente do mesmo sexo?
     -  mais comum do que voc pensa, filhinho. - Rufus afagou com afeto o cabelo amassado do
filho. -  uma pena que os tempos tenham mudado.
     ,  uma pena mesmo.



a verdade - mais estranha do que a fico, afinal
- Agora vire a cabea, s um centmetro para a esquerda ... Mais um centmetro ... -Vanessa
consentia, virando a cabea ligeiramente para a esquerda para permitir que Bailey Winter tivesse
uma viso desimpedida de seu perfil.
    - Meu Deus, no  uma delcia? - Bailey no falava com ningum em particular ao rabiscar
furiosamente em seu bloco de desenho com capa de crocodilo, brandindo o lpis e virando as
pginas como um louco. - Sim, sim, Vanessa, meu bem,  isso, voc realmente sacou. Agora voc
faz com que Gisele, Kate e todas aquelas outras corram atrs do dinheiro, no , meu amor?
Hummm!
    S meio que ouvindo e sem saber quem eram Gisele e Kate, Vanessa remexeu-se, com a cmera
empoleirada em seu colo como um gatinho. Estava reclinada em um div de pedra comprido,
coberto de almofadas e peles para deix-lo bem confortvel, mas quente para uma tarde de julho,
com uma viso clara e desobstruda da piscina. Ela olhava Chuck Bass brincando na extremidade
sombreada, vestido somente num calo de estampa floral e estilo europeu que no deixava nada
para a imaginao, enquanto sua macaca empoleirava-se na prancha de mergulho, comendo uma
tigela de uvas.
    Mas que ertico.
    Ela no devia se mexer muito, ento no podia examinar a cena pelo visor da cmera, mas
estava confiante de que era puro ouro cinematogrfico: ali estava Chuck, vadeando pela gua na
altura da cintura, batendo papo nos fones do Bluetooth com Sweetie mastigando ao fundo. Atrs
dele, Stefan, o empregado magrela, varria o caminho de lajotas que levava das quadras de tnis 
casa principal, tentando no bater por acidente nas cinco pugs mimadas que atacavam a vassoura
com raiva. De vez em quando, Vanessa deslizava a cmera no colo para apontar para o prprio
Bailey Winter, que usava um traje cqui de menino - calas curtas e tudo - que ele refez para
acomodar a cintura. Era matria-prima para um documentrio de cair o queixo.
     - No se mexa muito, querida - cacarejou Bailey, reprovando-a.
     Vanessa sorriu placidamente e virou a cmera para a ao na piscina. Enquanto estava sentada
ali, imvel daquele jeito, sua mente vagou preguiosamente sobre o turbilho das ltimas semanas.
Ela passou de participante de Hollywood a serva sem amigos nos Hamptons e depois a mulher de
coronel. Era tudo muito empolgante, de certa forma, mas o caso era que sentia falta de algum para
dividir isso.
Vanessa se surpreendeu quando percebeu que no s estava encarando o vazio: estava admirando o
torso perfeitamente tonificado de Chuck Bass, o ondular suave de seus msculos enquanto ele
passava os dedos pelo cabelo molhado mas ainda assim com o gel perfeito. Esquecendo-se por um
minuto de tudo o que sabia sobre o cara, de cada interao que tinha com ele e todos os boatos
maldosos que ela tentava ignorar, ela meio que queria estender a mo e ... tocar nele. Ela lambeu os
lbios involuntariamente.
     - Isso! - Bailey Winter atirou o lpis na piscina prxima, depois pegou outro. -Voc est
incrvel. Parece satisfeita e faminta ao mesmo tempo. Como se estivesse pronta para a sobremesa,
embora tenha feito a refeio mais saborosa do mundo!
     Vanessa corou, constrangida, e depois lembrou a si mesma que no estava admirando
necessariamente ChuckBss, s seus variados atributos fsicos. A verdade era que o tipo dela era
um pouco mais magro e plido do que Chuck. Pensar em Dan de repente fez os cantos de sua boca
se virarem para baixo.
     - Levante o queixo, querida! Para onde foi aquele sorriso? - Bailey Winter bateu palmas uma,
duas, trs vezes, como um lder de torcida demente.
     Vanessa tentou colocar um sorriso no rosto, mas pensar em Dan de algum modo tinha maculado
tudo. Ela sentia falta dele. E o peito carnudo de ChuckBass no era substituto para o amor. Vanessa
suspirou, dando uma panormica no gramado verde-esmeralda com a cmera. Mais uma vez, s o
que ela realmente tinha era sua arte.
     Ela apontou a cmera para Chuck de novo, que agora estava encostado na beira da piscina,
conversando com Stefan. Sweetie pulava atrs dele, implicando com as pugs, que latiam colricas.



       - Meninas! Por favor! Silncio! - Bailey colocou os dedos na boca e soltou um assovio
   estridente e surpreendentemente alto. - Papai est trabalhando! No consigo me concentrar com
   toda essa algazarra!
       - Desculpe, Bailey. - Chuck se virou e sorriu por sobre o ombro. - Vou tentar fazer com que
   Sweetie no as incomode.
       - E o que  que esse monstro est fazendo na minha piscina, alis? - guinchou Bailey, a pele
   indo do bronze ao escarlate.
       Vanessa apontou a cmera para o outro lado da piscina e ficou imediatamente claro de que
   peste Bailey estava falando: o lpis descartado de Bailey no era a nica coisa que boiava na
   superfcie.
       - Me diga que no  o que eu estou pensando! - agora Bailey definitivamente gritava.
       - Desculpe, Bailey. s vezes Sweetie no consegue se controlar.
       - Saia! Saia! No quero meu santurio sagrado transformado num esgoto! Estamos em East
   Hampton, e no em Calcut!
       Vanessa se endireitou no div, usando as duas mos para equilibrar a cmera e dar um zoam
   rpido. Isto era uma mina de ouro do cinema.
       , ou uma mina terrestre.



Air Mail  Par Avion  12 de julho
Querida Jenny,

Eu sou gay.

Com amor,

Dan




voltando no tempo
    - Chegaaaaaaamoooooos! -A voz de Serena ecoou pelo hall e mergulhou no apartamento dos
pais, que ela viu, assim que abriu a porta, que estava vazio. O lugar tinha aquele aspecto escuro e
silencioso de uma casa sem ningum, o que no era surpreendente, uma vez que os pais passavam
mais tempo no campo do que enroscados no sof. Ela nem tinha certeza de quando os vira pela
ltima vez naquele sof.
    - Meu Deus, preciso fazer xixi. - Blair disparou por ela e entrou no apartamento, acendendo as
luzes ao passar - o apartamento de cobertura de Serena era to conhecido para ela quanto a prpria
casa. Ela desapareceu no corredor em galeria, indo direito para o quarto de Serena. Nate arrastou os
ps atrs das duas, fechando a porta com fora demais. O barulho da porta foi amplificado nos
cmodos sinistramente silenciosos.
    - Desculpe. - Ele abriu um sorriso torto para Serena.
    - Est tudo bem. - Serena atirou as chaves na mesa de mogno, onde caram com um rudo. -
Vamos achar alguma coisa para comer. - Ela levou Nate pelo apartamento e pelas portas de vaivm
da cozinha.
    Olhando a Sub-Zero quase estril, Serena pensou nas opes que tinham.
    - Temos umas azeitonas - anunciou ela. - Um saco de cenouras baby. Acho que tem um pouco
de queijo. Talvez possa encontrar uns biscoitos ou coisa assim por a. No sei onde a empregada
nova guarda as coisas.
     to difcil encontrar uma boa empregada.
    - Vou cuidar disso. - Nate partiu para a despensa e comeou a saque-la, tirando vidros e
recipientes e colocando-os com um rudo na bancada de travertino.
    - Acho que vou guardar os suprimentos. - O nico motivo para eles voltarem ao apartamento
dos van der Woodsen foi dar uma parada, antes de embarcarem numa viagem de carro para
encontrar o Charlotte, e se abastecer de itens de necessidade bsica: roupas e bebida.
    Serena foi at o armrio de bebidas que os pais nunca se preocupavam em trancar, colocando na
bolsa Hermes garrafas de Grey Goose, Hendrick's, Havana Club e Patrn. Havia alguma coisa na
invaso do esconderijo dos pais, enquanto Nate e Blair andavam pela casa, que lembrava Serena de
tempos passados. Nada mudara e tudo tinha mudado. Essa idia a deixou inesperadamente triste.
    Todos ns ficamos meio melanclicos perto de nosso aniversrio.
    Serena entrou na biblioteca do pai e afundou na cadeira giratria Aeron dele. Pegou o telefone
na mesa e discou um dos poucos nmeros que sabia de cor.
    - Al? - A voz do irmo Erik parecia meio desconfiada. Afinal, eram 6h da manh.
    - Sou eu. - Serena se recostou, colocando os ps descalos na mesa de mogno antiga do pai.
    - Mas que merda, Serena. Apareceu o nmero de casa ...
Por um minuto, fiquei preocupado. - O irmo riu.
    - Eles no esto aqui. - Ela olhou as paredes revestidas de livros, examinando as fotos de
famlia: Erik jogando tnis, Serena montada num cavalo preto, os pais bronzeados bebendo
Campari com refrigerante em um caf ao ar livre na costa de Amalfi. - Wimbledon  disseram
Serena e o irmo em unssono.
    - Eles so to previsveis. - zombou Erik. - O que est fazendo em casa, alis?
    - S planejando uma saidinha de vero. Pensei em ligar para o meu maninho. E onde voc est
exatamente?
    - Connecticut - disse-lhe Erik. - Pensei que papai podia estar me ligando para dizer que eles
vinham para c.
    Serena olhou pelas portas francesas para a sala de estar, onde Nate perseguia Blair por um sof
de couro com botes, tentando prender cereais matinais nas orelhas dela.
    - Vamos fazer uma viagem de carro - disse-lhe Serena. - Quer vir? Temos espao no carro para
mais um.
    E quem sabe assim ela deixaria de pensar que estava segurando vela?
    -  tentador. Mas estou preso por aqui. Que tal uma parada em Ridgefield?
    Ela fez um rpido planejamento mental: eles podiam ficar aqui hoje e sair amanh de manh,
ento talvez ela pudesse convencer Blair e Nate a passar a noite em Ridgefield, e com sorte algum
perceberia que no dia seguinte era aniversrio dela.
    - Acho que posso conseguir isso.
    Serena se despediu do irmo, recolocando o telefone na mesa. Olhou o closet, perguntando-
se preguiosamente se os pais tinham escondido um presente surpresa de aniversrio para ela
em algum lugar do apartamento.
    Mas as surpresas no so sempre as mais divertidas?

     Blair bocejou - o tipo de bocejo fundo que voc sente em todo o corpo - e passou rudemente
a escova Mason Pearson de Serena no cabelo. Nunca foi do tipo que d mil escovadas no
cabelo antes de ir para a cama, mas, ainda assim, no podia fazer mal. Eram s 8h e o sol
jorrava pela janela, mas parecia que se passaram anos, e no horas, desde que ela dormira uma
noite de sono decente.
     - Nem acredito em como estou cansada. - Serena desabou na plancie ampla de sua cama, os
braos e as pernas esticados em volta dela.
     - . - Nate hesitou ao p da cama, olhando para Blair, que estava diante do espelho, e
depois para Serena, deitada diante dele.
     - Estou arrasada. - Serena desabotoou os jeans e os tirou sem se levantar. - No consigo nem
me enfiar debaixo do cobertor.
Blair olhou as pernas compridas e esguias de Serena e depois para Nate, que olhava as
mesmas pernas. Sentiu a pontada familiar de cime dentro do peito. Ela amava e tinha cime
de Serena por tanto tempo que parecia uma eternidade. Mas as coisas finalmente estavam
diferentes. O ano foi cheio de altos e baixos, mas enfim era vero, eles iam para Yale juntos
no outono e tinham o resto da vida pela frente como grandes amigos. E Blair tinha Nate, bem
ali, naquele exato momento, bem na frente dela.
     Ora essa, quem est se esquecendo de algum?
     Blair tirou pela cabea a camisa plo Lacoste rosa-claro emprestada e estendeu os braos
para trs para desafivelar o suti, que deixou cair no cho casualmente.
     - Nate, posso dormir com sua camiseta? - perguntou ela com timidez.
   - Claro. - Ele assentiu ansioso, tentando desviar os olhos. Tirou a camiseta de algodo e a
lanou para Blair.
     Ela a vestiu pela cabea, parando dentro da escurido da roupa para sentir o cheiro
 dominador: as axilas dele, e o detergente de lavanderia, com um toque de maconha e pasta de
 dente.
    Bom at para comer.
     Quando passou a cabea pela gola da camiseta ainda quente, N ate tinha tirado as calas
 cqui e se jogava na cama ao lado de Serena com uma cueca samba-cano engraada de
 estampa de palmeiras que Blair tinha certeza absoluta de ter dado de presente a ele.
     Ela apagou a luz do quarto. O sol da manh de vero entrava pela janela, iluminando os
 corpos dos amigos. Ela foi descala at a cama, depois meteu-se com cuidado entre Serena,.
 que j dormia, a respirao longa e silenciosa como de um beb, e um Nate quase nu.
     - Boa noite - sussurrou Nate.
    _ Boa noite - repetiu ela baixinho. Com o corao martelando nos ouvidos, Blair de repente
se sentiu totalmente desperta. Olhou os painis delicadamente moldados com ameias do teto de
Serena enquanto ouvia o leve ressonar da melhor amiga e tentava ignorar a pele macia do outro
grande amigo: o nico cara que ela realmente amou e cujo brao a afagava to de leve. Como  que
ela podia dormir assim?
    Depois ela sentiu dedos passando por seu brao, com tanta delicadeza que deu ccegas. A mo
de Nate deslizou para sua cintura, depois passou pela palma de sua mo, apertando-a suavemente.
    Soltando um suspiro, parecia que ela estava exalando algo que nem sabia que tinha dentro de si.
A frustrao, o cime, a preocupao com o que ia acontecer. Ela se virou para olhar Nate, mas os
olhos dele estavam cerrados e logo os dela tambm se fecharam. E assim eles dormiram, pelo resto
do dia, entrando pela noite.




                           ai, gente!

    Sabe de quem eu sempre tenho um pouco de pena? Daquela galera que faz aniversrio no vero. Eles
    nunca tm festinhas de sorvete na Serendipity porque todos os amigos foram para o campo ou esto
    passando a temporada em Amagansett. Eles nunca compram bolinhos Magnolia com glac de creme
    amanteigado para toda a turma curtir. Nunca tm a desejada festinha de ch no Plaza com todas as
    melhores amigas. S6 porque por acaso nasceram durante os trs meses do ano em que a ltima coisa em
    que qualquer um quer pensar  no outro. No queremos ser egostas,  s6 que ... Est no ar. Mas isso
    no quer dizer que ningum se sinta mal com isso.  srio. Ento isto  para voc, meninas
    aniversariantes ...

    Trs maneiras de dizer "Me desculpe, esqueci seu aniversft rio enquanto ficava com meu amor de
    vero incrivelmente gato":


   1) Leve-a  Barneys e deixe que ela use seu carto de crdito pelos muitos minutos de idade que ela tiver.
   Quando sua me receber a conta, assuma a responsabilidade, porque  para isso que servem as amigas.
  2) Desculpe-se por estar mais interessada em seu romance de vero do que no rito de passagem dela e
  convide-a para se juntar a voc e seu novo beau num encontro duplo com o irmo mais novo dele, meio
  vesgo mas quase igualmente gracinha.


  3)  vero, lembre-se, ento a manuteno de todo o corpo  mais importante do que o de costume.
  Refestele-se numa experincia completa no spa Bliss (mas no s um combo idiota manicure-pedicure
  de presente-da-titia Susie, por favor) para que sua melhor amiga possa ficar bronzeada, depilada e
  mimada como voc j est.


  seu e-mail


P: Cara GG,
  - Estou com medo de ter virado gay. Sabe se existe algum sinal de alerta?
  - Garoto Triste


R: Cara GT,
  - Os sinais de alerta so muitos:
  1) Voc se refere a coisas como "fabulosas" ou "geniais" e tem usado a palavra fashion nas ltimas 24
  horas.
  2) Sua melhor amiga  uma garota pesadona interessada em teatro.
  3) O toque de seu celular  uma msica de Gwen Stefani.
  4) Quando o clima fica quente, voc prefere ficar olhando os patinadores sem camisa do que as
  banhistas de topless no Sheep Meadow.
  5) Voc escreve a uma autoridade sbia porque quer que ela lhe conte a novidade que voc j sabe, mas
  no consegue admitir: voc  gay. Tudo bem, sem problema!
  Ame a vida. Ame os meninos. Ame a si mesmo.
  -GG


P: Cara GG,
  Prezada GG,
  Isso no  bem uma carta, mas um anncio: estou planejando uma baita festa na minha casa de veraneio
  para comemorar o aniversrio de 18 anos de minha irm mais nova. Ento, se estiver em Connecticut ou
  saindo numa viagem de carro, faa uma visita a seus velhos amigos que passam o vero nesta tima
  casa. Se eu for um deles, voc est na lista de convidados.
  - Festa na Piscina em Connecticut




R: Cara FPeC,
   Connecticut fica meio fora de meu raio habitual de festas, mas acho que ir para l j  metade da
   diverso - afinal, viajar de carro  uma tima tradio americana. O vento no cabelo, o sol quente no
   asfalto, a liberdade de ir para o lado que se quiser - sentimentos mais memoravelmente capturados por
   Jack Kerouac em On the Road. Mas sinceramente, s o que me lembro do livro  de um monte de drogas
   e um monte de casualidades. E ainda falam em se guir a estrada dos tijolos amarelos! Mas se sua "festa"
   for to grande quanto promete, estou doida para ver sua Cidade das Esmeraldas. Ser que  to
   obscena como penso que seja? Ops. De qualquer forma, considere a festa anunciada!
   -GG


P: Cara GG,
   Estou totalmente infeliz, porque meus pais disseram que tenho que arrumar um emprego neste vero.
   Mas eu estava pensando nisso e percebi que trabalhar no precisa ser um porre -      voc mesma   tem o
   emprego mais legal do mundo! Ento eu me perguntei, est precisando de estagirias?
   - Por Favor Me Contrate!




R: Cara PFMC,
   Obrigada pelos elogios e, pode acreditar, voc no est errada - este    mesmo o emprego mais legal do
   mundo. Mas a verdade  que eu realmente no penso nele como emprego, mas um servio de utilidade
   pblica. Meio como ser uma super-herona: Bat Girl, Super Girl, Gossip Girl... Voc entendeu direitinho.
   Infelizmente, porm, s existe espao para uma Gossip Girl neste iBook. Boa sorte na procura de um
   estgio em outro lugar! Soube que a Vogue est contratando faxineiras ... Brincadeirinha.
   -GG


   contas, contas, contas

 O ltimo e-mail me fez pensar que, para uns poucos infelizes de vocs, a expresso "emprego de
 vero" no  s um fenmeno visto nos filmes, mas uma realidade cotidiana. Sinto muito por vocs, 
 srio. Mas no  assim   totalmente ruim. Aqui esto alguns pontos positivos a se ter em mente quando
 estiver batendo o relgio de ponto:

 1) A melhor maneira de conhecer gente  no trabalho, quer seja um colega bonitinho ou um cliente
   bonitinho. (Algum ai se lembra de como O topou com aquela garota da ioga? Vou te contar, no foi
   entrando numa aula do Bikram ... )


 2) Que melhor maneira de aprender o valor de um dia de trabalho rduo e sentir a satisfao de ganhar
   seu prprio dinheiro? R! Ainda contam essas mentiras por a?

 3) Soube que o trabalho queima uma tonelada de calorias!

   Ento, PFMC, levante a cabea e faa sua propaganda! Por enquanto  s, meus amores. Esta
    abelhinha operria precisa refazer a maquiagem, recarregar a bateria do laptop e preparar as malas
    para uma viagenzinha de carro ...

                 Pra voc que me ama,

                 gossip girl


d, entediado e com calor de novo
- Davey, Humphrey, Bogart, sei l o seu nome, acelere.
    Todos os gerentes da Strand ladravam do mesmo jeito autoritrio e nunca deixaram de fazer
com que Dan endireitasse um pouco o corpo. Ele olhou os dois lados, mas no sabia de onde tinha
vindo o comando.
    - Est esperando por um convite gravado, madame? Phil, um careca que se candidatou a
doutorado mas tomou bomba e adorava fazer do turno da tarde um inferno, enfiou a cabea pela
estante velha de metal enferrujado.
    - Babaca - murmurou Dan ao empurrar o barulhento carrinho de livros a serem arrumados.
    Mas ele no est muito sensvel?
    As rodas de borracha rachadas guinchavam e estalavam enquanto Dan empurrava o carrinho
frgil pelo corredor comprido e estreito, passando pelos guias de viagem ultrapassados. Ele respirou
fundo, mergulhando no ritmo familiar de pegar um livro, ver o sobrenome do autor e localizar seu
lugar na estante. Era uma maneira segura de deixar o subconsciente falar por ele:
   Beijos peludos - ardem em meu queixo O
   sabor enjoado de absinto na garganta
   Fundo em minha goela; lbios feridos e
    Murros nas tripas
    Cantos cegos virados e agora estou em lugar nenhum ...

     Sua livre associao potica foi interrompida quando um livro enorme escorregou do carrinho.
Ele se curvou para pega-lo, lendo o ttulo: Tudo o que voc sempre quis saber (vamos) admita!) sobre sexo
gay, de Melvin Lloyd e o Dr. Stephen Furman.
     O desenho a bico de pena na capa mostrava duas formas masculinas se abraando castamente.
Como irmos. Ou jogadores de beisebol depois de uma partida. Totalmente normal. Olhando em
volta para ver se havia algum por perto como sempre, ningum estava interessado nos guias de
viagem  Nova Zelndia publicados na dcada de 1970 - Dan abriu o livro, assoviando, todo
despreocupado.
    Valeu a tentativa.
     As pginas lisas escorregaram por seus dedos, revelando mais desenhos a bico de pena de dois
camaradas musculosos em abraos variados, os braos e lnguas posicionados aqui e ali. Havia
vrios itens e listas de o que fazer e o que no fazer. Ele passou os olhos no livro, o corao
martelando, pegando s pedaos de frases como "Insira sua lngua" e alguns parceiros acham til o
uso de um cotovelo" e "Lembre-se de escovar os dentes".
    Parando novamente para se certificar de que estava sozinho, Dan pulou para o final do livro,
onde um papel mais pesado s podia significar uma coisa: fotos. E ali estavam elas,
em toda sua glria multicor: dois homens, realizando o que  primeira vista parecia uma rotina de
ginstica.
    A garganta de Dan de repente ficou muito seca. Ele fechou o livro num baque e o enfiou no
fundo da pilha. Nunca precisou to desesperadamente de um cigarro como agora.

   Respir, respire.
    Tremendo um pouco, Dan inalou fundo um amado Camel e saiu da Strand. Precisava dar uma
caminhada para tirar de sua cabea as imagens daqueles dois sujeitos de pescoo grosso e cara de
lutadores em poses inimaginveis. No que ele tivesse algum tipo de problema com os gays,  claro.
Eles esto aqui, so bichas,  incrvel. Mas havia algumas coisas que as pessoas no deviam fazer com o
corpo. Como correr. E ioga. E ... Seja l que nome tiver o troo que tinha visto descrito no livro.
    Ioga. Ele teve uma passagem rpida por esse negcio foi o mais perto que chegou de contorcer
o corpo numa forma parecida com a dos caras no livro, e ele no estava ansioso para voltar a esta
posio especfica to cedo. Antes de mais nada, o nico motivo para ele ter se incomodado com a
ioga foi por uma garota. Ele ficou to louco por Bree que experimentou todo tipo de birutice: ioga,
corrida, suco de fruta orgnico. Quem sabe a mesma coisa estava acontecendo com Greg? Ele
nunca conheceu ningum que adorasse livros como ele. Quem sabe ele s estava confundindo tudo?
Talvez fosse s como o pai dissera e ele s estivesse transferindo sua paixo pelos livros para a
amizade dos dois.
     - tal pai quase gay, tal filho quase gay.
    Evitando o trfego de turistas de vero na calada, Dan apagou o cigarro e enfiou as mos nos
bolsos da cala de veludo cotel marrom e puda. Uoc no pode ser gay. A imagem de Bree nua e
cintilando de suor naquele estdio de ioga superquente lhe veio  mente, e de sbito ele se sentiu
sem flego. Meio tonto. Que sensao era essa? Parecia familiar e estranha ao mesmo tempo. E ele
tambm sentia outra coisa - uma ereo. Em plena luz do dia, como um garotinho. Olhando para
baixo, ele no pde deixar de sorrir. Era a melhor ereo que ele j vira! Foi pensar em Bree, em
sua pele nua e molhada de suor enquanto ela arqueava as costas e plantava as palmas das mos no
cho, e seu corao disparou.
    Ele acendeu outro cigarro para comemorar o fato de que tinha evidncias biolgicas para provar
que ele, Dan Humphrey, com a mxima certeza, no era gay. Teve que reprimir a vontade de pular
no ar e bater os calcanhares.
     Ah, mas isso no  nada gay mesmo.
o fantasma da escola
- Garotas! Tem garotas aqui! - gritou um cara que Serena no reconheceu. Ele desceu a escada de
pedra, vindo do hall para a entrada de carros, segurando uma das fltes de cristal antigo da me.
Ergueu a taa numa saudao enquanto ela saa do Aston Martin, derramando espumante em toda a
escada.
    - Cara, essa  minha irm. - Erik van der Woodsen empurrou do caminho o sujeito que
cambaleava e correu para Serena. Vestia uma camisa azul amarrotada, os trs botes de cima
abertos, e uma cala cqui que tinha comeado a puir na bainha. O cabelo louro claro estava com
gel e os enormes olhos azuis eram injetados, mas ele estava mais lindo do que nunca. -Ea, mana?
    - Pelo visto a festa j comeou. - Serena abraou o irmo, toda animada. - Caso tenha se
esquecido, meu aniversrio  s amanh.
    - S se faz 18 anos uma vez. - Ele atirou os braos nela e a ergueu com facilidade. - Feliz quase
aniversrio.
    - Isso  para mim? - perguntou Serena, um sorriso se espalhando pela cara. T legal, ento no
era exatamente a idia que Serena tinha de festa de aniversrio, mas era uma gracinha que o irmo
tivesse se lembrado. Mesmo que provavelmente tenha sido uma desculpa para uma festa doida.
    Provavelmente?
    Atrs dela, Blair e Nate se arrastavam do banco traseiro.
Serena tinha se oferecido para dirigir porque sabia melhor como chegar ali e Blair no sabia dirigir
carro de cmbio manual, mas eles precisavam mesmo ter vindo juntos no banco de trs de novo? E
ela era o qu, a motorista?
    Parece que sim.
    - E a, galera? - Erik os cumprimentou.
    - Oi. - Nate assentiu para Erik. - Boa idia dar uma festa. Quase esqueci que amanh  seu
aniversrio - disse ele, virando-se para Serena.
    Blair passou a mo na melhor amiga.
    - Que tal um coquetel adequado  tarde, aniversariante? Existe algum que no seja adequado?


 A cena perto da piscina parecia ter sado de uma comdia de universitrios pirados. Um grupo de
 meninos de calo e obviamente bbados se atirava na gua, molhando os colegas sentados perto
 dali. Uma multido estava perto das portas francesas de altura dupla que levavam  biblioteca - e
 ao bar bem abastecido. E havia algumas poucas garotas  vista - duas esticadas em
 espreguiadeiras perto da prancha de mergulho e um trio de meninas risonhas experimentando
 algum tipo de jogo de bebida - e onde quer que elas congregassem, havia um grupo de meninos
 babes por perto. Algum tinha plugado um iPod no sistema de som dos van der Woodsen e a
 batida insistente do novo disco dos Arctic Monkeys enchia o ar.
     - Finalmente est comeando a parecer frias de vero.
    - Blair tirou os chinelos de couro branco Prada e os colocou na beira da mesa de jardim de ferro
batido. Ela girava o gelo no Bloody Mary distraidamente.
    - Parecido com isso. - Serena se recostou na cadeira desconfortvel e olhou a multido que se
reunira, supostamente, para comemorar seu aniversrio. A proporo de meninos para meninas era
de uns 10 milhes para uma e, embora ela reconhecesse alguns, os antigos colegas de tnis de
Erik, o colega de quarto na Brown, no viu muitos rostos familiares na turba. Podia ser a
aniversariante, mas ela se perguntava se algum ali sabia quem ela era.
    A festa era dela e, se quisesse, ela ia fazer birra.
    - Merda. - Blair tombou a cabea para trs e secou o copo. - Acho que estava com sede. Quer
outro?
    Serena sacudiu a cabea, quase derramando o Cosmopolitan intocado.
    - Eu t legal.
    - J volto.
    Por trs dos culos Selima de aviador, Serena viu Blair sair da cadeira e andar para o bar. Erik
presidia as garrafas de bebida enfileiradas como soldadinhos de chumbo no balco de mogno de
entalhe elaborado. Nate andava pela beira da multido, as mos no fundo dos bolsos da bermuda
cqui surrada. Serena viu quando ele fingiu no ver Blair pulando pela multido na direo dele.
    Que interessante.
    Ela acordou esta manh com o som dos risos de Blair, mas, quando perguntou qual era a graa,
Blair suspirou e disse, "S o Natie". Natie? Depois, no carro, ela ficava olhando para eles pelo
retrovisor, mas sempre Blair s estava encarando placidamente pela janela e Nate descansava os
olhos. Nada demais. Ento por que ela se sentia to ... estranha?
    Ela ergueu o copo e tomou um golinho do coquetel cido, enfim reconhecendo algum na
multido: um cara de peito largo e cabelo castanho crespo que estava sentado na beira da piscina, as
pernas penduradas na gua. Os olhos castanhos tinham um brilho familiar enquanto ele olhava a
cena em volta, tamborilando os dedos longos e finos no gargalo da garrafa de cerveja. A mais leve
sugesto de sorriso brincava em seus lbios grossos e Serena sabia que por trs daqueles lbios ha-
via duas filas brilhantes de dentes brancos. Ela podia imaginar seu sorriso, podia praticamente ouvir
o som trmulo de sua voz enquanto ele sussurrava as palavras de que ela havia fugido. Aquela foi a
ltima vez em que ela o vira, exatamente h um ano.
  Henry era baixista da banda de jazz da Hanover. Era alto e bonito, com cachos escuros que caam
 pelos olhos e um sorriso malicioso. O quarto de alojamento de Serena ficava bem abaixo do dele e,
 tarde da noite, ela atirava os livros no teto, querendo que ele respondesse batendo alguma coisa
 pesada no cho. s vezes - na verdade, muitas vezes -, eles ficavam juntos no terrao, tomavam
 usque e fumavam cigarros. Eram bons amigos, e depois o ano terminou e eles foram para
 Ridgefield juntos - a famlia dele morava aqui o ano todo e era aqui que ela passava vero. Na noite
 antes de seu aniversrio de 17 anos, ela e Henry ficaram acordados at tarde, bebendo e
conversando, e se deitaram de costas na quadra de tnis, esperando por estrelas cadentes e por fim
se beijando. Depois, Henry disse: "Eu amo voc." Em vez de dizer a mesma coisa, Serena fugiu
para a casa, reservou uma passagem de avio para Paris a fim de se juntar ao irmo Erik em suas
viagens e nunca mais voltou a falar com Henry. No que ela no gostasse dele. Sinceramente, ela
gostava. Mas o amor era inconfundvel e, naquela poca, s havia um cara que ela podia amar
verdadeiramente. Mas talvez agora tambm ...
    Serena virou o copo de novo e engoliu seu contedo, as mos tremendo. S me falta ter um
colapso nervoso na vspera de meu aniversrio de 18 anos, pensou ela.
    - Oi. Lembra de mim?
    Ela se assustou um pouco com a voz de Henry.
    - Eu estava me perguntando quando  que voc ia aparecer para dar um al. - Ela levou os
joelhos ao peito e sorriu para ele.
    - Eu podia dizer a mesma coisa. -As pernas da cadeira arranharam ruidosamente o concreto
quando ele a puxou para se sentar. - Voc est tima.
    - Obrigada. - Ela sorriu timidamente, tomando um gole da bebida. Atrapalhou-se nervosa com
os cigarros, que estavam na mesa, ao lado do cabo do guarda-sol enorme.
    Henry acendeu o Gauloise trmulo de Serena e se serviu do mao. Serena exalou uma longa
nuvem de fumaa, que danou na brisa.
    - O que aconteceu com voc, alis? - Henry sorria pensativamente, examinando o rosto de
Serena. - Quer dizer ... Voc simplesmente sumiu.
   Serena desviou os olhos.
    - Eu te mandei alguns e-mails - continuou Henry. Nunca mais soube de voc ... E quando tentei
novamente, sua matrcula na escola tinha sido trancada.
    - Acho que eu precisava ficar sozinha por um tempo para organizar as coisas. E depois voltei
para Nova York. - Ela tirou uma mecha de cabelo de trs da orelha e brincou distrada com ela,
dando um sorriso triste. -  uma longa histria. - Uma histria que nem ela compreendia e que ela
no contou a ningum.
   Ser verdade?
    Serena olhou por sobre o ombro de Henry para a multido de convidados: alguns seminus
tomando banho de sol, outros danando totalmente fora do ritmo da msica. E l estava Blair,
tomando outro Bloody Mary e sorrindo timidamente para Nate, que se agarrava a uma cerveja,
sorrindo feito um idiota. Serena olhou novamente para Henry. Era como uma dobra do tempo: Blair
e Nate completamente esquecidos dela e Henry encarando-a com devoo do outro lado da mesa,
como se nada tivesse mudado.
    - Sabia que  minha festa de aniversrio? - disse ela por fim.
    - Acha que no sei disso? - Henry estendeu o brao e pegou a mo dela com os dedos meio
calejados de msico.Foi por isso que eu vim.  nosso aniversrio -. - Serena engoliu em seco.
    Feliz aniversrio!
    nos bastidores

    - Agora estamos dentro do avirio. - Vanessa praticamente gritava para ser ouvida em meio aos
gorjeios e gritos das aves de cores vivas que rodavam freneticamente pelo espao envidraado.
Vanessa estabilizou a cmera e virou para ter uma panormica completa do ambiente enorme e
cheio de plantas. Aves de todas as cores, do amarelo gema ao azul Tiffany e vermelho Bloody
Mary, tremulavam com as asas aparadas, pulando de galho em galho numa tentativa pattica do vo
que nunca mais fariam de novo. - Me disseram que  aqui que Bailey Winter faz a maioria dos
esboos preliminares - continuou Vanessa. - Na realidade, os que conhecem bem seu trabalho
podem reconhecer as cores da mais recente coleo de alta costura. - Ela apontou a cmera para um
passarinho que piava nos galhos de uma bananeira num vaso.
    A imagem parecia to viva - as aves coloridas girando e flutuando por todo lado no avirio de
teto alto, o sol se derramando em grandes fachos de luz. A composio era impecvel, simtrica e,
no entanto, dinmica. Ela comeou a planejar mentalmente toda uma srie de documentrios sobre
o processo de criao de diferentes artistas. Talvez fizesse um sobre Dan e realmente capturasse a
vida do escritor. E um de Ken Mogul, para explorar como era ser um cineasta famoso em todo o
mundo.
    E um esquisito.
    A mesa de cana-da-ndia com tampo de vidro estava cheia de folhas de papel rabiscado, lpis e
taas de martni pela metade. Vanessa foi at a estao de trabalho e focalizou a lente em alguns
esboos inacabados.
    - Daqui a alguns meses estes desenhos a lpis tero sido transformados em chiffon e seda. -
Vanessa tentava ao mximo se lembrar dos nomes dos tecidos que ouvira Blair mencionar durante
sua curta vida de colegas de apartamento. - Pense s6 nisso: agora mesmo estas idias so apenas
rabiscos, mas logo podero estar andando pelo tapete vermelho da noite do Oscar.
    Vanessa ajustou o foco para capturar com mais clareza os desenhos de trao fraco.
    - E agora vemos, ainda mais claramente, como funciona o processo de criao do estilista
Bailey Winter. Comea com alguma coisa simples, como a cor de uma plumagem. Depois de
alguns esboos a lpis e alguns martnis ... - Ela parou, porque na verdade no fazia idia de como
descrever vestidos ou moda, ou se chiffon era realmente o nome de um tecido. Ser que era uma
sobremesa? -A nica coisa que no posso lhes mostrar  o que existe dentro da mente do estilista.
Este  o verdadeiro processo de criao. - Ou o verdadeiro processo de embriaguez. Ela apontou a
cmera para a tropa de taas pela metade.
    - Ai. Meu. Deus.
    Vanessa girou o corpo, instintivamente escondendo a cmera nas costas.
     pa.
    - Mas o que voc est fazendo aqui? - Bailey bateu a porta de vidro para evitar que alguns de
seus preciosos pssaros escapassem para o jardim. - Vanessa, Vanessa - cacarejou ele, parecendo
exatamente uma galinha. - O avirio  estritamente proibido.  aqui que venho pensar e me inspi-
rar! Voc vai perturbar o equilbrio da energia criativa simplesmente com sua presena aqui!
      claro! O equilbrio de energia!
     - Por favor, querida, recue um pouco. Os desenhos, no.
 Ningum pode v-los antes de eu terminar os esboos preliminares.
    - Desculpe. - Vanessa recuou claudicante, tentando parecer arrependida. Um periquito pintado
de azul-claro passou grasnando violentamente por seu ouvido. - Acho que s estava tentando me
sentir  vontade. Sabe como , como voc sugeriu.
    - Bom, uma coisa  ser uma boa h6spede, outra  a mera intruso. - Bailey fez uma carranca,
abraando os papis no peito e protegendo-os da vista de Vanessa. - Pode ir ao lugar que quiser na
propriedade, menos este avirio.  meu espao sagrado, meu bem. Eu fico espiritualmente nu
quando passo por estas portas.
     Bom, desde que ele literalmente fique com as roupas ...
     - Terei mais cuidado no futuro -prometeu-lhe Vanessa, afastando-se lentamente, ainda
mantendo a cmera escondida nas costas.
    - Sim, sim, sei que ter - respondeu Bailey, voltando a colocar os papis na mesa, mas
abrigando-os com os braos gorduchos e esticados. - Est tudo perdoado.
    - T legal, ento eu vou andando. - Vanessa se virou rapidamente e comeou a sair do avirio.
    - Aaaaaaaiiii! - O grito de Bailey provocou um frenesi nas aves. De repente, centenas de
estorninhos assustados dispararam para a segurana, voando para o teto ao mximo que permitiam
as asas aparadas.
     - Sim? - perguntou Vanessa, ainda tentando esconder a cmera nas mos.
     - I-i-isso  ... uma cmera? Mas que observao brilhante.
    - Bailey, eu posso explicar. - Vanessa sentiu o rosto ficar vermelho. -  que eu esperava, quer
dizer, eu s estava interessada, eu precisava, sabe como , eu queria documentar o processo de
criao, como as idias por trs, e o que faz parte, quer dizer, toda a histria de ...
     Bailey saltou da cadeira e ficou de p, tremendo, encarando Vanessa.
     - Diga. Eu preciso saber ... Voc? No. Quer dizer, voc no filmou aqui, no ? - Humm,no?
Boa defesa.
    - Estes desenhos so altamente confidenciais! Ah, minha nossa. Meu Deus. Sabe o que
aconteceria se eles vazassem? Sabe quanto as pessoas pagariam para ... Bom, no sei quanto, mas
elas pagariam muito para dar uma olhada, para ter s uma pista do que planejo para as prximas
temporadas.
Eu simplesmente no posso me arriscar com a concorrncia. - Ele parecia estar a ponto de desmaiar.
- Ah, meu ...
    - Bailey, eu prometo, eu no ia vender seus segredos nem nada disso. Sou s uma cineasta, sabe
como , e pensei que seria um timo tema para um documentrio. - Vanessa sorriu para ele, cheia
de esperana. Uma arara cor de lima pousou no ombro dele e Bailey a enxotou. - Talvez eu deva ir
embora ... - sugeriu Vanessa, preocupada de repente que Bailey exigisse que ela entregasse todo o
filme que fizera nos ltimos dias.
    - Sim, v para o seu quarto. - Bailey parecia estar  beira das lgrimas. - Preciso de um
momento para organizar os pensamentos. Vamos discutir o que fazer sobre seu comportamento no
jantar.
    - Tudo bem. - Vanessa franziu a testa. Ser que ele realmente a estava mandando para o quarto?
Isso no aconteceu com ela ... Bom, nunca. Ningum na vida mandou Vanessa Abrams para o
quarto! Ela ia para o quarto, ia sim; ia para o quarto fazer as malas. Com ou sem documentrio, j
estava cheia dos Hamptons e dos absurdos de Bailey, tinha o suficiente para a vida toda. Quanto ao
jantar, bom, se tudo corresse bem, a essa altura ela estaria segura em um trem a caminho de Nova
York e do nico lugar em que se sentia em casa: o apartamento de Dan Humphrey.
    O lar  onde est seu corao!



aquelas trs palavrinhas
- Mais uma dose?
    Blair sacudiu a cabea e apontou as orelhas para indicar que no conseguia ouvir bem Nate com
o rugido da festa, que se tornara consideravelmente mais animada  medida que o dia terminava. O
sol da tarde ainda estava alto, mas os convidados estavam quentes, famintos e bbados. Erik
preparara prestativamente o enorme grill a gs e despachou os convidados ainda meio sbrios para
o mercadinho. Aquele cheiro distintamente de vero do churrasco vagava pelo ar, deixando a
cabea de Blair tonta.
    Ou talvez fossem os quatro Bloody Marys. Nate se inclinou e sussurrou em seu ouvido.
    - Perguntei se queria outra dose. Quer alguma coisa? Seu hlito quente pinicou o pescoo de
Blair e ela fechou os olhos para manter a sala estvel.
    - Vou ficar s com um copo d'gua.
    - Tranqilo. - Nate a pegou pelo brao, levou-a para a biblioteca e a sentou no sof de camura
marrom antes de ir  cozinha pegar a bebida.
    Blair bocejou. As longas viagens de carro sempre a deixavam sonolenta, e a noite anterior no
foi exatamente repousante, mesmo que eles basicamente tenham dormido por 24 horas. Como Blair
poderia dormir com Nate respirando bem ao lado dela a noite toda? Sempre que queria se virar ou
arrumar os travesseiros, ela no conseguia, no se para isso tivesse que soltar a mo de Nate. Ela
fechou os olhos, pensando nisso.
    - Ei, bela adormecida. - Blair sentiu um par de lbios macios roando a testa. Ela sorriu,
mantendo os olhos bem fechados. Parecia ter passado uma eternidade desde que sentira esses lbios
no rosto. Mas quando finalmente abriu as plpebras pesadas, Blair ofegou. Os lbios no
pertenciam a Nate, mas a Erik van der Woodsen. Sua face sorridente assomava acima dela. Um
prncipe lindo, mas no o prncipe certo.
    Prncipes demais, tempo de menos ...
    - ai, Erik. - Blair pegou uma almofada prxima e a abraou no peito. Ele era igualzinho a
Serena, s que era homem. Do cabelo louro ao andar despreocupado de "tudo est bem no mundo"
e  ruguinha engraada que se formava no canto do olho quase azul-marinho quando ele sorria.
Parecia que o lance deles fora h um milho de anos.
    Falou a voz da experincia.
    - Que correria. - Erik se jogou ao lado dela, passando o brao comprido no encosto do sof. Ele
suspirou fundo. Essa festa est to descontrolada que nem tive a chance de falar com ningum.
 - Sinal de que  uma boa festa - observou Blair sonolenta. Ela olhou a porta aberta, procurando
 por Nate, mas ele fora engolido por todos os convidados que esperavam para pegar mais bebida
 no bar.
     - Cara, quer dizer, nem vejo voc desde, sei l, foi naquela vez em Sun Valley? - Blair
 percebeu que as palavras dele estavam comeando a se embaralhar. Ele estava ainda mais
 arrasado do que ela.
     - Acho que sim - respondeu Blair distrada, embora eles tenham se visto de passagem na
 formatura dela e de Serena na Constance Billard s h algumas semanas. No parecia valer a pena
 lembrar disso agora. - Na verdade, ela s conseguia pensar em sair dessa conversa, e no
 prolong-la.
     Minha nossa, como os tempos mudaram.
     - Voc est to bonita. - Ele afagou o cabelo de Blair com a mo bronzeada e sorriu para ela
 de porre e meio sugestivamente.
    - Aqui est a sua gua. - Nate apareceu aparentemente do nada, estendendo uma garrafa de
Pellegrino gelada.
   Blair se sentou um pouco mais reta. Seu cavalheiro na armadura reluzente. Ou cala cqui
desbotada.
   - E a, Nate? - balbuciou Erik, inclinando-se para Blair. - Est se divertindo?
    - , muito - concordou Nate. - Mas acho que est todo mundo com fome. Aqueles caras
voltaram do mercado, mas no conseguem descobrir como acender o grill.
   - Eu sou o mestre do grill, cara. - Erik se levantou e bocejou, esticando os braos. - Blair, a
gente se v depois? - Ele deu um tapinha no ombro de Nate e desapareceu porta afora, entrando na
multido.
    - o brigada por isso. - Blair bebeu ansiosamente a gua gelada.
    Nate sorriu.
    - Ele t um trapo. Parecia que voc precisava ser salva. Voc sempre vai aparecer para me salvar?
Ela quase disse isso em voz alta quando pensou. Era uma frase de Breakfast at Fred's. Ela repassou o
texto com Serena tantas vezes que decorou o roteiro todo. No filme que era a vida dela, Nate era o
lindo protagonista que sempre surgiria do nada para resgat-la.
    Ele se acomodou no sof - ainda quente do corpo pesado de Erik - e pegou o isqueiro no bolso,
que ele acendeu preguiosamente. Ele estreitou os olhos verdes de pontinhos dourados,
concentrado; um gesto que Blair sabia que significava que ou ele estava imerso em pensamentos, ou
chapado de marijuana. Por fim, ele olhou para ela, encontrando seu olhar. Blair ficou surpresa ao
sentir a respirao presa em sua garganta.
    - Acha que de repente a gente pode subir ... E ... - ele parou.
    - Subir? - Ela tomou um gole de gua. Estivera com Nate um milho de vezes, conversara com
ele um milho de vezes, beijara Nate um milho de vezes. No havia nada de novo nisso, e no
entanto alguma coisa parecia completamente diferente.
    -  - murmurou ele, riscando nervoso o isqueiro. Pensei que de repente a gente podia subir e ...
conversar?
- Conversar - repetiu ela. A msica mudou de alguma coisa da banda Clap Your Hands Say Yeah
para "Hey Ya". Embora a msica fosse totalmente antiga, a casa comeou a tremer com toda aquela
gente danando do lado de fora e na sala dos van der Woodsen.
    - Eu s ... - comeou ele, acendendo o isqueiro de novo.
    -Eu ...
    Blair de repente se levantou e pegou a mo de Nate, puxando-o do sof. Ela realmente queria
ouvir o que quer que ele estivesse tentando dizer, e ela queria ser capaz de ouvi-Io. Ela puxou Nate
da biblioteca e pela sala abarrotada, segurando sua mo para no perd-Io no meio da turba. Blair
passou por Serena no p da escada sem dizer nada. De todas as pessoas do mundo, ela
compreenderia. Blair estava a meio caminho na escada ampla de mogno encerado quando sentiu
Nate parar atrs dela.
    - Que foi? - perguntou ela, virando-se.
    - Eu ... Eu ... Tenho que dizer uma coisa - gaguejou Nate.
    - L em cima - insistiu ela, puxando o brao de Nate.
Ele no cedeu, ento ela se virou de novo, olhando para ele do degrau mais alto. Eles estavam quase
da mesma altura. -  s que ... - gaguejou Nate. Depois ele levantou a cabea e encontrou o olhar
dela. - Eu amo voc - sussurrou ele por fim.
   At que enfim.



espere at a meia-noite
- Eu amo voc.
    A voz era inconfundivelmente a de N ate e as palavras eram claras como o dia para ela, mesmo
com a gritaria da garota caipira e hippie que girava agitando os braos com "Hey Ya" ao bater as
trancinhas compridas com cheiro de leo essencial na cara de Serena.
    Ele amava Blair.
    Serena nunca adivinharia que Nate Archibald estivesse em contato to ntimo com suas
emoes, mas ela sabia que era verdade - ele amava Blair. Ela vira os olhares expressivos que Nate
e Blair trocaram desde a sada ousada da casa de Bailey Winter. E no dia anterior, o modo como
Blair tinha se espremido entre eles quando os trs foram para a cama tinha sido to bvio. Serena
sentiu o estmago afundar, como quando a estrada cai debaixo do carro mais rpido do que voc
esperava: era o aniversrio dela - quer dizer, quase - e era a festa dela - quer dizer, tecnicamente. Era
ela quem merecia um pouco de amor e carinho, no era?
    Ela hesitou. Empoleirada entre a parede com papel delicado e um relgio do vov enorme, Serena
tinha a cobertura perfeita para observar um pouco.
    Espionar?
    Ela olhou de trs do relgio e viu Nate e Blair na escada, fitando-se nos olhos de forma intensa e
silenciosa. Depois Blair entrelaou os dedos nos de N ate e os dois desapareceram escada acima,
entrando  esquerda no patamar. Estavam indo para a sute master dos pais de Serena. Serena fechou os
olhos, abrindo caminho pela multido at o bar. Sempre haveria usque, Henry e cigarros. No
necessariamente nesta ordem.


    - Aqui est voc. - Serena cambaleava um pouco mas manteve o aperto firme no copo de cristal que
enchera, de novo, com o usque Oban da garrafa do pai que ela escondeu do resto dos convidados. Era o
aniversrio dela e a casa dela, por que no poupar as coisas boas para si mesma?
    - Serena. -A voz familiar de Henry cortou a noite. Parecia um abrao s saber que ele estava perto.
Ele era to lindo e talvez ainda a amasse ...
    E talvez ela s estivesse um pouco bbada?
    Algum conseguira acender uma fogueira no jardim dos fundos dos van der Woodsen, e Henry e trs
caras que Serena no reconheceu estavam em volta, aquecendo-se na noite surpreendentemente fria de
vero. A no ser pelas chamas bruxuleantes e as estrelas no alto, a noite estava escura. Era um tipo de
escurido reconfortante e familiar. Serena passou muitas noites de vero aqui, como a noite em que
fugiu de Henry.
    Andei procurando por voc. - Serena se acomodou ao seu lado, em um dos bancos de pedra baixos
que cercavam a fogueira. Ela usava calas Seven cortadas e velhas e ele ainda estava com o calo de
banho. Os joelhos nus dos dois quase se tocaram.
     - Bom, voc me achou. - Ele usou a minscula ponta do cigarro que estava fumando para acender
 outro.
    -  sua festa de aniversrio, n? - perguntou um dos outros caras, que Serena reconheceu como
um dos colegas do ano de calouro do irmo na Brown, embora no conseguisse lembrar do nome.
    - Meu aniversrio  amanh. - Serena olhou o relgio Chanel fino. -Em aproximadamente 97
minutos, na verdade. E  tambm o Dia da Bastilha.
     - Vive Ia France. - Henry ergueu a garrafa de tequila Corzo e bateu no copo dela.
    - Vive Ia France. - Serena recuou o copo, secando o usque num gole s. - Senti sua falta -
acrescentou ela, embora fosse quase uma inverdade. Assim que voltasse a Nova York, ia se esquecer
completamente de Henry.
    - Senti sua falta tambm. - Henry abriu a garrafa e serviu o copo dela e o dele, depois passou a
garrafa para a esquerda. - Vamos ter nossa prpria festinha pr-aniversrio.
    Serena olhou as estrelas cintilantes no alto. Tudo em volta dela a levava de volta a um ano antes e
depois a dois anos antes, quando tudo foi to diferente mas tambm exatamente igual. Ela virou a
cabea, encontrando o olhar de Henry. Queria que ele a distrasse de novo. Precisava que ele a distrasse
para ela poder tentar esquecer o que devia estar acontecendo neste exato momento na cama dos pais.
    - E o que acontece  meia-noite? - perguntou ela, cheirando a tequila, insegura.
   -  meia-noite? - Henry bateu o copo no dela e atirou a bebida na garganta. -  quando voc
ganha seu presente.
   Se ela conseguir ficar acordada at l.



 love is in the air
- Est tudo bem a, rapazes? - Rufus Humphrey meteu a cabea de cabelo doido na sala. - Querem
que eu traga mais alguma coisa? Tenho uma pasta de amndoa e lentilha no liquidificador.
   - No, Sr. Humphrey, j est sendo gentil demais! Greg sorriu graciosamente e se virou para
Dan. - Seu pai  uma pea.
   Dan respirou fundo e usou o controle remoto para aumentar o volume da televiso velha dos
Humphrey, sintonizada em um documentrio sobre os Beats. Embora no se lembrasse disso, ao
que parecia ele estendera um convite de bbado para Greg ver TV com ele.
    Quem sabe o que mais ele props naquele porre?
   - Humm. - Dan colocou pipoca na boca, pensativo e ansioso para ter o que fazer com as mos. -
Obrigado por trazer isso.
    - Tudo bem. - Greg estendeu o brao para a tigela de plstico, os dedos roando a mo de Dan
ao pegar um punha do. - Voc falou que seu pai no  muito de cozinhar, ento pensei que devia
estar preparado.
    Eu falei isso?
    - , bom, foi uma boa idia. - Dan riu nervoso, percebendo agora que o pai tinha exposto o
monstruoso vaso de pnis numa estante repleta de livros. A tinta da sala esfarelenta parecia
particularmente manchada de umidade.
    - In vino veritas. - Greg riu.
    Dan reconheceu a expresso em latim que sugeria que  mais provvel que as pessoas digam o
que realmente sentem quando esto bbadas. No vinho est a verdade. Seu pai dizia isso o tempo todo
antes de virar uma garrafa inteira de Merlot.
    - Cara, olha s o Kerouac. Ele  to ... eletrizante - observou Greg.
    Dan examinou os escritores famosos na tela bruxuleante.
    Ele era eletrizante, no era? Ele era quase ... bonito. Seria totalmente gay pensar assim? Dan
sentiu o estmago oscilar. Havia alguma coisa de desagradavelmente familiar nesta cena: sentado
no sof, o calor e o peso de outro corpo ao lado do dele, um documentrio intelectual na tela. Do
que  que isso o lembrava?
    Do qu? Ou de quem?
    Dan podia ser totalmente sem noo, mas sabia o que viria a seguir: as luzes seriam reduzidas, a
televiso ficaria viva com histrias de escritores farristas e foras-da-Iei levianos, a noite era quente,
o sof era aconchegante: s havia uma maneira de isso terminar e era com uma sesso de amassos.
    Mais uma sesso de amassos, para ser mais especfica.
    - No consigo enxergar muito bem. E voc? - Dan estendeu a mo  esquerda e ligou o abajur
de cermica lascado da mesa, ajudando a quebrar um pouco o clima de romantismo na sala.
   - Agora d para ver voc melhor. - Greg sorriu maliciosamente para Dan.
   - T. - Dan tirou a tigela de plstico imensa do colo e a colocou no pequeno espao entre ele e
Greg. - Isso vai facilitar seu acesso - explicou ele.
     Dan deu tapinhas ansiosos nos bolsos. Estava morrendo de vontade de fumar ... Mas ousaria se
arriscar a isso? Dan tinha certeza absoluta de que no havia nada mais sexy do que fumar: a
pequena exploso de chama ao riscar o fsforo, o exalar langoroso de longas nuvens de fumaa.
Ele no queria mandar a mensagem errada a Greg.
    Ah, , todos ns adoramos bafo de cigarro. Ou no. Houve alguns minutos de silncio durante
os quais Dan tentou se concentrar na televiso, mas no conseguia parar de controlar cada
movimento de Greg com a viso perifrica. Greg ficava passando a mo no cabelo curto e macio,
e mordendo o lbio inferior meio rachado.
         - No gosta do filme? - Greg flagrou Dan olhando. Ele pegou o controle remoto e abaixou o
      volume o bastante para que a televiso no passasse de um rudo de fundo no ambiente. - No,
no, no  isso - gaguejou Dan. - Eu s estava ...
    Pensando no que devemos fazer na prxima reunio do salo. - Acho que podemos abordar os
Beats. - Greg levou o p para cima do sof e pousou o queixo nos joelhos. Tinha uma camada de
plos louros no rosto que pareciam macios.
- A gente pode at exibir esse documentrio ... Quer dizer, se voc quiser.
    Dan olhou o filme em preto-e-branco de alguns poetas sem camisa bebendo garrafas de
cerveja e fumando cigarros. Ele assentiu, infeliz. No tinha utilidade nenhuma lutar contra o
destino, no ? Agora ele era gay - para onde quer que se virasse, via sinais do universo lhe
dizendo para continuar. Ento por que no conseguia simplesmente passar o brao pelos
ombros de Greg e se aninhar em seu pescoo? No parecia errado, mas tambm no parecia l
muito certo.
    - Kerouac! Meu Deus, no fica cada vez melhor? - Ao que parecia, Rufus Humphrey tinha
entrado na sala sem ser visto. Estava de p atrs do sof, bafejando em cima da cabea dos
dois.
    Graas a Deus existem pais enxeridos.
    Rufus inclinou-se para sussurrar no ouvido de Dan.
    - Era uma poca diferente, posso dizer. No tnhamos respeito algum pelas regras nem por
definies rgidas de sociedade. Ns simplesmente ... existamos. Sabe o que quero dizer?
    - Parece incrvel- concordou Greg, inclinando-se para mais perto de Dan. Ele tinha cheiro
de pipoca e detergente de lavanderia. Um cheiro delicioso. De uma forma nada gay.
    - Pai! Senta aqui com a gente! - Dan se afastou, agarrando o brao do sof como se fosse
um salva-vidas. Ele pegou a tigela de pipoca e deu um tapinha no vazio que ficou no sof. -
Tem muito espao para mais um!
-  mesmo? - exclamou Rufus. Depois, num movimento surpreendentemente gracioso para um
homem to grande, ele pulou as costas do sof e pousou espremido ente os dois meninos. - No
me importaria de fazer isso!
    Dan soltou a respirao. Nunca na vida ficou to feliz por ver o pai.
    - , assista com a gente. E talvez depois voc possa nos contar todas as suas histrias sobre
os bons velhos tempos.
    Rufus olhou para o filho com desconfiana. Sua camiseta verde fluorescente estava
apertada na barriga e enfiada num short de ginstica azul-marinho de Dan.
   - Quer ouvir minhas histrias velhas?
   - Mas  claro que sim. - Dan assentiu, todo animado. - Tenho certeza de que Greg tambm
quer!
   - Claro. - Greg assentiu educadamente.
   - Sim, conte tudo. - Dan sorriu. As histrias do pai sempre eram interminveis e absurdas. E
no tinham nada de romnticas.



vamos transar
- Ento. - Blair soltou o ar sensualmente, a voz rouca e grave. Perdeu a conta de quantos coquetis
tinha tomado, mas agora se sentia totalmente sbria. Eu amo voc. Eu amo voc. Ele a amava. Ela se
recostou nos travesseiros Frette amarelo-claros na cama da tranqila sute mas ter dos van der
Woodsen. A msica que bombava no primeiro andar e os sons dos convidados bbados do lado de
fora eram silenciados pelo zumbido suave do ar-condicionado.
    - Ento. - Nate estava ao p da cama, sorrindo excitado para ela. Seu rosto estava corado e os
olhos verdes cintilavam. Ele passou o peso do corpo de um p para o outro, mais parecendo estar
esperando numa fila do banheiro do que esperando para cair em cima dela.
    Blair deu uns tapinhas no edredom macio de penas ao lado. - Vem pra c - disse ela com um
sorriso malicioso. Sim, mame.
    Nate tirou os sapatos de lona cinza-azulados aos chutes e pulou na cama. Ele quicou para ver se
o teto era alto o bastante para ele pular sem bater a cabea. Depois comeou a saltar como um
louco.



   _ Pra! Pra! - gritou Blair. Ela ficou de p e pegou as mos de Nate, e eles pularam juntos
como duas crianas dementes e gigantes.
    Depois Nate parou de pular, srio de repente.
   _ E a, hum, isso significa alguma coisa?
   Blair segurava as mos dele, balanando-as de um lado para outro.
    _ Se significa alguma coisa? - perguntou ela. - Que estamos juntos de novo?
    Nate deu de ombros.
    -.
     Blair corou mais uma vez, desta vez com mais intensidade.
    _ Bom,  melhor que seja assim, porque eu tambm amo voc. _ Nate sorriu e avanou um
passo aos pulos para que o queixo roasse na testa de Blair. Ela jogou a cabea para trs. Os olhos
verdes dele faiscaram. E depois ele a beijou.
     Eles no tinham muito mais a dizer mesmo.




                           ai, gente!
    o destino no  engraado? Voc acha que tem algum controle sobre as coisas, acha que toma conta
    da sua vida, mas na verdade, o que  isso - todos simplesmente estamos  merc do universo. Quer
    dizer, todos lemos nossos horscopos, no ? E todos ns sabemos que existem pessoas que so
    simplesmente ... conectadas. Nem sempre isso faz sentido, mas no vale a pena combater. Ento fico
    feliz em contar o flagra de um passarinho: B saindo da sute master dos van der Woodsen para pegar
    uma garrafa de gua, vestida na camisa plo verde-oliva de N (e nada mais).  s o destino, gente.
    Acostumem-se com isso.


    Os e-mails ps-festa comeam a chegar e parece que a festana foi to acidentada quanto uma noite de
    gala do Costume Institute. Tirando os vestidos - ou qualquer roupa, alis. Mas o assunto na boca de
    todos  a aniversariante e o rapaz que deveria ser o presente dela ... Ento, meus fiis leitores, tenho um
    teste para vocs:



  Voc esbarra numa antiga paixo. O que voc faz?

a) Adota um sotaque meio russo e cai de boca na vodca.
b) Fica com o quase lindinho mais prximo - no h nada como uma nova paixo para deix-Io com cime.
c) Lembra dos velhos tempos ... E depois mostra a ele todos os truques novos.
d) Liga para S e pede conselhos - ela j fez tudo, sabe de tudo!


 verdade: parece que no s N e B andaram se reencontrando, como S se reuniu com um velho amigo, H.
Ou mais do que amigo: ele foi visto carregando-a para o quarto dela pouco antes do amanhecer. Aiiii. Que
gracinha! Agora me contem a parte suja. Quem  ele e qual  a histria? Estou morrendo de vontade de ter as
respostas e eu sei que vocs tambm!


     seu e-mail


P: Cara GG,
     CaraGG,
     S uma resposta a seu AG: eu vi um conversvel enquanto estava correndo de manh. Estava
     estacionado numa entrada de carros de cascalho branco e parecia que tinha gente dormindo nele. Ai!
     - 5K


R: Cara 5K,
     - Meus parabns por obedecer a seu regime matinal e obrigada pela dica quente. Mas, como sempre,
     estou bem  frente no jogo. O trio errante foi localizado e estou completamente concentrada no que vai
     rolar. Vamos esperar que nossas belas adormecidas acordem antes de eles voltarem!
     -GG


um conselhozinho de amiga

Como moradores de Nova York, estamos acostumados a acordar em nossas prprias camas. Voc pode se
divertir em qualquer lugar, a noite toda, e um txi est esperando para levar voc de volta  cobertura ou a
sua casa. Mas no campo  diferente. Todo mundo simplesmente ...      dorme na casa dos outros. Eu sei, seu sei.
Parece meio nojento - acordar numa casa desconhecida, muito provavelmente com uma ficada desconhecida
babando no seu cangote. E sim, pode ser estranho ver todo mundo  luz implacvel do dia, sem o benefcio
dos culos escuros. Mas estou com um humor generoso (perai. quando  que no estou?) e tenho alguns
conselhos a dar ...

cinco observaes para a manh seguinte

1)   As casas de veraneio tm os melhores banheiros. Tome um bom banho quente e sinta-se  vontade para
levar um amigo. O chuveiro  grande para dois, e dividir  cuidar!
2) Sim, voc est um horror. Ento fique    vontade para pegar alguma coisa emprestada da anfitri. Mas se
pegar alguma calcinha, fique com ela. Ser nosso segredo.

3)   Dor de cabea? Tome o espumante que sobrou e coloque um pouco de Kahla na cafeteira espresso.
     Pode ser que a festa recomece.

4)   Sirva-se dos produtos de beleza da dona da casa. As mames sempre tm os melhores cremes para os
     olhos.

5) Ainda no se sente melhor? Pode haver algum Motrin de tarja preta sobrando no armrio do vov. Ei,
   ressaca di
    Muito bem, crianas, hora de eu aceitar meu prprio conselho e segui-Io com um mergulhinho na piscina.
Que piscina? Ah, voc no gostaria de saber?

                              Pra voc que me ama,

                              gossip girl



 depresso de aniversrio

- Parabns para mim. - Serena sussurrava, a voz rouca e spera. Ela deslizou para fora da
amarfanhada cama de dossel e bocejou miseravelmente. Tinha acordado a noite toda, incapaz de ter
um sono profundo com Henry aninhado ao lado dela. As palavras de N ate ficavam se repetindo em
sua cabea. eu amo voc, eu amo voc, eu amo voc.
    Colocando os ps nos chinelos de borracha rosa-choque, ela se arrastou para o banheiro. No
havia necessidade de ir na ponta dos ps - Henry roncava sonoramente e ela podia at fazer uma
rotina de aerbica na cama que no o acordaria.
    O corredor estava silencioso e o sol claro de incio de manh aparecia atravs das janelas
enormes. Ela parou por um tempo junto  vidraa, olhando a vista: o trecho de gramado amplo, o
brilho calmo da piscina, o cu azul claro sem uma sugesto sequer de nuvem. Seria outro dia lindo,
mas de algum modo o belo clima s a deixava ainda mais infeliz.
    Quem poderia saber que no fundo a moa tinha um veio dramtico?
    Envolvendo-se nos braos nus, Serena desceu a grande escada principal at o saguo de piso de
mrmore, olhando os danos da festa: copos de vidro com os restos pegajosos de coquetis quase
acabados enfileirando-se na mesa da entrada, pontas de cigarro amassadas no cho, pratos de papel
abandonados cheios de hambrgueres semi consumidos espalhados de qualquer maneira na mesa de
centro. Indo para a sala, ela olhou os convidados recostados e dormindo apaticamente nos sofs de
couro, as garrafas de bebida vazias deitadas ao lado deles.
    S espero que a empregada venha hoje!
    Ela examinou as caras dos convidados adormecidos dormindo e tranqilos, e no entanto sem
saber da ressaca horrenda que os esperava em seu futuro imediato. Todo mundo parecia to doce e
inocente. S algumas horas antes, todos tinham feito um coro de porre de "Parabns pra voc". Ela
fingiu no perceber como eles murmuravam quando tinham que dizer seu nome. Alm de Erik e
Henry, as nicas pessoas na festa que sabiam seu nome estavam ocupadas demais no segundo andar
para cantar.
    Ela achou um copo limpo na cozinha e o encheu de gua gelada, bebendo ansiosa para tirar o
gosto de bafo matinal da lngua.
    Nham.
    Subindo na bancada, ela ficou empoleirada ali por um tempo, sentindo-se a ltima pessoa viva
depois de uma bomba nuclear ou outro desastre. Mas o silncio ajudou a clarear sua mente. Hoje
era seu aniversrio de 18 anos, mas ela no estava pensando no que ia fazer. Pela primeira vez em
muito tempo, no conseguia parar de pensar no passado.
    Todo mundo sempre achava que ela era to despreocupada quanto aparentava, mas a verdade
era que ela atuava mesmo. Pelo menos, de vez em quando. Afinal, at ela ficava um lixo quando
chorava. E, naqueles primeiros dias na Hanover, ela chorou muito.
    Ela pulou da bancada e voltou  biblioteca, abrindo as muitas gavetas da escrivaninha de
madeira do pai at encontrar papel de carta. Depois, em vez de se sentar na cadeira gigante de
couro, ela se meteu debaixo da mesa. Era um de seus esconderijos preferidos quando era pequena.
Escuro, aconchegante e seguro, com o cheiro mido de madeira antiga. Ela puxou a cadeira
giratria para ficar completamente escondida e comeou a escrever. Depois de dizer tudo o que
precisava, tinha enchido trs pginas do papel Crane marfim.
    Saindo do esconderijo, Serena colocou as folhas num envelope e o selou com duas lambidas.
Rabiscou um nome na frente e depois, andando rapidamente para no perder o mpeto nem pensar
duas vezes, ela saiu correndo da casa e foi para a entrada de carros. Dezenas de carros estavam
estacionados no meio do gramado, mas foi fcil localizar o Aston Martin verde, a capota arriada,
cheio de orvalho e cintilante na luz cinza-dourada da manh. Ela andou at ele decidida, abriu o
porta-luvas e deixou o envelope ali, de cara para cima.
    Algum ia ter uma grande surpresa.




Air Mail - Par Avion - 14 de julho
Querido Dan,

Caraca - que baita novidade! Quem sabe no podemos fazer compras juntos
quando eu voltar? Ou patinar no gelo? Agora voc gosta dessas coisas?

Estava falando com a mame sobre isso e ela disse que, quando voc era
pequeno, sempre se escondia no armrio dela, experimentando os vestidos de
lantejoula dos anos 1970. No  engraado? Meus parabns por finalmente
assumir!

Eu te amo !

Jenny
a gata pegou o trem da manh
- Cheguei em casa - sussurrou Vanessa ao entrar rapidamente no grande apartamento de Dan no
Upper West Side. Ela colocou com cuidado a mochila em uma poltrona cheia de casacos de
inverno, embora fosse vero. Eram s 8h e no pareciajusto acordar a casa toda s para
anunciar seu retorno sem dvida nada triunfante. Quantas vezes entrou de fininho ali? Era
basicamente o nico lugar que tinha no mundo que podia chamar de casa, e j precisara se
retirar para l um nmero perturbador de vezes nas ltimas semanas: primeiro, depois de ser
expulsa sem a menor cerimnia do apartamento em Williamsburg, em seguida depois de ser
demitida de seu primeiro emprego de verdade em Breakfast at Fred's, e agora depois da fase curta
como bab descuidada e ento musa inspida de um Bailey Winter loucamente entusiasmado.
    Que vero!
    - Quem est a?
    Meio assustada ao ouvir a voz de Dan - pelo menos parecia a de Dan - to cedo de manh,
Vanessa pestanejou no corredor ainda escuro.
     - Dan? Sou eu. Vanessa.
     - Vanessa - murmurou Dan com tristeza. Estava mais plido do que o de costume e as
bochechas tinham uma sujeira de barba irregular, como se ele tivesse comeado a se barbear e
depois tivesse mudado de idia. Crculos cor de berinjela contornavam seus olhos e ele estava
agarrado a um cigarro como se tivesse se esquecido de acender e depois esquecido de que estava ali.
Caraca - algum realmente no  uma pessoa matinal. - Dan? Voc est to ... - ela parou, vendo
seu cabelo oleoso e grudado de sujo. De repente ela foi dominada pela sensao de querer lev-lo
para o banho e preparar um mingau de aveia para ele. Vanessa saltou para a frente, pegando-o nos
braos. Ele tinha cheiro de cigarro ranoso e suor, mas por algum motivo Vanessa ainda achava
isso reconfortante. Mas assim que ela se aproximou um pouco mais, cheirando seu pescoo mal
barbeado, ele se afastou de seu abrao. -Voc est bem? - perguntou ela preocupada.
     - No sei. - Dan colocou o cigarro apagado no canto da boca e bateu nos bolsos. - No consigo
encontrar meu isqueiro. - Ele parecia quase  beira das lgrimas.
    - Seu isqueiro? - No parecia ser este o nico problema. Coitado do Dan, s vezes ele levava a
imitao de Keats meio longe demais.
     - No importa. - Dan tirou o cigarro da boca e o colocou atrs da orelha, onde uma massa de seu
cabelo sujo e pegajoso o manteve no lugar. - Vou fazer um caf. Quer?
    Na verdade, s o que ela queria era desmaiar na cama, possivelmente com Dan, mas ele estava
agindo de um jeito totalmente estranho. E alm disso o cheiro dele era estranho.
    - Um caf seria timo. -Vanessa colocou o brao delicadamente nos ombros de Dan, como se
ele fosse um bichinho delicado que precisava de conforto. Ela o levou para a cozinha pelo corredor
cor de arroz integral. - De repente eu posso fazer, e voc s fica sentado l e me conta por que est
to mal.
    Dan se arrastou pelo corredor atrs dela, mas nem tinham chegado na cozinha quando as
palavras saram dele num rompante.
     - Deixei aquele cara que conheci na Strand me beijar.
Criamos um salo juntos. Eu sou gay. Meu pai disse que fez umas coisas de gay quando saa com
poetas naquela poca, mas eu ... Eu sou gay de verdade.
    Vanessa passou por ele e entrou na cozinha. Na bancada, ela abriu a tampa do vidro tamanho
comercial de caf Folgers. Dan se sentou  mesa velha de frmica e afundou a cabea nas mos.
    - Como assim, "criaram um salo"? - perguntou ela, ignorando totalmente a parte gay da
equao. - Voc  o Sr. Nunca cortei o cabelo. O que voc sabe sobre sales?
    Dan teve que sorrir.
    - No, um salo literrio. Um salo - repetiu ele, com nfase. Ele parou de sorrir. Meu Deus, ele
parecia gay. - Teve um monte de garotas bonitas na nossa primeira reunio e elas estavam se
beijando tambm. -Ele franziu a testa, totalmente confuso. - Mas eu beijei o Greg.
Vanessa colocou a gua no microondas e a despejou em duas canecas que no combinavam,
mexendo colheradas de caf instantneo. Ela tomou um gole e fez uma careta. Meu Deus, depois do
caf maravilhoso que ela andou tomando nos Hamptons, o Folgers tinha um terrvel gosto de xixi
de cachorro.
    - Deixa ver se entendi direito. - Ela tomou outro gole do caf cido e olhou a cozinha, passando
os olhos pela montanha de pratos sujos e a tigela de bananas em decomposio at o banquinho
frgil em que Dan se empoleirava miseravelmente. - Ento ... Voc  gay. Dan Humphrey. Gay.
No gay de feliz. Gay-gay. Gay do "tipo gosto de beijar homens".Vanessa ergueu em dvida as
sobrancelhas escuras.
    - Eu no diria que gosto de beijar homens. - Dan franziu o cenho. - Mas beijei.
    Meu Deus. Ela s se afastara por trs dias e Dan j havia conhecido outra pessoa. Mulher,
homem, macaco. Parecia meio rpido demais.
    - Bom, eu comi uma salada ontem. No quer dizer que sou vegetariana.
    - No  assim to simples. Recebi um postal da Jenny, que disse que minha me contou que eu
costumava colocar os vestidos dela quando era criana. - Dan passou os dedos no cabelo, destruindo
sem querer o cigarro que tinha colocado atrs da orelha s alguns minutos antes. - Que droga.
    -  simples sim, Dan. Olha s, ou voc  gay, ou no .
Ou ... - Vanessa parou, pensando na terceira opo. - Ou  bi. Talvez seja isso. Voc s est ...
explorando. Descobrindo a SI mesmo.
    - Voc acha isso? - A cara de Dan se iluminou por um momento. - Quer dizer, Greg  legal.
Gostamos das mesmas coisas. Mas ontem  noite, quando ele estava aqui, eu pirei total. E no beijei
o cara de novo. Simplesmente no pude.
    Parte de Vanessa ainda queria ficar irritada com Dan por ter beijado algum enquanto ela
estava, ai, considerando Chuck Bass um substituto para Dan, mas ela no conseguiu deixar de se
comover com o estado pattico de confuso dele. O franzido na testa parecia estar ali h dias e os
ombros tombados de derrota a faziam querer lev-lo para o quarto e coloc-lo na cama como um
beb. E depois transar com ele.
    Mas ela deixou essa idia de lado por um instante. Dan era gay, ou talvez bi. Mas ele tambm
foi um monte de outras coisas em pocas diferentes: uma sensao celebrada da literatura, um deus
do rock por uma noite, um orador rebelde de formatura, um pirado em exerccios. Agora ele era
gay. Esta fase no podia durar mais do que as outras, e quando ele se cansasse de ser gay ou
percebesse que ser gay significava realmente beijar homens e no mulheres - ela em particular -,
bom, ela estaria no quarto ao lado.
    - Olha, Dan. -Vanessa despejou o resto do caf amargo na pia abarrotada e deixou a caneca na
bancada. - Voc precisa parar de ser to rgido consigo mesmo. Quer dizer, no h nada de errado
em ser gay, h?
    - Claro que no! Thomas Mann era gay. E ele ganhou o prmio Nobel.
    -  verdade. -Vanessa sorriu, satisfeita por ouvir Dan parecer um pouco mais com ele mesmo.
To previsvel, to facilmente influenciado. Ele que tirasse essa histria de gay do sistema; ela
podia esperar. - Ento ... eu adoraria conhecer esse gay, o Greg.
    - ? - respondeu Dan, todo ctico. -  mesmo?
    - . - Vanessa deu de ombros. Agora que Dan era gay, ela podia fazer coisas como sentar no
colo dele, n? Ela decidiu tentar. -  mesmo - acrescentou ela, empoleirando-se no joelho ossudo de
Dan. Dan passou os braos nela e enterrou o nariz entre suas omoplatas.
    - Obrigado - disse ele, a voz abafada. -Voc  minha herona.
    Ei, talvez ele seja mesmo gay.



lindo endereo de e-mail.amigo ...
   PARA: Song of Myself <undisclosed recipients>
  DE: Greg P. <wilde and out@rainbowmail.net>
  Re: Prxima Reunio da Song Of Myself!

  Caros amigos,

  Espero que tenham gostado da reunio tanto quanto eu. Fico feliz em dizer que
  nosso primeiro encontro j resultou em alguns romances florescentes - uma
  conseqncia feliz de reunir tantos indivduos de mente criativa. Espero
  podermos continuar a inspirar e animar uns aos outros em todas as nossas
  reunies!

  Para nosso prximo encontro, por favor, levem sua obra preferida de
  Shakespeare e vamos nos revezar para ler em voz alta. Mostre-me a sua que eu
  mostro a minha!

  Com amor e pentmetro imbico,

  Greg
na estrada de novo
- Encosta!
    - Qu? - A nica desvantagem do conversvel do pai dele era que tornava uma conversa quase
impossvel enquanto se dirigia. Nate virou-se e viu Blair apontando freneticamente para uma placa
anunciando um daqueles mirantes bregas em que j havia algumas minivans estacionadas sob um
abrigo.
    Mas que t-di-o.
    - Quer que eu pare? - Nate j estava reduzindo e encostando. Ele sabia muito bem que no devia
discutir com Blair.
    - Vai ser divertido. - Blair revirou a bolsa de palha Coach que encheu apressadamente e
desenterrou uma cmera digital. - Roubei da casa de Serena. Espero que ela no fique brava demais.
    Nate franziu o cenho  meno do nome de Serena. Ele ainda se sentia meio culpado
por escapulir da casa dela sem se despedir - e no aniversrio dela. Blair o convencera de
que Serena no ia querer ser acordada por um telefonema de manh, fosse ou no seu
aniversrio, e era provvel que ela nem tivesse ido para a cama sozinha. E aquela era a casa
dela, ento eles no a largaram no meio do nada.
    Diga o que quiser, se precisa se convencer.
    Antes mesmo de Nate desligar o carro, Blair j havia sado de seu banco e pulado para o
murinho de pedra que separava a rea de estacionamento da queda drstica em um vale profundo e
cheio de rvores. Ela estava com o menor short branco que ele j vira e ele deixava as pernas de
Blair ridiculamente pegveis. Ela pulou no murinho e fez um bico.
    - Tire uma foto!
    Sorrindo e excitado ao mesmo tempo, Nate se atrapalhou com o cinto de segurana e saiu do
carro num rompante, contendo-se para no correr at o muro de pedra e enfiar as mos por baixo
daquele short minsculo. Ele pegou a cmera da mo estendida de Blair.
    - Diga giz.
    Blair colocou a lngua para fora e ficou vesga.
    - Linda. - Nate riu para a Blair bronzeada, feliz e bonita na telinha de LCD.
    Blair bateu no muro ao lado dela. - Tire uma de ns dois juntos.
    Nate subiu no murinho e segurou a cmera na frente dos dois. Blair apertou o rosto macio no
dele. O cheiro dela o deixou tonto e ele estendeu o brao livre para se equilibrar.
    Cuidado a, pegador.
   - Quero que todo nosso vero seja exatamente assim. Blair passou o brao pelo dele e
suspirou. - Ns dois, sozinhos no mar aberto. Sem gente, sem preocupaes. Ser perfeito. -
Exatamente como no filme em reprise constante em sua cabea.
     Nate assentiu.
     - Estou louco para sair no mar. - A imagem mental de Blair de biquni, recostada no convs do
Charlotte, o tomou. At que enfim estava acontecendo. Comeava o vero de verdade que ele queria
ter, e tudo estava se encaixando. Dirigir para o nordeste naquela tarde tranqila de vero, para o
mar, para a liberdade, com Blair bem ao lado dele ... Nate podia sentir que saa de seus ombros o
peso de todos os erros que cometeu no passado. Ele nunca roubou aquele Viagra do treinador; no
teve o diploma suspenso; no ficou com Tawny; nunca passou pomada na tatuagem de Babs. S
tinha passado a noite com Blair e estava prestes a passar o resto do vero com ela e talvez o resto
da vida. Tudo estava como devia no Universo.
- T legal. Hora de dirigir. - Era quase como se Blair estivesse lendo sua mente. Ela pulou do muro,
pegando a cmera da mo de Nate para ver as fotos que ele tinha tirado. - S preciso dar mais uma
parada. - Ele assentiu na direo do bangal de concreto que abrigava os banheiros no acostamento.
    - Mas seja rpido. - Blair lhe deu um beijo no rosto antes de pular no banco do carona.
    Dentro do banheiro fedendo a qumica, Nate se concentrou no que aconteceria dali a algumas
horas, quando eles enfim chegassem a seu destino. Ele fechou os olhos, imaginando Blair pulando
na frente dele, na prancha e no iate, mostrando aquele short branco mnimo ao prosseguir.
     Enquanto lavava as mos, Nate sentiu o tranco conhecido do celular vibrando no bolso da
bermuda cargo. Devia ser Blair, dizendo-lhe para se apressar. Ele sorriu. Algumas coisas
jamais mudavam - como a impacincia de Blair. Ele discou a caixa-postal, esperando ouvir a
mensagem sexy que ela deixara para ele enquanto secava as mos. O telefone estava
empoleirado precariamente entre sua orelha e o ombro e ele quase o deixou cair na pia quando,
em vez de ouvir a voz maliciosa e alegre de Blair, ouviu o rosnado furioso do treinador
Michaels.
     Archibald, no sei que diabos pensa que est fazendo, mas  melhor que esteja em seu
leito de morte agora. Achou que minha mulher ia lhe dar cobertura? Pode esquecer, garoto. Ela
disse que voc estava fumando maconha na droga do sto. Debaixo da droga do meu teto.
Voc pensa que eu estava blefando, Archibald? Vou ligar para o seu pai no minuto em que
desligar esse telefone. Acabou, garoto. Nunca mais vai ver seu diploma. Vale? No vai
acontecer. Um grande erro, garoto, mexer comigo. Um erro dos grandes. E ainda no acabei
com voc."
    Nate terminou de secar as mos na bermuda, depois pegou o telefone, martelando o boto
que apagaria essa mensagem para sempre. Ele o colocou no bolso de trs e examinou seu rosto
no espelho rachado. Tinha que dar o fora dali.
   Falou como um verdadeiro foragido.


a carta furtada
- Oi,  a Blair. S queria ligar e dizer, sabe como , feliz aniversrio. Desculpe a gente ter ido
embora. Vou ligar mais tarde e contar tudo.
    Fechando o telefone e atirando-o na bolsa, Blair se recostou no couro quente do banco e
bateu o p com impacincia. Por que estava demorando tanto? Quanto mais cedo pegassem a
estrada, mais cedo chegariam ao Charlotte e mais cedo ela se esticaria no convs de madeira,
tomando sol s de calcinha, bebendo limonada batizada e alimentando Nate com lascas de
ostras cruas com os dedos. Era assim que ela pretendia passar cada minuto do resto do vero.
    No  um plano ruim!
    Ela virou o retrovisor para examinar o rosto: seus olhos estavam brilhantes e claros, a pele
banhada de sol e impecvel, o cabelo pontilhado de ouro. Ela sorriu para si mesma. Todo o
estresse do vero tinha desaparecido: ela nunca iria a Londres com Lorde Marcus; no seria
escada para Serena na estria do filme; no veria Nate de mos dadas com uma caipira brega
de Long Island. Tudo estava como devia ser: ela e Nate, apaixonados, para sempre.
    Blair mexeu preguiosamente no som, mas Nate estava com a chave do carro no bolso, ento
ele no funcionou. Impaciente, ela abriu o porta-luvas. Ele revelou um envelope branco com um
nome escrito numa letra que ela conhecia.
   Nate.
    - Mas o que  isso? - disse Blair em voz alta. Ela pegou o envelope. Por que Serena deixou um
envelope para Nate? Olhando o banheiro para confirmar que Nate ainda estava l dentro, ela
passou a unha sob a aba do envelope. Abriu o papel e comeou a ler os rabiscos manacos de
Serena.

     Nate: acabo defazer 18 anos ha algumas horas. Quando o relgio bateu, eu olhei em volta e no encontrei voc.
Sei que estava com Blair e, se vocs realmente esto felizes, ento fico feliz por vocs. Como poderia no querer que
algum que voc ama seja feliz? Mas esse  o problema) Nate ... Acho que eu amo voc. Sei que parece loucura) e
houve tantas outras vezes em que eu devia ter falado isso) mas s me ocorreu ontem  noite) e se eu no disser isso
agora) quando  que vou fazer?  s que - sempre foi voc. J se perguntou por que eu voltei no putono passado?
Ontem  noite) quando ...

   Blair parou no meio da frase, folheando impaciente os papis, trs pginas completamente
cobertas da letra torta e grande de Serena. Seu corao martelava no peito. No havia dvida do
que fazer. Ela olhou para os lados para confirmar que estava sozinha, depois saiu do carro e voltou
ao mirante.
    Com cuidado, rasgou a primeira pgina da carta ao meio, depois a metade em quartos, e
continuou rasgando at que s o que restou foi um punhado de confete, que ela manteve na mo
em concha. A brisa quente ergueu as tiras de papel de sua mo e as mandou numa chuva pelo vale.
Ela fez o mesmo com as outras duas pginas e o envelope tambm, rasgando-o em pedacinhos para
que a letra de Serena ficasse s uma confuso de formas sem significado, que o vento ergueu e
mandou voando vale abaixo.
    Blair voltou ao carro e pegou o celular na bolsa. Examinou o telefone por um momento.
Deveria ligar para Serena? Dizer a ela que sabia tudo sobre a carta, que ela sabia como sua
supostamente melhor amiga realmente se sentia com relao a seu namorado? Ou deveria s bancar
a inocente, ignorar a piranha duas caras e se concentrar no vero perfeito que se estendia diante
dela? De repente ela no se sentiu to mal por fugir de Serena no aniversrio dela.
    Srio.
    - Pronta para ir? - Nate deslizou para o banco do motorista, um sorriso infantil se abrindo na
cara perfeita.
   - Pronta. - Blair colocou o cinto de segurana. Apertem os cintos - vai ser uma viagem muito
   doida!


antes tarde do que nunca?
Mais uma vez Serena estava deitada na cama toda branca encarando o teto, tentando dormir, agora
que finalmente admitia como se sentia. O teto estava marcado onde ela colocara, pouco antes de ir
para a Europa, dezenas de estrelas que brilham no escuro, e ela contava as estrelas restantes pelas
ltimas trs horas, desde que deixara a carta no Aston Martin. Ela perdia a conta e recomeava. E
talvez tenha dormido, ou talvez no. Henry se mexeu ao lado, colocando o brao em seu peito.
Parecia pesado e sufocante. Ela j estivera neste exato lugar, exatamente um ano antes: apaixonada
por Nate, mas deitada ao lado de Henry. Ela mesma admitia isso e tinha tirado o peso do peito, mas
por que no conseguia dormir?
     Andou pensando melhor?
     Ela saiu da cama pela segunda vez naquela manh e andou pelo corredor. No trreo, algumas
pessoas colocavam garrafas na lixeira e sussurravam sobre a dor de cabea. Do relgio do vov
embaixo ela ouviu que no era mais manh: era exatamente meio dia. Ela arrancou a camiseta
branca que vestia. Dizia BROWN em letras maisculas no peito e caa abaixo dos joelhos.
     Ela nem sabia por onde estava andando at que chegou l, mas logo se viu diante da porta
fechada do quarto dos pais. Sabia que Blair e Nate estavam l dentro. Provavelmente eles fizeram
um forte com os muitos travesseiros enormes na cama, que Blair apelidou de Toca do Beijo ou
alguma coisa brega ... Ou totalmente adorvel, se voc estivesse apaixonada. Que era o caso de
Nate. Por Blair.
     Ento por que Serena estava declarando seu amor por ele agora? Houve tantas outras ocasies
no ano anterior em que ela podia ter dito isso a ele. Como quando eles ficaram quase nus em uma
sala de provas na Bergdorf. Ou quando eles se beijaram na banheira da casa de Isabel Coates nos
Hamptons. Ou quando ela decidiu no voltar para o internato e em vez disso foi para Nova York.
Mas ela no disse. No disse a ele em nenhuma daqueles vezes principalmente porque ficou com
medo. De que ele no a amasse tambm, e no amava. Ele amava Blair.
     Ela recuou da pesada porta de madeira que levava ao quarto dos pais e foi para a escada, onde
Nate dissera a Blair que a amava naquela mesma noite. Ento por que ela de repente declarou o
amor dela por Nate, agora, no pior momento possvel?
     - Ei, voc  a aniversariante. - Um cara que ela nunca tinha visto olhou para ela do p da escada.
O cabelo castanho desgrenhado estava num coque confuso no alto da cabea. Selima, n?
     - Serena - disse-lhe ela.
  - T, acha que pode me dar uma carona para a estao de trem? - Ele colocou a mo sob a camisa
  plo manchada de suor e roda de traas para se coar, revelando um pedao da barriga cabeluda.
       Eca.
     Serena desceu um degrau da escada, deixando que a mo deslizasse no corrimo de madeira.
     - Acho que as pessoas vo comear a acordar logo. Algum vai levar voc.
    - Legal. - Ele espreguiou os braos para cima, bocejou alto e voltou para a sala, onde as
pessoas ainda se esparramavam por cada superfcie macia. Ela ouviu algum murmurar "Caaaara"
enquanto desabava no antigo sof de couro com botes.
    Serena passou pelo saguo de mrmore at a porta e se demorou ali por um momento, a mo
na maaneta, antes de abrir a porta e sair. A frente da casa estava bem sombreada e fresca, e ela
passou os braos pelo corpo para se proteger ao olhar a entrada de carros.
    No tinha certeza se estava mesmo reconsiderando, ou no, ou se queria voltar de fininho at o
carro e pegar o envelope que tinha deixado ali. Mas a deciso j fora tomada por ela. O Aston
Martin no estava em lugar algum. Nate - e presumivelmente Blair - tinham ido embora.
    E levavam um material de leitura bem picante com eles.




velejando para o pr-da-sol
Blair se ajoelhava no banco do carro enquanto N ate reduzia o Aston Martin e parava na frente do
caiado Iate Clube de Newport. O porto cintilava no sol de meio-dia. Blair respirou o ar salgado e
quente do mar. Ficou sacudindo a cabea, deixando que as mechas sopradas pelo vento girassem
nos ombros, o que ela esperava parecer sensual. Na verdade, ela s tentava tirar da cabea a carta de
Serena. Sinceramente, que droga foi aquela?
    - Nem acredito que estamos mesmo aqui. -A voz de Nate chamou sua ateno. Apesar de terem
dirigido por centenas de quilmetros s para chegar ali, Nate no parecia nada ansioso para sair do
carro. Ele abriu o cinto de segurana e ficou sen~ado no banco, olhando, pelo pra-brisa mnimo do
carro, a floresta de mastros no porto.
    - Qual  o problema? - Blair abriu a porta e pulou para que o sangue voltasse a fluir pelas
pernas.
    - Qu? Ah, nada. - Nate pareceu sobressaltado.
    Blair colocou os punhos nos quadris. Sua blusa de voile de algodo flutuava no vento.
    - Tem certeza de que est tudo bem? Voc parece meio ... distrado.
    - No, no, t tudo bem. - Nate se levantou e bateu a porta do carro. - Mas acho que temos que
fazer alguma coisa com o carro. - Ele franziu a testa.
     Blair ajeitou a bolsa e se empoleirou no cap ainda quente do Aston Martin verde. Nate parecia
mais do que distrado. Dava a impresso de que ia vomitar. Havia alguma possibilidade de ele saber
da carta? Ou ser que Serena ligou para ele enquanto ele estava no banheiro? Por que  que ele
demorou tanto? Blair se remexeu, impaciente. O que  que estava pegando?
     - Nate, tem alguma coisa que queira me dizer?
     - Qu? No - respondeu ele, colocando a chave no bolso. - Estamos mesmo fazendo isso, n?
     - Estamos mesmo fazendo isso! - Deixando a bolsa no cap do carro, Blair correu at Nate e se
atirou nos braos dele. Uma gaivota branca sobrevoou o estacionamento. - Voc parece preocupado.
     - No estou no. S estou ... Pensando em tudo. No se torture.
     Respirando o cheiro delicioso de Nate - o desodorante dele, um toque de sabonete de lavanda
do banheiro do quarto dos pais de Serena, o cheiro do mar que de alguma maneira j se infiltrara em
sua camiseta - Blair fechou os olhos.
     - No se preocupe, Natie.  vero. E estamos juntos.  tudo o que importa, n?
Nate se afastou o suficiente para olhar seu rosto. Blair sorriu para ele, esperando por um momento
que eles naufragassem em algum lugar e que nunca tivessem que ver Serena de novo. Eles iam
morar numa cabana de bambu, procurar por comida e ficar nus o tempo todo. Quem precisava de
roupas quando se tinha um ao outro?
    Ela devia estar completamente louca.
    - Tem razo. Que se dane. Que se danem tudo e todos.
- Depois ele se inclinou e apertou a boca deliciosa na dela.
- Vamos dar o fora daqui.
    Mas no deixem de mandar um postal.




                                 ai, gente!
Sabe o que  totalmente idiota? Finais felizes.  srio. Como quando estou no cinema e vejo uma garota
corajosa e decidida finalmente ficar com o protagonista - e nas ltimas duas horas eu sabia que ela ia
terminar com ele mesmo - e eu s quero arrancar fora os olhos dela. A vida real  terrivelmente confusa e
complicada e nada simplesmente termina ... Quer dizer, se vocs me permitirem ficar toda filosfica por um
minuto, todo final  na verdade outro comeo, no ? T legal, agora vou calar a boca.

Ento, enquanto B e N podem estar velejando para o sol poente, algo me diz que esta histria est longe
de acabar. Em especial quando h tantas perguntas esperando por uma resposta. Por exemplo:

Ser que B vai contar a N da carta de S?

S vai encontrar N e dizer ela mesma?

B vai atir-Ia para fora do barco se ela fizer isso?

Ser que D realmente vai ficar com outro homem? De novo. E eles vo mais alm?!

V realmente vai dar fora para ele, se ele fizer isso?

E, sejamos realistas, quanto tempo esses dois podem dividir o apartamento e no a cama? Talvez ele seja bi,
afinal.

E  claro que h a maior pergunta de todas: Quem sou eu? Sei que vocs esto totalmente loucos por mais
sujeiras minhas, ento aqui est um petisco interessante sobre sua amada (e no venham me dizer que nunca
Ihes disse nada): nunca consegui guardar um segredo, quer dizer, a no ser o segredo de quem eu sou,  claro.
Mas segredos como o de S, sendo guardados por todos esses anos? Tiro o chapu para ela! Posso entender que
tenha enganado os amigos e at a famlia, mas se voc consegue me deixar no escuro, bom, bravo! Ento, o que
mais ela est escondendo? Tenho a sensao de que h muito mais para ser descoberto aqui ...

Sei que esto morrendo de vontade de saber as respostas. Bom, eu tambm. E vocs sabem que eu sempre
consigo o que quero.

                  Pra voc que me ama,
                   gossip girl



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